Quebrando paradigmas: o ex-voto, um patrimônio em resistência e transformação

Data de recebimento: 1º de maio de 2026

Aceitação: 3 de maio de 2026

O dossiê “Quebrando paradigmas: o ex-voto, um patrimônio em resistência e transmutação”, incluído nesta nova edição de Encartes, é fruto das apresentações e discussões realizadas durante o colóquio internacional “O ex-voto: um patrimônio em movimento”,1 que ocorreu nos dias 10, 11 e 12 de janeiro de 2024 na Casa da França, na Cidade do México, como parte do irn miracle (Mobilidade internacional de pesquisas sobre as conexões e os limites do ex-voto).2 Essa rede reúne várias equipes de especialistas que participam da renovação das pesquisas realizadas nos últimos anos sobre o ex-voto, a partir de uma abordagem multidisciplinar que associa antropologia, história e história da arte, sociologia e museologia. Essa dinâmica responde, em parte, aos desafios de natureza epistemológica e disciplinar que a perspectiva de estudo centrada na cultura material apresenta para as ciências humanas e sociais.

Circulação, inter-relação e subversão

A globalização implica uma ampliação dos fluxos de bens e pessoas, acentuada pela circulação por meio dos canais digitais. É nesse contexto que se desenvolvem os visual, material e estudos culturais do lado anglo-saxão, que mudam o olhar sobre as imagens e os objetos por meio da análise de suas circulações e de suas materialidades. Por isso, o interesse pela vida dos objetos (Kopytoff, 1990), em sua agência (Gell, 1998) e nos poderes das imagens (Freedberg, 2004) não é alheio à renovação das pesquisas realizadas sobre o ex-voto ao longo desses vinte anos. De fato, a abordagem antropológica das imagens rompe com uma recepção baseada no sentido visual para se concentrar nos usos que se fazem delas, graças ao estudo das interações que elas suscitam. No lado francês, tanto a antropologia quanto a sociologia passaram por uma importante mudança de paradigma nos últimos anos, com o foco voltado para as interações entre humanos e não humanos.3

Ora, o ex-voto se apresenta como um objeto de estudo particularmente heurístico, na medida em que sua análise permite mobilizar as noções de circulação, de biografia do objeto, de agência e de poder atribuídas às coisas. A prática votiva manifesta-se como a promessa de uma oferta feita a um poder superior em troca de sua intercessão favorável. Nessa relação estabelecida entre o humano e o não humano, o ex-voto funciona como um agente de conexão que se materializa de formas muito variadas. A região latino-americana é um campo de pesquisa particularmente fértil em termos de práticas e usos votivos. O resultado é uma materialidade vigorosa, eclética e massiva, que assume formas votivas tradicionais, mas também cria novas, o que ressalta o caráter ao mesmo tempo perene e mutável do ex-voto. Essa abundância material torna o ex-voto um objeto privilegiado para o estudo das inter-relações. Por meio de suas circulações, o ex-voto leva à interação entre categorias que costumamos separar: humano/não humano, individual/coletivo, cultura erudita/cultura popular, religião/estética, tradição/inovação (Fabre, Perrée e De la Torre, 2021: 49), além de que seu estudo permite descobrir relações, e não apenas oposições.

Os quatro artigos reunidos neste dossiê testemunham essa dinâmica relacional que rompe com os paradigmas que costumamos utilizar. Assim, a análise de Patricia Fogelman mostra como o edifício votivo da catedral de Luján articula o secular com o religioso no campo da política e da economia. Por sua vez, o estudo de Carlos Mora explica como as circulações virtuais de ex-votos visuais implicam o deslocamento do devocional para uma ressignificação secular e profana, de maneira lúdica e crítica; seu autor aborda, portanto, modalidades contemporâneas da prática religiosa de forma transgressiva. Ao considerar o ex-voto como um “ator-rede”, tal como defendido por Bruno Latour, Michel Callon e John Law, José Cláudio Alves Olveira destaca seu caráter de objeto ativo em um sistema relacional entre tradição, religião, comunicação e ciberespaço.

No entanto, o dossiê revela uma dimensão própria dos usos do ex-voto na América Latina e, em particular, no México: suas circulações subversivas, que oferecem resistência às normas estabelecidas pelos poderes dominantes. Os artigos de Diana Perea e Carlos Mora destacam as tensões que a prática votiva gera entre o lícito e o ilícito, o moral e o imoral, a norma e sua transgressão. Os ensaios fazem referência a uma materialidade que invade uma prática votiva tradicional para subverter os poderes que a organizam, utilizando seus próprios códigos. Os exemplos de ex-votos pintados citados por Carlos Mora e José Cláudio Alves Oliveira revelam um protesto sociopolítico com um tom frequentemente satírico. Carlos Mora menciona o ex-voto encomendado pelo embaixador dos Estados Unidos no México para agradecer à Virgem de Guadalupe pelos anos que passou como diplomata com sua família no país, em um momento em que as declarações anti-imigrantes de Donald Trump inundam a mídia e as redes sociais. Por sua vez, José Cláudio Oliveira analisa o ex-voto pintado pelo artista Donovan, que retrata uma mulher furiosa expulsando seu cônjuge infiel de casa. A Virgem de Guadalupe aprova a ação, enviando-lhe um raio luminoso como o dos super-heróis dos quadrinhos, enquanto de sua boca sai o ícone azul do comentário da rede social Facebook. Os criadores desse tipo de ex-voto recorrem à estética pictórica votiva tradicional, mas a reinterpretam de maneira transgressiva pelos temas abordados, pelos códigos estéticos tomados das redes sociais e pela ausência de uma finalidade devocional. Nascido de um desfasamento entre tradição e inovação, o humor garante a cumplicidade do espectador e uma maior circulação do objeto subversivo. Arjun Appadurai destacou como “as imagens oferecidas pela mídia passaram pelo filtro da ironia, da raiva, do humor e da resistência locais” (2015: 36). Esses ex-votos vão além na resistência que opõem a diferentes poderes — sociais, políticos e religiosos —, pois utilizam, por sua vez, a mídia como uma ferramenta de circulação a serviço de um objetivo subversivo.

O ex-voto: um presente para criar laços

A dificuldade em identificar o objeto votivo traz à tona o problema de sua denominação, pois “exvoto” não é uma palavra usada pelos fiéis, mas sim pelos estudiosos. Essa palavra deriva da expressão latina exvoto suscetível, que se traduz como “proveniente de um voto”. A palavra “ex-voto” remete-nos à cultura romana, embora seu uso tenha sido herdado da cultura grega antiga. Nessas antigas culturas politeístas, a prática votiva distingue-se de outras práticas de oferendas porque se expressa como a promessa de uma doação feita a uma força superior em troca de uma intercessão favorável. Conforme destacamos na introdução do livro: O ex-voto ou as metamorfoses do dom, “a palavra ‘exvoto’ foi introduzida como tal nas línguas de origem latina sem recorrer à tradução, como se designasse uma realidade singular que não tivesse equivalente na língua utilizada” (Fabre, Perrée, De la Torre, 2021: 15).

No entanto, no continente latino-americano e, inclusive, na região ibero-americana, vários tipos de intercâmbios se baseiam nesse princípio, mas recebem nomes diferentes de acordo com o ato realizado, a forma que a doação assume ou a finalidade que a sustenta. Assim, o doador pode optar por cumprir sua promessa envolvendo-se de diversas maneiras: submete seu corpo a uma prova física por meio da “manda”; ao prometer um retábulo, opta por representar os protagonistas do evento; o membro ou órgão corporal em miniatura do “milagrito” designa a pessoa afetada de maneira metonímica; o mesmo ocorre com a doação de um objeto extraído da vida cotidiana, mas cujo uso se baseia em uma relação de contato com as forças sobrenaturais ou divinas invocadas.

A promessa de uma oferta em troca de uma intercessão favorável associa o ex-voto ao cumprimento de obrigações de gratidão pela graça recebida, acordadas em uma relação que Marcel Mauss descreveu como “dádiva/contradádiva” (Mauss, 1950 [1923-1924]). Essa relação enriquece a análise do ato votivo na medida em que evidencia a troca em jogo, embora valha ressaltar que o ex-voto não faz parte dos exemplos escolhidos pelo autor para ilustrar essa prática. De fato, a relação de dom/contradom foi teorizada por Mauss para descrever o potlach, e depois aplicou-a à relação que os homens estabelecem com os deuses, sem incluir a prática votiva. Na introdução da edição da revista Técnicas e Cultura Ao analisar a materialidade votiva, percebemos até que ponto os especialistas divergem quanto ao tipo de relação estabelecida pelo ex-voto. Alguns veem nisso um contrato que vincula os dois parceiros à promessa de uma doação; outros rejeitam qualquer ideia de troca para privilegiar a manifestação materializada de um desejo (Dittmar, Fabre, Golsenne e Perrée, 2018: 19). Essas diferenças residem, em grande parte, no contexto em que se desenvolve a prática votiva estudada. Ora, essa prática não se resume a um dogma religioso, pois o ex-voto é objeto de múltiplas apropriações.

Portanto, a relação estabelecida pelo ex-voto é complexa de se analisar, pois seus termos assumem a forma de um pacto, que poderia se assemelhar à transação comercial de uma dívida a ser paga. A oferenda em dólares ao santo popular Jesús Malverde, observada por Diana Perea em seu santuário em Culiacán (México), ilustra a expressão “pagar uma manda”. Essa expressão é muito comum para designar a forma como o doador agradece a intervenção da potência invocada. No entanto, a relação votiva é mais complexa do que uma simples dívida, pois a troca votiva torna o doador um devedor da potência, dentro de uma lógica sacrificial (Dittmar, Fabre, Golsenne e Perrée, 2018). Em seu artigo sobre a catedral de Luján, na Argentina, Patricia Fogelman explica que a materialidade da vela oferecida no santuário é o resultado visível da peregrinação prometida, que é uma forma votiva bem conhecida desde a Idade Média ocidental. A descrição mostra como, enquanto a presença de ex-votos que simulam o corpo desaparece dentro do santuário, a peregrinação perpetua a ação votiva do corpo no cumprimento da promessa.

A peregrinação revela uma temporalidade da prática votiva que implica atitudes corporais sacrificiais (Perrée, 2021: 164-165). O tempo dedicado ao cumprimento da promessa pode levar vários meses ou vários anos, dependendo das condições estabelecidas pelo doador ao formular sua promessa. Surge assim um calendário votivo, quando o doador cumpre sua promessa visitando o santuário vestido com o hábito do santo, como ocorre com São Judas Tadeu no México e com São Charbel Majluf no Líbano (Michelet Yazbeck, 1997: 103-104). O sacrifício não é simbólico quando o doador submete seu corpo à provação do sofrimento físico; por exemplo, se promete caminhar ajoelhado, com os joelhos à mostra, por uma distância por ele determinada, ou se faz tatuar em seu corpo a representação do intercessor invocado. Assim, o cumprimento da promessa tem um custo sensorial e um vínculo corporal com a potência invocada. Consequentemente, o cumprimento do compromisso acarreta um custo em vários níveis — sensorial, temporal e econômico — que cria um vínculo corporal e moral com a potência invocada. No entanto, essa potência também está sujeita a uma pressão, pois a oferta implica que a divindade está obrigada a agir. Consequentemente, alguns doadores não hesitam em tomar represálias quando seus desejos não são atendidos após terem cumprido as condições do contrato.

Esse tipo de relação contratual é comum na religiosidade católica, tal como é praticada na América Latina. Na maioria das vezes, as autoridades eclesiásticas desaprovam esses costumes, mas não têm poder para controlá-los, pois o ex-voto se baseia em uma relação direta entre o doador e a potência invocada. No catolicismo, o uso do ex-voto implica a transgressão de uma relação que deveria honrar o divino de maneira desinteressada, sem exigir nada em troca. Ao contrário, a prática votiva, muito presente na cultura devocional popular, tende a colocar os protagonistas em uma posição de igualdade. O uso do “você” observado por Diana Perea quando os doadores se dirigem a Jesús Malverde é uma prova disso: a relação votiva subverte o dogma porque rompe com a ideia de um poder de autoridade e com a suposta submissão dos fiéis. Assim, os artigos reunidos neste dossiê lançam luz sobre fenômenos de transgressão e subversão em diferentes escalas que decorrem do uso do ex-voto.

As práticas votivas implementadas dessa maneira são comparáveis às que existiam na antiguidade politeísta romana. Na verdade, a promessa só era cumprida se o parceiro divino tivesse cumprido a parte do contrato que o vinculava ao doador (Scheid, 2014). Para John Scheid, a relação votiva se apresentava como da ut dem (“dá pra eu te dar”), em vez de do ut des (“eu dou para que você me dê”), frequentemente utilizada para explicar a relação votiva. A especialista em religião romana destaca, então, a particularidade do ex-voto, enfatizando o caráter imperativo de agir em nome da divindade uma vez feita a doação. A promessa formulada pelo doador vincula os dois parceiros em uma relação de contribuição recíproca. Diana Perea constata que uma mesma materialidade votiva constitui, às vezes, um pedido e uma promessa ao mesmo tempo, criando laços de apego renovados a longo prazo entre o doador e Jesus Malverde, o que explica, em parte, a preservação da fé nessa ou naquela entidade.

O ex-voto: um objeto de estudo privilegiado para a cultura material

A partir da década de 2000, o historiador de arte Georges Didi-Huberman chama a atenção para a materialidade e a plasticidade do ex-voto, demonstrando a perenidade das formas orgânicas e anatômicas votivas (2006). Essa materialidade explica, em parte, a abordagem fragmentária aplicada até então, conforme ilustra a historiografia. Ao longo do século xx, o ex-voto tem sido estudado com maior frequência de acordo com a natureza do objeto (pinturas, maquetes de navios, partes do corpo, objetos do cotidiano, etc.), a época, a região geográfica ou o contexto religioso em que é utilizado. No entanto, a abordagem por áreas disciplinares também contribui para uma divisão histórica e temática que não favorece uma análise transversal. Relegado às margens da arqueologia, da etnologia, da sociologia ou da história, o ex-voto foi, por muito tempo, apresentado como um objeto de menor importância, folclórico ou, na melhor das hipóteses, como uma fonte de informação sociocultural.

Na década de 1990, o ex-voto pintado tornou-se um objeto de destaque na história das representações, especialmente com os trabalhos de Bernard Cousin, que contribuem para a preservação de um patrimônio em risco de extinção na França. Na mesma época, o estudo de Marianne Bélard (1997) sobre os ex-votos do santuário de São João dos Lagos, no México, insere-se em uma iniciativa semelhante, salvando do esquecimento um patrimônio local submetido a uma degradação inevitável. Sua valorização por meio de um CD-ROM, cujo conteúdo foi publicado em um site,4 marca uma primeira circulação digital desde o ano 2000 com fins patrimoniais. Por seu caráter figurativo, o ex-voto pintado continua sendo um documento socioantropológico de grande valor, como demonstram os ex-votos analisados por Carlos Mora e José Cláudio Alves de Oliveira. Realizados com fins não devocionais, talvez não tenham outro status além do de documentos que apresentam um contexto sociocultural. No entanto, a vitalidade do ex-voto no México reflete os processos de apropriação e interpretação aos quais ele está sujeito. Assim, essas pinturas votivas testemunham um imaginário desenfreado e híbrido, dotado de uma carga transgressora nos planos social e político.

Esses exemplos de imagens com estética votiva, mas sem finalidade devocional, destacam a dificuldade de distinguir o que é votivo do que não é. Nesse ponto, a categoria dos objetos torna-se ainda mais complexa, na medida em que testemunham uma materialidade fundamentalmente eclética, que não é menor nem anedótica. Em seu estudo sobre os ex-votos da catedral de Luján, Fogelman descreve como o ex-voto é uma forma arquitetônica monumental, já que a construção da catedral responde a uma promessa cumprida em sinal de gratidão. Em um efeito de “abismo”, essa construção contém outros ex-votos, já que palavras de agradecimento acompanhadas de nomes estão gravadas na pedra do edifício.

Dessa forma, o interesse pela materialidade permite questionar as modalidades e os desafios do caráter subversivo da prática votiva. Vale lembrar que essa prática foi incorporada tardiamente ao catolicismo na cultura ocidental, inicialmente na forma de objetos na Idade Média e, posteriormente, na forma de pinturas no século xv. Mas continua sendo, fundamentalmente, uma prática alheia ao catolicismo, à qual se integra mais ou menos bem, e talvez seja essa dimensão transgressora original que perdura no ex-voto atual. Em seu estudo sobre a capela erguida em homenagem a Jesús Malverde — um santo não reconhecido pela Igreja Católica — em Culiacán, no norte do México, Perea faz referência a uma materialidade votiva comum nas oferendas destinadas aos intercessores católicos tradicionais: flores, cartas, fotos, dinheiro, pinturas e desenhos. Mesmo sendo subversiva em relação ao dogma católico, essa potência ou divindade não humana é honrada da mesma forma que qualquer outro santo católico mexicano. A materialidade votiva estabelece o vínculo entre os intercessores e os legitima aos olhos de outros fiéis, atestando seus poderes, pois recebem o mesmo tipo de oferendas.

Embora circulem de forma virtual ou sejam criados graças à tecnologia, os ex-votos analisados por Carlos Mora não anunciam o fim da materialidade. Pelo contrário, eles ressaltam que a materialidade votiva é uma prática mutável e plástica, devido à sua transformação tecnológica e à sua capacidade de refletir sua época. A análise da transição da materialidade para a imaterialidade permite refletir sobre a articulação entre permanência e renovação, já que a iconografia votiva evolui pouco, enquanto os temas abordados e seus protagonistas são eminentemente transgressores. A circulação desses ex-votos criados sem intenção votiva e fora do controle eclesiástico dá origem a um humor transgressivo em relação à moral ensinada pelas posições doutrinárias de uma religião. O artigo mostra como o ex-voto participa de um ethos barroco latino-americano, que cria espaços inovadores de hibridização cultural que ultrapassam as fronteiras entre o religioso e o profano (De la Torre, 2023). Essa capacidade de romper fronteiras revela um poder de resistência e, ao mesmo tempo, de criatividade que o ex-voto manifesta de maneira subversiva.

Os processos de adaptação e interpretação que envolvem a prática votiva testemunham as formas plásticas assumidas por uma “religião vivida”, segundo a terminologia de Meredith McGuire (2008). Daí decorre uma extrema instabilidade tanto dos materiais presentes quanto dos usos que se fazem deles. Essa plasticidade explica, em parte, a continuidade da prática votiva: tradicional e adaptável, sem exigir a presença de terceiros, ela se baseia em uma comunicação direta com o poder invocado, o mais próximo possível da realidade vivida pelo doador. Perpetuado e reinventado de acordo com as interpretações e apropriações, o ex-voto está no centro de circulações e deslocamentos que garantem, em parte, a permanência da prática, ao mesmo tempo em que dificultam sua identificação. À primeira vista, o ex-voto multiplica as contradições, pois rompe com as estruturas tradicionais de nossas representações culturais. Nesse sentido, constitui um patrimônio em movimento.

Um patrimônio móvel na era da modernidade cultural

Os artigos reunidos neste dossiê atestam e destacam a riqueza heurística da prática votiva, graças à sua capacidade de subverter as normas para transformá-las a partir de dentro. Em seu artigo, Patricia Fogelman adapta-se à plasticidade de seu material de estudo por meio de um ensaio na forma de uma autoetnografia. Ela propõe uma abordagem histórico-antropológica que vai desde o final do século xix até os dias de hoje para estudar os ex-votos da catedral de Luján, na Argentina. A autora analisa esse patrimônio como um dispositivo cultural, no qual os ex-votos articulam o sagrado e o profano. Essa articulação ocorre no âmbito da identidade nacional, uma vez que o edifício votivo foi erguido para servir como bastião na defesa do catolicismo, diante da ascensão do liberalismo secular das elites. Mas o vínculo entre o sagrado e o profano também se manifesta na escala da economia local, por meio da circulação comercial dos materiais votivos entre o santuário, seus arredores e o lar do peregrino. Suas observações também destacam como a modernidade fez desaparecer a oferta do ex-voto que reproduz partes do corpo, ao mesmo tempo em que continua a perpetuar a tradição de uma peregrinação de longa data, que põe o corpo à prova em uma visão sacrificial.

Por sua vez, o texto de Diana Perea também se concentra nas circulações e revela uma prática votiva tradicional sujeita a uma renovação nas solicitações feitas pelos doadores, cujo gênero mudou nos últimos anos. Enquanto o ex-voto era uma prática tradicionalmente feminina, a dinâmica migratória faz com que os homens sejam os principais doadores do santuário, localizado em Culiacán. Seus pedidos e agradecimentos acrescentam a migração para os Estados Unidos às demandas habituais relacionadas à saúde, casamento ou trabalho para as famílias que deixam no México. O caráter transgressivo e subversivo não reside tanto na materialidade votiva — compartilhada por outros intercessores católicos —, mas sim na entidade invocada e nos percursos dos doadores. As políticas migratórias dos Estados Unidos nos últimos anos não lhes permitem cruzar a fronteira legalmente e, embora não dirijam suas súplicas a uma única entidade, recorrem voluntariamente à figura de um fora-da-lei, não reconhecido pelas autoridades eclesiásticas católicas. A oferta de ex-votos ocorre em um contexto social, econômico e político que, de um lado da fronteira, incentiva a circulação e, do outro, a proíbe. O ex-voto se apresenta como um objeto de comunicação complexo: à vista de todos os visitantes do santuário, ele revela algumas realidades enquanto ignora outras.

A transgressão e a subversão estão no centro do estudo realizado por Carlos Mora sobre os ex-votos que circulam na internet. “A adaptação dos retábulos religiosos ao contexto do ciberespaço implica, portanto, uma ressignificação lúdica, mas também uma apropriação crítica das estruturas e ideologias no espaço público, revelando o poder transgressor do sagrado na vida cotidiana a partir do conceito de religião vivida”, escreve o autor. Criadas sem finalidade votiva, essas apropriações dão início a uma ressignificação secular das imagens religiosas, que revelam uma modernidade barroca. Elas manifestam como os estratos socioeconômicos subalternos desenvolvem práticas fora dos marcos estabelecidos pelas classes dominantes e se opõem ao dogma, como atestam os ex-votos numéricos que relatam abortos. O estudo mostra como o ex-voto é um objeto exemplar para refletir sobre a articulação entre permanência e renovação, tradição e inovação no campo religioso por meio das materialidades. A circulação de ex-votos online e de ex-votos produzidos por meio da tecnologia destaca a maleabilidade da prática votiva, o que explica, em parte, sua persistência graças à sua capacidade de adaptação às realidades de sua época.

Embora o pedido seja individual, Diana Perea e Carlos Mora percebem o caráter coletivo na comunicação veiculada pelo ex-voto. É essa “memória coletiva” que interessa a José Cláudio Alves de Oliveira em seu ensaio comparativo entre esse conceito teorizado por Maurice Halbwachs e o de formiga (Teoria do Ator, na sigla em inglês), desenvolvida por Bruno Latour, Michel Callon e John Law. O confronto entre esses conceitos permite evidenciar o caráter ativo do objeto ex-voto, uma vez que sua circulação gera interações. Isso permite compreender que o ex-voto está no centro de uma rede de conexões que transcendem as lógicas estabelecidas entre o local e o global.

O ex-voto se apresenta como um objeto ativo, que mobiliza uma “memória atuante, que circula entre a fé e o mercado, entre os santuários e a feira, entre os portais de venda no ciberespaço e as redes sociais”, escreve Alves de Oliveira. Instável, móvel e transgressor, o ex-voto intriga e fascina: rompe fronteiras e abre horizontes para pensar o patrimônio — no sentido do que herdamos de um passado que constitui nossa história — à luz das dinâmicas circulatórias da globalização e dos processos de hibridização, fundadores de nossas culturas materiais contemporâneas.

Bibliografia 

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Caroline Perrée (França) é doutora (Sorbonne) e pesquisadora em história da arte, vinculada ao Centro de Estudos Mexicanos e Centro-Americanos (cemca (México) e na Universidade Paris Cité. Suas pesquisas se concentram no estudo da circulação das imagens e de suas composições na cultura e na arte mexicanas. Especialista em ex-votos, ela trabalha com as interações entre arte e artesanato, tradição e transgressão, patrimônio e inovação. Ela orienta seus estudos para questões de temporalidade na arte por meio da análise das continuidades e subversões na criação de imagens, bem como dos processos de visibilidade e memorialização da violência. É autora do livro México, Trash and Crafts. Um projeto de design de Thierry Jeannot (2020), e coautora, junto com Ileana Diéguez, do livro Corpos inesquecíveis (2018). Publicou vários catálogos e artigos sobre artistas contemporâneos em Paris, no México e em Nova York.

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