{"id":38900,"date":"2024-09-20T10:50:33","date_gmt":"2024-09-20T16:50:33","guid":{"rendered":"https:\/\/encartes.mx\/?p=38900"},"modified":"2024-09-25T14:02:48","modified_gmt":"2024-09-25T20:02:48","slug":"zarate-comunidades-momivientos-indigenas-utopia-reconocimiento","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/encartes.mx\/pt\/zarate-comunidades-momivientos-indigenas-utopia-reconocimiento\/","title":{"rendered":"Utopias comunit\u00e1rias como apostas para o futuro entre o povo Purh\u00e9pecha"},"content":{"rendered":"<h2 class=\"wp-block-heading abtract\">Sum\u00e1rio<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"abstract\">Neste artigo, mostramos como as organiza\u00e7\u00f5es e os projetos ancorados na comunidade ind\u00edgena contempor\u00e2nea s\u00e3o estruturados em torno de imagin\u00e1rios de um futuro desej\u00e1vel. Abordamos a ideia de utopia como refer\u00eancia ao poss\u00edvel para entender os efeitos das reivindica\u00e7\u00f5es \u00e9tnicas nas pr\u00f3prias comunidades. Como uma orienta\u00e7\u00e3o para o futuro, discutimos as limita\u00e7\u00f5es e o escopo do conceito de utopia para seu uso como categoria explicativa. O referente emp\u00edrico \u00e9 a experi\u00eancia de quarenta anos de uma comunidade Purh\u00e9pecha que se mobilizou para obter reconhecimento.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"abstract\">Palavras-chave: <a href=\"https:\/\/encartes.mx\/pt\/tag\/autonomia\/\" rel=\"tag\">autonomia<\/a>, <a href=\"https:\/\/encartes.mx\/pt\/tag\/comunidad\/\" rel=\"tag\">comunidade<\/a>, <a href=\"https:\/\/encartes.mx\/pt\/tag\/movimiento-indigena\/\" rel=\"tag\">movimento ind\u00edgena<\/a>, <a href=\"https:\/\/encartes.mx\/pt\/tag\/reconocimiento\/\" rel=\"tag\">reconhecimento<\/a>, <a href=\"https:\/\/encartes.mx\/pt\/tag\/utopia\/\" rel=\"tag\">utopia<\/a><\/p>\n\n\n\n<p class=\"en-title\"><span class=\"small-caps\">utopias comunit\u00e1rias como esperan\u00e7a para o futuro entre os purh\u00e9pechas<\/span><\/p>\n\n\n\n<p class=\"abstract en-text\">Este artigo mostra como organiza\u00e7\u00f5es e projetos em comunidades ind\u00edgenas contempor\u00e2neas s\u00e3o estruturados em torno de imagin\u00e1rios de um futuro desej\u00e1vel. Aqui, a ideia de utopia sugere potencial, possibilitando uma compreens\u00e3o dos efeitos da reafirma\u00e7\u00e3o do pertencimento \u00e9tnico dentro da comunidade. O conceito de utopia como guia para o futuro \u00e9 discutido com rela\u00e7\u00e3o a seus limites, alcance e poder explicativo como categoria. O objeto de estudo emp\u00edrico s\u00e3o quarenta anos de experi\u00eancia de uma comunidade Purh\u00e9pecha que vem lutando por reconhecimento.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"abstract\">Palavras-chave: comunidade, utopia, reconhecimento, autonomia, movimento ind\u00edgena.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity is-style-dots\"\/>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">O reconhecimento como um horizonte inating\u00edvel<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"abstract\">No M\u00e9xico e na Am\u00e9rica Latina, desde os anos setenta do s\u00e9culo XX, a <span class=\"small-caps\">xx<\/span>No in\u00edcio da d\u00e9cada de 1990, organiza\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas e camponesas independentes entraram em cena com demandas \u00e9tnicas claras e com a defesa de seus recursos e patrim\u00f4nio tang\u00edvel e intang\u00edvel. Desde ent\u00e3o, ao defender e reivindicar aspectos espec\u00edficos, como seu territ\u00f3rio, idioma, comunidade e conhecimento, elas t\u00eam sido consideradas, em diferentes frentes, como contr\u00e1rias \u00e0s tend\u00eancias gerais de integra\u00e7\u00e3o, e sua demanda por reconhecimento tem sido praticamente inating\u00edvel. No in\u00edcio da d\u00e9cada de 1980 <span class=\"small-caps\">xx<\/span>Guillermo Bonfil (1981) descreveu a luta das organiza\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas na Am\u00e9rica Latina para transformar sua realidade como ut\u00f3pica; nesse livro e em seu trabalho posterior (Bonfil, 1990), ele n\u00e3o atribui uma conota\u00e7\u00e3o negativa ao termo, mas o vincula a possibilidades, projetos e vis\u00f5es do futuro (Bonfil, 1981:44-45). Com base em documentos, declara\u00e7\u00f5es e diferentes express\u00f5es de intelectuais e organiza\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas, Bonfil (1990) destaca o car\u00e1ter profundo das demandas \u00e9tnicas diante de discursos obcecados pela moderniza\u00e7\u00e3o do pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p>De outra perspectiva, totalmente oposta, entre os primeiros cr\u00edticos dos movimentos de reivindica\u00e7\u00f5es \u00e9tnicas em nossa na\u00e7\u00e3o estava Gonzalo Aguirre Beltr\u00e1n, o te\u00f3rico do indigenismo integracionista mexicano, que considerava que a luta \u00e9tnica \"leva a um beco sem sa\u00edda\" (1983: 342), em contraste com as reivindica\u00e7\u00f5es prolet\u00e1rias \"que \u00e9 a \u00fanica que abre possibilidades de desenvolvimento em um futuro previs\u00edvel\" (1983: 343). Devido \u00e0s suas condi\u00e7\u00f5es particulares, como a busca pela supera\u00e7\u00e3o de sua condi\u00e7\u00e3o de colonizados, os movimentos e organiza\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas seriam um exemplo claro de movimentos ut\u00f3picos. Para autores como Bonfil, essas utopias apresentam uma grande densidade hist\u00f3rica que lhes permitiu definir agendas e programas de a\u00e7\u00e3o nas \u00faltimas cinco d\u00e9cadas.<\/p>\n\n\n\n<p>Atualmente, a legitimidade das demandas de reconhecimento das comunidades e dos povos ind\u00edgenas n\u00e3o est\u00e1 mais em discuss\u00e3o e, gra\u00e7as \u00e0s modifica\u00e7\u00f5es na legisla\u00e7\u00e3o nacional, mas principalmente aos acordos internacionais assinados pelo Estado mexicano (como o 169 da Organiza\u00e7\u00e3o Internacional do Trabalho), a legitimidade das demandas de reconhecimento das comunidades e dos povos ind\u00edgenas n\u00e3o est\u00e1 mais em discuss\u00e3o, <span class=\"small-caps\">ilo<\/span>), houve um progresso importante nessa quest\u00e3o. No entanto, seu pleno reconhecimento como na\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas totalmente aut\u00f4nomas ainda est\u00e1 longe de ser alcan\u00e7ado. Por outro lado, n\u00e3o se pode negar que suas propostas de mobiliza\u00e7\u00e3o e integra\u00e7\u00e3o tiveram um impacto em diferentes aspectos de sua organiza\u00e7\u00e3o social e modo de vida.<\/p>\n\n\n\n<p>Para discutir essas quest\u00f5es, tomo como refer\u00eancia emp\u00edrica as comunidades Purh\u00e9pecha de Michoac\u00e1n, em particular a comunidade de Santa F\u00e9 de la Laguna, cuja experi\u00eancia remonta a mais de 40 anos, e o projeto Na\u00e7\u00e3o Purh\u00e9pecha. Daquela \u00e9poca at\u00e9 hoje, incluindo o ano decisivo de 1994, quando o Ex\u00e9rcito Zapatista de Liberta\u00e7\u00e3o Nacional (Ej\u00e9rcito Zapatista de Liberaci\u00f3n Nacional, EZLN) surgiu em Michoac\u00e1n.<span class=\"small-caps\">ezln<\/span>), que colocou a quest\u00e3o ind\u00edgena no centro da agenda pol\u00edtica nacional, os povos e as organiza\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas percorreram v\u00e1rios caminhos, lacunas e avenidas organizacionais e se depararam com diferentes obst\u00e1culos e caminhos de retorno (como a complexa rela\u00e7\u00e3o com o Estado mexicano e os partidos pol\u00edticos, repleta de nuances e que abrange desde a alian\u00e7a at\u00e9 a rejei\u00e7\u00e3o e o confronto), o que os levou a repensar constantemente suas estrat\u00e9gias organizacionais, objetivos e m\u00e9todos de luta. N\u00e3o houve uma \u00fanica organiza\u00e7\u00e3o ind\u00edgena, mas sim uma grande diversidade de tentativas de criar sindicatos, conselhos, coaliz\u00f5es, coordenadores, etc.<\/p>\n\n\n\n<p>Como acontece com todos os movimentos que buscam moldar seu futuro, embora tenham alcan\u00e7ado mudan\u00e7as importantes, nem todos os resultados foram os esperados, e alguns at\u00e9 mesmo se revelaram o oposto. Em sociedades altamente diferenciadas e desiguais, como a nossa, a demanda por reconhecimento por parte de sujeitos que foram historicamente segregados e subordinados devido a suas diferentes qualidades parece ser um horizonte inating\u00edvel ou uma utopia.<a class=\"anota\" id=\"anota2\" data-footnote=\"2\">2<\/a> Essa reivindica\u00e7\u00e3o manifesta a vontade de se manterem como comunidades, apesar das press\u00f5es e adversidades que enfrentam diariamente. Se as comunidades ind\u00edgenas se mant\u00eam como sujeitos coletivos em um contexto altamente adverso, como o oferecido pelo capitalismo neoliberal extrativista e predat\u00f3rio, \u00e9 gra\u00e7as \u00e0 sua firme vontade de preservar e projetar um modo de vida coletivo que, apesar das tens\u00f5es, conflitos e divis\u00f5es internas, mant\u00e9m certas caracter\u00edsticas de uma utopia coletivista, sempre em tens\u00e3o com os projetos modernizadores e individualistas que surgem dentro e fora da comunidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao contr\u00e1rio das interpreta\u00e7\u00f5es cl\u00e1ssicas (Durkheim, 1973; T\u00f6enies, 1979) que definem a comunidade como uma forma de organiza\u00e7\u00e3o distinta ou oposta \u00e0 sociedade contratual, considero que as comunidades existem apenas como um projeto que busca se realizar na modernidade. Nesse sentido, elas est\u00e3o preocupadas n\u00e3o apenas com suas condi\u00e7\u00f5es atuais, mas tamb\u00e9m, e fundamentalmente, com seu futuro. Como agentes de sua pr\u00f3pria hist\u00f3ria, elas imaginam futuros poss\u00edveis e realizam a\u00e7\u00f5es, no presente, com o objetivo de alcan\u00e7ar esse futuro imaginado. Essas a\u00e7\u00f5es, de alguma forma, condicionam as rela\u00e7\u00f5es sociais do presente e, \u00e0s vezes, os levam a reinterpretar seu passado e a repensar sua hist\u00f3ria.<a class=\"anota\" id=\"anota4\" data-footnote=\"4\">4<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Colocar no centro os atores com capacidade de modificar seu destino significa aceitar que todos os arranjos comunit\u00e1rios que conhecemos s\u00e3o produto da a\u00e7\u00e3o imaginativa concomitante daqueles que fazem parte de coletivos sociais e que tentam forjar seu pr\u00f3prio futuro, embora tenhamos de reconhecer que esses imagin\u00e1rios s\u00e3o moldados por refer\u00eancias hist\u00f3ricas. Caso contr\u00e1rio, seria dif\u00edcil entender que algumas comunidades apresentam princ\u00edpios organizacionais - n\u00e3o totalmente alinhados com os promovidos pelo sistema capitalista hegem\u00f4nico - que s\u00e3o obra da imagina\u00e7\u00e3o de coletivos que desejam um futuro diferente. \u00c9 o caso daqueles que desenvolvem formas alternativas de consumo ou produ\u00e7\u00e3o, ou daqueles que investem, at\u00e9 o limite, tempo, trabalho e recursos materiais em cerim\u00f4nias religiosas. Como esses s\u00e3o processos cont\u00ednuos, entend\u00ea-los nos apresenta o desafio de apreender o que est\u00e1 em constru\u00e7\u00e3o e n\u00e3o apenas o que existe.<\/p>\n\n\n\n<p>Os jovens profissionais que promoveram os movimentos \u00e9tnicos a partir da d\u00e9cada de 1970 estabeleceram a ideia de que n\u00e3o h\u00e1 predestina\u00e7\u00e3o ou um \u00fanico tempo linear, mas que o futuro pode ser constru\u00eddo e o presente pode ser modificado por meio da a\u00e7\u00e3o. Esses s\u00e3o jovens com ideias radicais que questionam a repeti\u00e7\u00e3o de ciclos e que d\u00e3o grande import\u00e2ncia \u00e0 organiza\u00e7\u00e3o e \u00e0 mobiliza\u00e7\u00e3o coletiva. Entretanto, essas a\u00e7\u00f5es voltadas para o futuro n\u00e3o t\u00eam uma rela\u00e7\u00e3o causal com o que vem depois, nem s\u00e3o pensadas de forma cumulativa. \u00c0s vezes, a tradi\u00e7\u00e3o \u00e9 descartada, em outras ocasi\u00f5es, os costumes (ou \"el costumbre\", como o respeito, a disposi\u00e7\u00e3o de servir ou a rota\u00e7\u00e3o de cargos) s\u00e3o usados para criar e apoiar a organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Em sua concep\u00e7\u00e3o, o tempo n\u00e3o passa de forma linear, mas se move em v\u00e1rias dire\u00e7\u00f5es. O passado e as experi\u00eancias vividas s\u00e3o usados para legitimar suas demandas, mas as condi\u00e7\u00f5es de vida do presente tamb\u00e9m s\u00e3o questionadas, como um produto desse passado, e novas possibilidades para a constru\u00e7\u00e3o do futuro s\u00e3o definidas. O regime crist\u00e3o de historicidade (Hartog, 2022), que estabelece a linearidade do tempo, com o futuro messi\u00e2nico como o horizonte desej\u00e1vel que supera definitivamente o passado e o presente, \u00e9 questionado. Se considerarmos que as utopias ind\u00edgenas (e outras de grupos subordinados) confrontam os projetos de moderniza\u00e7\u00e3o capitalista (as utopias das elites), que enfatizam o individualismo, o progresso tecnol\u00f3gico, a depreda\u00e7\u00e3o ambiental e a desapropria\u00e7\u00e3o dos bens comuns, podemos dizer que o presente seria o resultado de uma luta de utopias ou projetos pelo significado do futuro.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Utopia, utopias e o compromisso com o futuro<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"abstract\">Para avan\u00e7ar na discuss\u00e3o, \u00e9 necess\u00e1rio especificar o uso que estou fazendo do conceito de utopia. Como uma aposta no futuro, e ap\u00f3s observar algumas de suas consequ\u00eancias, as utopias, apesar de todo o seu conte\u00fado transformador ou revolucion\u00e1rio, podem ter consequ\u00eancias contradit\u00f3rias e absolutamente negativas. Cr\u00edticos como Lewis Mumford (2015), ap\u00f3s uma an\u00e1lise de exemplos muito diferentes, destacaram as consequ\u00eancias desastrosas das utopias. Outros autores liberais, como Karl Popper (2017) ou Isaiah Berlin (1992), foram respons\u00e1veis por destacar os aspectos negativos, os efeitos dist\u00f3picos (como o autoritarismo, o cancelamento das liberdades individuais e o fechamento social) dos movimentos sociais, porque geralmente se pensa que, devido \u00e0 natureza ego\u00edsta dos seres humanos, as propostas ut\u00f3picas tendem a levar a sistemas fechados e autorit\u00e1rios (Berlin, 1992).<\/p>\n\n\n\n<p>Da mesma forma, as ideologias que prop\u00f5em que existem for\u00e7as estruturais, como o mercado ou o poder, que moldam os sujeitos e sua vontade e que s\u00e3o elas que realmente nos governam, tamb\u00e9m s\u00e3o express\u00f5es dist\u00f3picas, na medida em que determinam a ag\u00eancia humana. Essas ideologias s\u00e3o respons\u00e1veis por nos mostrar que qualquer decis\u00e3o que tomamos j\u00e1 \u00e9 mediada ou interv\u00e9m nas circunst\u00e2ncias e rela\u00e7\u00f5es que consideramos normais ou naturais. Consequentemente, qualquer tentativa de transformar as condi\u00e7\u00f5es de vida predominantes acabar\u00e1 produzindo o oposto do que se pretendia.<a class=\"anota\" id=\"anota4\" data-footnote=\"4\">4<\/a>&nbsp;Por outro lado, o uso do termo \"ut\u00f3pico\" como adjetivo para qualificar projetos irrealiz\u00e1veis ou fracassados por serem inating\u00edveis desde o in\u00edcio tamb\u00e9m tem sido uma forma de desacreditar o potencial transformador dos projetos empreendidos por grupos subordinados para mudar suas condi\u00e7\u00f5es de vida.<\/p>\n\n\n\n<p>Entretanto, na busca por uma vida melhor, a possibilidade de sociedades mais igualit\u00e1rias e menos violentas continua v\u00e1lida. Al\u00e9m disso, autores como David Harvey (2000) e Fredric Jameson (2009) ou David Valentine e Amelia Hassoun (2019), apontam que, ap\u00f3s a queda da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica e sob o regime neoliberal globalizante, observou-se uma renova\u00e7\u00e3o do utopismo justamente porque a nova ordem mundial apresentava desafios inesperados para os grupos subalternos. Como o futuro est\u00e1 permanentemente em constru\u00e7\u00e3o, mas \u00e9 incerto, autores como Karl Mannheim (1987) e Paul Ricoeur (1989) apontaram que as utopias t\u00eam duas faces, uma positiva e outra negativa. Em geral, o que se observa \u00e9 uma dessas facetas. Para superar essa dicotomia excludente, Michael Gordin, Helen Tilley e Gyan Prakash (2010: 6) propuseram que, na realidade e para fins metodol\u00f3gicos, a utopia e a distopia formam uma unidade e devem ser consideradas como tal. Pela mesma raz\u00e3o, permanecer apenas com a imagem negativa das utopias tamb\u00e9m significa ignorar o potencial transformador dos imagin\u00e1rios, sonhos e ideais de mudan\u00e7a ou a busca por uma vida melhor, presentes nos movimentos de grupos subalternos, que Ernst Bloch (2006), entre muitas outras express\u00f5es de esperan\u00e7a, considera como possibilidades de utopia.<a class=\"anota\" id=\"anota5\" data-footnote=\"5\">5<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o se trata de idealizar qualquer a\u00e7\u00e3o proveniente das organiza\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas que discutiremos aqui, mas sim de entender os processos de constru\u00e7\u00e3o de comunidades em uma \u00e9poca adversa ao comunalismo e na qual os valores de mercado e o individualismo s\u00e3o particularmente proeminentes. Em v\u00e1rios momentos, os movimentos ind\u00edgenas foram vistos como representantes de uma mudan\u00e7a radical, uma verdadeira revolu\u00e7\u00e3o na sociedade; no entanto, na pr\u00e1tica, o que observamos s\u00e3o transforma\u00e7\u00f5es de natureza lenta ou reformista e muito associadas a problemas vivenciados no dia a dia. Parece ser um mal-entendido do conceito considerar um movimento de transforma\u00e7\u00e3o que ocorre em circunst\u00e2ncias adversas e que s\u00f3 traz mudan\u00e7as nas condi\u00e7\u00f5es de vida sem alcan\u00e7ar uma transforma\u00e7\u00e3o estrutural importante. <em>utopia<\/em>. Da\u00ed a import\u00e2ncia de se reconsiderar a no\u00e7\u00e3o de utopia em termos absolutos e pensar mais em termos de utopias poss\u00edveis, utopias alcan\u00e7\u00e1veis ou microutopias, com metas alcan\u00e7\u00e1veis e em espa\u00e7os mais limitados (Vieira, 2020). Essa seria outra qualifica\u00e7\u00e3o metodol\u00f3gica do termo.<\/p>\n\n\n\n<p>A esse respeito, Robert Nozik (1988: 300) j\u00e1 havia apontado que dever\u00edamos considerar a utopia como uma estrutura na qual ocorrem utopias (realiz\u00e1veis, poss\u00edveis): \"A utopia \u00e9 uma estrutura para utopias, um lugar onde as pessoas s\u00e3o livres para se unirem voluntariamente para buscar e tentar realizar sua pr\u00f3pria concep\u00e7\u00e3o de vida boa na comunidade ideal, mas onde ningu\u00e9m pode impor sua pr\u00f3pria vis\u00e3o ut\u00f3pica aos outros\". Ricoeur explica que falar de utopias sempre se refere ao poss\u00edvel: \"um campo de outras formas poss\u00edveis de vida\" (1989: 58). Essa possibilidade que \u00e9 constru\u00edda para confrontar uma realidade adversa tamb\u00e9m questiona o poder e, em termos gramscianos, seria uma forma de construir um discurso contra-hegem\u00f4nico a partir da subalternidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse sentido, Arjun Appadurai (2013) prop\u00f5e que, para abordar o tema do futuro, devemos considerar como objeto da etnografia a \"pol\u00edtica da possibilidade\" (imagin\u00e1ria) em oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 \"pol\u00edtica da probabilidade\" (realista), como forma de abordar os projetos em andamento dos grupos subalternos. A proposta \u00e9 estudar etnograficamente as estrat\u00e9gias, as metas e as conquistas dos movimentos subalternos porque elas s\u00e3o evid\u00eancias da pol\u00edtica da possibilidade na era atual.<\/p>\n\n\n\n<p>Pensar em termos de poss\u00edveis utopias nos oferece elementos para refletir e compreender outras formas particulares de viver, outros projetos de vida que est\u00e3o em gesta\u00e7\u00e3o e que algumas coletividades est\u00e3o construindo ou j\u00e1 est\u00e3o em andamento hoje. A utopia, por surgir da imagina\u00e7\u00e3o, cont\u00e9m uma dimens\u00e3o reflexiva que desafia a \"realidade\" e o poder, e outra dimens\u00e3o \u00e9tica da qual deriva seu impulso transformador. \u00c9 por isso que acredito que o conceito de utopia pode ser \u00fatil tanto para refletir sobre certos comportamentos e arranjos sociais, para confront\u00e1-lo com os objetivos dos movimentos sociais, quanto para avaliar os efeitos de certas propostas promovidas com a inten\u00e7\u00e3o de transformar as condi\u00e7\u00f5es de vida, para criar outros arranjos sociais cujos efeitos n\u00e3o foram os esperados. Como categoria explicativa, a utopia est\u00e1 presente em algumas formas de organiza\u00e7\u00e3o que buscam realizar o ideal de viver bem ou melhorar a situa\u00e7\u00e3o na vida cotidiana.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m das duas precis\u00f5es metodol\u00f3gicas que j\u00e1 apontamos - importantes para transcender a discuss\u00e3o filos\u00f3fica e o mero uso do termo utopia como adjetivo e explorar seu potencial anal\u00edtico -, \u00e9 necess\u00e1rio especificar, como prop\u00f5e Jameson (2009), que o termo deixou de ter uma refer\u00eancia espacial (um n\u00e3o-lugar, como na utopia cl\u00e1ssica de Thomas More) para ter uma refer\u00eancia temporal, um desejo ou ideal de um mundo ou vida melhor a ser alcan\u00e7ado. As utopias poss\u00edveis ou realiz\u00e1veis imaginam que o \"futuro\" n\u00e3o \u00e9 algo que est\u00e1 totalmente fora de nossas m\u00e3os, mas, ao contr\u00e1rio, o contingente ou incerto pode ser respondido ou confrontado por uma a\u00e7\u00e3o organizada, planejada e, acima de tudo, alternativa \u00e0 ordem existente. A \"aposta\", a decis\u00e3o pensada ou de \u00faltima hora, o \"sonho acordado\" ou o \"desejo de ser diferente\", todos esses e outros artif\u00edcios (como os englobados pela magia, adivinha\u00e7\u00e3o, antecipa\u00e7\u00e3o ou previs\u00e3o matem\u00e1tica), como a utopia, s\u00e3o formas de intervir e pretender moldar o futuro incerto ou nebuloso. Mas ao realizar essa opera\u00e7\u00e3o ou, mais precisamente, ao se envolver ou participar ativamente de tal projeto, afeta-se o presente e a vida cotidiana, que j\u00e1 \u00e9 o resultado da a\u00e7\u00e3o e que constitui o ponto de partida do trabalho etnogr\u00e1fico. A discuss\u00e3o das utopias como apostas no futuro entrou na discuss\u00e3o antropol\u00f3gica, nos estudos de tempo, temporalidades e futuros.<\/p>\n\n\n\n<p>O compromisso com o futuro tem sido o cerne do trabalho das organiza\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas de Michoac\u00e1n desde a d\u00e9cada de 1970, quando elas se envolveram diretamente na transforma\u00e7\u00e3o de suas condi\u00e7\u00f5es de vida. Entretanto, as quest\u00f5es regionais e at\u00e9 mesmo locais s\u00e3o t\u00e3o diferentes e, \u00e0s vezes, t\u00e3o contrastantes que \u00e9 praticamente imposs\u00edvel que uma \u00fanica organiza\u00e7\u00e3o represente os interesses de todos os grupos e seja reconhecida pela maioria dos povos e comunidades; portanto, \u00e9 dif\u00edcil falar de um futuro \u00fanico. \u00c9 importante considerar que, embora nas \u00faltimas d\u00e9cadas tenha havido uma prolifera\u00e7\u00e3o de discursos apocal\u00edpticos, provenientes do campo cient\u00edfico, relacionados \u00e0 mudan\u00e7a clim\u00e1tica e \u00e0 depreda\u00e7\u00e3o ambiental, \u00e9 necess\u00e1rio reconhecer que n\u00e3o h\u00e1 um futuro \u00fanico para toda a humanidade, mas que \u00e9 poss\u00edvel e necess\u00e1rio pensar em diversos futuros, que s\u00e3o constru\u00eddos em intera\u00e7\u00e3o com as hist\u00f3rias locais, as condi\u00e7\u00f5es atuais e as apostas que as comunidades fazem no futuro.<\/p>\n\n\n\n<p>Neste artigo, proponho que as a\u00e7\u00f5es realizadas no tempo presente (que s\u00e3o aquelas registradas pela etnografia) s\u00e3o condicionadas por sua hist\u00f3ria particular e s\u00e3o aquelas que delineiam sua proje\u00e7\u00e3o para o futuro. Ao mesmo tempo, as imagens ou os imagin\u00e1rios \"ut\u00f3picos\" que aparecem claramente com os movimentos de reivindica\u00e7\u00e3o \u00e9tnica condicionam as a\u00e7\u00f5es do presente. Tomo como refer\u00eancia etnogr\u00e1fica os dispositivos, como organiza\u00e7\u00f5es e projetos, por meio dos quais eles tentam moldar seu futuro. Ou seja, a maneira pela qual eles esperam se manter como sociedades vi\u00e1veis que buscam reconhecimento conforme se apresentam.<\/p>\n\n\n\n<p>Ap\u00f3s sua exaustiva an\u00e1lise da antropologia do tempo, Nancy Munn (1992: 115-116) ressalta que, at\u00e9 aquele momento, \"os antrop\u00f3logos tinham visto o futuro em fragmentos e peda\u00e7os (...) e o futuro em peda\u00e7os e peda\u00e7os (...)\".<em>retalhos e remendos<\/em>), em contraste com a aten\u00e7\u00e3o dada 'ao passado no presente' [...]\". Rebecca Bryant e Daniel M. Knight (2019) tamb\u00e9m lamentam que, em contraste com a grande aten\u00e7\u00e3o dada ao passado, pouca ou quase nenhuma aten\u00e7\u00e3o tenha sido dada ao futuro. Esses autores desenvolvem uma proposta completa para estudar como o futuro interv\u00e9m ou se expressa na a\u00e7\u00e3o social do presente etnogr\u00e1fico. Eles discutem seis maneiras pelas quais o futuro orienta o presente: antecipa\u00e7\u00e3o, expectativa, especula\u00e7\u00e3o, potencialidade, esperan\u00e7a e destino (Bryant e Knight, 2019: 3). Por sua vez, a etnografia hist\u00f3rica, que reconhece a presen\u00e7a do passado no tempo presente, n\u00e3o considera o problema da temporalidade e presume que os eventos hist\u00f3ricos e etnogr\u00e1ficos ocorrem no tempo natural, quando o que observamos etnograficamente (como argumentarei a seguir) \u00e9 uma sobreposi\u00e7\u00e3o de temporalidades: o tempo hist\u00f3rico local (onde o passado e o futuro convergem) e o tempo do observador. Mais semelhante ao que Reinhart Koselleck (1993) prop\u00f5e com a met\u00e1fora dos estratos temporais (futuros passados) que se manifestam no presente. Nesse sentido, \u00e9 importante notar que, assim como no tempo presente h\u00e1 sementes do tempo messi\u00e2nico, como Walter Benjamin (2007:76) apontou, em todo movimento ut\u00f3pico tamb\u00e9m h\u00e1 sementes de messianismo. \u00c9 exatamente isso que d\u00e1 ao observador externo a impress\u00e3o de que as comunidades ind\u00edgenas n\u00e3o querem mudar. A busca para fechar a lacuna entre o que se quer e se projeta para o futuro (preservar a comunidade e os recursos comunit\u00e1rios, melhorar as condi\u00e7\u00f5es de vida) e o imprevis\u00edvel e incerto que o tempo da modernidade neoliberal (expans\u00e3o do mercado, individualismo, agroneg\u00f3cio e preda\u00e7\u00e3o) oferece torna-se, nesses movimentos, um objetivo transcendental.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Organiza\u00e7\u00f5es: desde a Uni\u00f3n de Comuneros Emiliano Zapata at\u00e9 os conselhos comunit\u00e1rios<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"abstract\">Depois de 40 anos desde o in\u00edcio de sua mobiliza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica por reconhecimento, o caso de Santa F\u00e9 de la Laguna nos mostra como as diferentes temporalidades que coexistem no espa\u00e7o local se entrela\u00e7am ou interferem; e que a busca de utopias ou o compromisso com o futuro gera novos imagin\u00e1rios de futuros poss\u00edveis que ter\u00e3o um impacto sobre o presente e o passado. Um selo etnogr\u00e1fico que nos mostra os efeitos da utopia, bem como a manifesta\u00e7\u00e3o de diferentes temporalidades no presente etnogr\u00e1fico, foi a celebra\u00e7\u00e3o do 40\u00ba anivers\u00e1rio do in\u00edcio de seu movimento pela defesa de suas terras comunais, em 11 de novembro de 2019. Esse momento inaugural tamb\u00e9m marcou o in\u00edcio do que \u00e9 considerado o surgimento ind\u00edgena em Michoac\u00e1n e a luta por reconhecimento. Em 1979, mulheres e homens ind\u00edgenas, que n\u00e3o pertenciam a nenhuma organiza\u00e7\u00e3o oficial, marcharam pelas ruas de Morelia, a capital do estado, fecharam a avenida principal e montaram acampamento por v\u00e1rios dias em frente ao Pal\u00e1cio do Governo, o que teve um forte impacto na sociedade de Michoac\u00e1n. Nunca antes um grupo de camponeses ind\u00edgenas havia desafiado o governo dessa forma. At\u00e9 ent\u00e3o, a sociedade de Michoac\u00e1n, praticamente em sua totalidade, era rigidamente controlada pelas estruturas corporativas do partido oficial. Em geral, qualquer manifesta\u00e7\u00e3o de inconformidade, seja pol\u00edtica, religiosa ou em rela\u00e7\u00e3o aos limites da comunidade, era resolvida pela repress\u00e3o ou pela integra\u00e7\u00e3o dos inconformistas \u00e0s estruturas corporativas do partido oficial.<\/p>\n\n\n\n<p>Quarenta anos atr\u00e1s, o movimento de agricultores comunais de Santa F\u00e9 se apresentava como um movimento campon\u00eas independente, liderado por um grupo de jovens radicais que, com uma clara orienta\u00e7\u00e3o para uma utopia socialista, decidiram enfrentar o que consideravam seus inimigos de classe e agentes do capitalismo: os pecuaristas da cidade vizinha de Quiroga, que haviam invadido parte de suas terras comunais e amea\u00e7avam continuar invadindo, diante da imobilidade das autoridades comunais na \u00e9poca. Eles faziam parte de uma organiza\u00e7\u00e3o de camponeses, a Uni\u00e3o de Agricultores Comunais Emiliano Zapata (Uni\u00f3n de Comuneros Emiliano Zapata (<span class=\"small-caps\">ucez<\/span>), com um claro discurso de esquerda revolucion\u00e1ria (marxista), cujo principal objetivo era a luta pela terra e cujo slogan: \"Hoje lutamos pela terra e tamb\u00e9m pelo poder\", reflete bem isso.<a class=\"anota\" id=\"anota6\" data-footnote=\"6\">6<\/a> Seus ideais de mudan\u00e7a e transforma\u00e7\u00e3o radical de sua comunidade eram produto de sua forma\u00e7\u00e3o como professores e profissionais em faculdades de forma\u00e7\u00e3o de professores e universidades p\u00fablicas, bem como de seu treinamento em luta de guerrilha. Alguns dos l\u00edderes das comunidades ind\u00edgenas, que participaram do <span class=\"small-caps\">ucez<\/span> foram treinados como guerrilheiros em Cuba e na Coreia do Norte e participaram da guerrilha Revolutionary Action Movement (<span class=\"small-caps\">mar<\/span>). Eles estavam alinhados com o movimento comunista internacional que buscava estabelecer uma sociedade socialista e mantinham v\u00ednculos com organiza\u00e7\u00f5es clandestinas e guerrilheiros da Am\u00e9rica Central. Seu sonho para o futuro era avan\u00e7ar na constru\u00e7\u00e3o do socialismo e implant\u00e1-lo nas comunidades de Michoac\u00e1n. No final da d\u00e9cada de 1980, o movimento foi enfraquecido pelas fortes lutas entre l\u00edderes e fac\u00e7\u00f5es que surgiram dentro da organiza\u00e7\u00e3o e nas pr\u00f3prias comunidades ind\u00edgenas (Z\u00e1rate, 1993).<\/p>\n\n\n\n<p>O anivers\u00e1rio de 2019, no qual eu estava presente, pode ser considerado uma s\u00edntese de como a comunidade se representa politicamente. O que aparece \u00e9 uma forte presen\u00e7a do passado imediato, mas tamb\u00e9m elementos de sua pr\u00f3pria identidade hist\u00f3rica, bem como sua proje\u00e7\u00e3o como coletividade. Foi bastante significativo o fato de n\u00e3o ter sido realizado nem no centro da comunidade nem no espa\u00e7o do antigo hospital, onde geralmente s\u00e3o realizadas as comemora\u00e7\u00f5es, mas no local onde dois membros da comunidade foram mortos quando a comunidade ocupou e recuperou as terras que os pecuaristas da cidade vizinha de Quiroga haviam invadido, ao lado da rodovia nacional que vai de Guadalajara, Jalisco, a Morelia, Michoac\u00e1n. Foi tamb\u00e9m uma encena\u00e7\u00e3o da identidade Purh\u00e9pecha contempor\u00e2nea, ou seja, como os comuneros se representam hoje, em compara\u00e7\u00e3o com 40 anos atr\u00e1s. Para mostrar seu poder, eles fecharam a rodovia nacional por nove horas, das 8h30 \u00e0s 18h, com a ajuda da pol\u00edcia local e sem amea\u00e7a de repress\u00e3o, e penduraram uma grande bandeira Purh\u00e9pecha em toda a largura da estrada. A comemora\u00e7\u00e3o come\u00e7ou com uma marcha liderada pelas autoridades locais do centro da comunidade at\u00e9 o local da cerim\u00f4nia. No local do tombamento, ap\u00f3s a chegada do contingente e antes do in\u00edcio do evento c\u00edvico, foi realizada uma cerim\u00f4nia que combinou elementos de diferentes religi\u00f5es e diferentes temporalidades, com incenso, discursos sobre a antiga religi\u00e3o do povo ind\u00edgena, que, segundo se dizia, foi destru\u00edda pelos colonizadores, A cerim\u00f4nia incluiu incenso, discursos sobre a antiga religi\u00e3o do povo ind\u00edgena, que se dizia ter sido destru\u00edda pelos colonizadores, a defesa da m\u00e3e terra, um convite aos participantes para plantar algumas sementes, lembran\u00e7as dos companheiros mortos naquele local e a recita\u00e7\u00e3o do ros\u00e1rio (em vista da recusa do padre em dar a missa que havia sido programada para aquele local). Em seguida, o evento c\u00edvico teve in\u00edcio com honras \u00e0s bandeiras da na\u00e7\u00e3o Purh\u00e9pecha e da na\u00e7\u00e3o mexicana, o hino nacional foi cantado em Purh\u00e9pecha pelos alunos e professores da escola secund\u00e1ria local que leva o nome de Elipidio Dom\u00ednguez Castro, o l\u00edder Purh\u00e9pecha assassinado que liderou o movimento nos anos 80, e as primeiras estrofes do que se espera que seja o hino Purh\u00e9pecha foram apresentadas. Ao final, a cerim\u00f4nia foi realizada em um pavilh\u00e3o na estrada com os convidados, que relembraram os anos do movimento, suas primeiras a\u00e7\u00f5es, seus antigos companheiros, bem como sua import\u00e2ncia para a compreens\u00e3o do atual movimento pela autonomia, liderado pela comunidade de Cher\u00e1n. Nos discursos, o que mais se destacou foi a relev\u00e2ncia, 40 anos depois, do movimento de reivindica\u00e7\u00f5es \u00e9tnicas.<\/p>\n\n\n\n<p>A bandeira e o ato, organizados pelas autoridades locais, foram um aviso ao conselho municipal de Quiroga de que eles n\u00e3o cessar\u00e3o em sua demanda pela recupera\u00e7\u00e3o e defesa de todas as suas terras comunais. A isso se somou a demanda por um \"or\u00e7amento direto\" e o reconhecimento de seus governos por \"usos y costumbres\", o que finalmente foi alcan\u00e7ado, ap\u00f3s outra mobiliza\u00e7\u00e3o, fechamento da corrida nacional e intrus\u00f5es nas reuni\u00f5es do conselho municipal em 2021.<\/p>\n\n\n\n<p>Se pensarmos nas consequ\u00eancias ou nos efeitos desse movimento ut\u00f3pico na atualidade, alguns deles intencionais e outros totalmente inesperados, podemos listar entre os mais significativos: 1) que a inconformidade (pobreza e exclus\u00e3o) em que viviam as comunidades ind\u00edgenas foi exposta aos olhos do p\u00fablico. At\u00e9 antes desse movimento, parecia que as comunidades viviam em grande tranquilidade, satisfeitas com suas condi\u00e7\u00f5es de vida. O movimento desafiou de forma definitiva o corporativismo e a imobilidade das organiza\u00e7\u00f5es camponesas que haviam sido a base do regime presidencialista. No centro de sua demanda estava a manuten\u00e7\u00e3o, para as gera\u00e7\u00f5es futuras, da propriedade comunal da terra e de seus recursos naturais. Foi demonstrado que a comunidade n\u00e3o era algo retr\u00f3grado, mas que poderia ser vista como um modo de vida a ser preservado, mantido e protegido, at\u00e9 mesmo projetado para o futuro, ou seja, um modo de vida diferente daquele oferecido pelo mercado capitalista e pelo individualismo.<\/p>\n\n\n\n<p>2) Trouxe a quest\u00e3o da ag\u00eancia dos sujeitos coletivos para o debate p\u00fablico, o que se expressa no fato de que agora eles devem ser consultados quando se trata de realizar projetos que tenham um impacto direto sobre eles. Eles s\u00e3o definitivamente apresentados como sujeitos coletivos, ativos e com projetos de vida. Em todos os processos, mobiliza\u00e7\u00f5es e a\u00e7\u00f5es p\u00fablicas, sempre afirmam ser \"a comunidade\", ou seja, como um todo, um passo definitivo no processo de reconhecimento. Isso destacou sua particularidade em rela\u00e7\u00e3o a outros atores e movimentos sindicais e de classe. Isso ficou claro na d\u00e9cada de 1980 com a discuss\u00e3o e a mobiliza\u00e7\u00e3o contra a inten\u00e7\u00e3o de instalar um reator nuclear nas terras de Santa F\u00e9 de la Laguna. Esse movimento, que uniu a comunidade ind\u00edgena a amplos setores da sociedade civil regional, levou a uma certa crise com os membros mais radicais do movimento (com uma clara orienta\u00e7\u00e3o marxista), incluindo seu l\u00edder, que tinha um discurso de classe que coincidia ideologicamente com os l\u00edderes do Sindicato \u00danico de Trabajadores de la Industria Nuclear (Sindicato \u00danico dos Trabalhadores da Ind\u00fastria Nuclear).<span class=\"small-caps\">sutina<\/span>) ao apoiar a instala\u00e7\u00e3o de um reator nuclear em terras da comunidade.<\/p>\n\n\n\n<p>3) Tamb\u00e9m provocou um repensar no campo das ideias (tanto acad\u00eamicas quanto pol\u00edticas) sobre a forma como o Estado e seu projeto de na\u00e7\u00e3o eram concebidos, o qual, embora tivesse surgido de um movimento revolucion\u00e1rio, grandes camadas da sociedade (os grupos marginalizados) n\u00e3o se viam mais representadas nele. Nesse projeto, as comunidades ind\u00edgenas foram agrupadas sob a categoria socioecon\u00f4mica de \"camponeses\", embora n\u00e3o se apresentassem como camponeses, mas como uma comunidade ind\u00edgena. O que era a na\u00e7\u00e3o se n\u00e3o uma multiplicidade de povos e culturas? Pela primeira vez, o Estado foi for\u00e7ado a ouvir e negociar com grupos ind\u00edgenas fora do corporativismo oficial.<\/p>\n\n\n\n<p>4) Depois de um per\u00edodo de extrema agita\u00e7\u00e3o e viol\u00eancia em que se tentou instalar um regime comunal autorit\u00e1rio, manifestado em desapropria\u00e7\u00f5es arbitr\u00e1rias de terras e casas e amea\u00e7as a certas fam\u00edlias, o que levou a um conflito forte e violento entre as fac\u00e7\u00f5es, na d\u00e9cada de 1990 as comunidades voltaram \u00e0 tranquilidade, mas com novos arranjos. Os efeitos mais importantes para a comunidade foram os seguintes: o medo de protestar e reclamar foi perdido; a import\u00e2ncia de agir foi demonstrada; a relev\u00e2ncia e o poder do comunalismo em uma \u00e9poca de grande autoritarismo e extrema polariza\u00e7\u00e3o. O governo comunit\u00e1rio foi fortalecido e renovado, como a assembleia de todos os communards e o centro de todas as decis\u00f5es importantes, no qual est\u00e3o representadas as fam\u00edlias, os bairros e as metades que comp\u00f5em a organiza\u00e7\u00e3o comunit\u00e1ria. De certa forma, as rela\u00e7\u00f5es de g\u00eanero e gera\u00e7\u00e3o foram redefinidas sem dissolver a organiza\u00e7\u00e3o social local, que se baseia na complementaridade de g\u00eanero, mas, ao contr\u00e1rio, refor\u00e7ando-a. Embora a representa\u00e7\u00e3o no cargo seja baseada na fam\u00edlia e o chefe da fam\u00edlia seja sempre a pessoa respons\u00e1vel, agora tamb\u00e9m pode ser a esposa e a m\u00e3e da fam\u00edlia, e as mulheres e os jovens podem participar da assembleia. A fun\u00e7\u00e3o do representante da comunidade ou do presidente do Commissariat of Communal Assets foi redefinida e, a partir de agora, o cargo deve ser ocupado por algu\u00e9m que esteja absolutamente comprometido com a defesa da comunidade e de seu patrim\u00f4nio natural e material.<\/p>\n\n\n\n<p>Na d\u00e9cada de 1990, com o enfraquecimento do discurso de classe e a queda da utopia que era o mundo socialista, o horizonte mudou e o futuro foi vislumbrado em termos de diversidade. Houve um repensar das apostas para o futuro, n\u00e3o mais estritamente agr\u00e1rias, mas ampliadas para a etnia e a reivindica\u00e7\u00e3o dos Purh\u00e9pecha como um todo. Surgiram demandas para a remunicipaliza\u00e7\u00e3o ou a cria\u00e7\u00e3o de uma regi\u00e3o multi\u00e9tnica aut\u00f4noma (Ventura, 2003: 187). As novas organiza\u00e7\u00f5es ter\u00e3o um discurso \u00e9tnico claro, como a Caminos del Pueblo ou a Frente Independiente de Comunidades de Michoac\u00e1n (Frente Independiente de Comunidades de Michoac\u00e1n).<span class=\"small-caps\">ficim<\/span>) (M\u00e1ximo, 2003). O projeto Na\u00e7\u00e3o Purh\u00e9pecha est\u00e1 materializado na Organiza\u00e7\u00e3o Na\u00e7\u00e3o Purh\u00e9pecha (<span class=\"small-caps\">onp<\/span>) (Z\u00e1rate, 1999: 246; Jasso, 2012: 119-120). Essa organiza\u00e7\u00e3o apareceu aos olhos do p\u00fablico em 1991, lan\u00e7ando um manifesto contra as reformas do artigo 27 da Constitui\u00e7\u00e3o, proibindo a venda ou o com\u00e9rcio de terras comunais e alertando que qualquer propriet\u00e1rio comunal que vendesse suas terras seria expulso de sua comunidade e territ\u00f3rio (M\u00e1ximo, 2003: 584; Dietz, 1999: 369). Seu discurso tinha basicamente dois eixos: a autonomia comunit\u00e1ria e a defesa dos recursos naturais, especialmente das florestas. Como uma organiza\u00e7\u00e3o formada principalmente por profissionais de v\u00e1rias comunidades com um discurso e uma afilia\u00e7\u00e3o pol\u00edtica claros, ela logo se enfraqueceu. A utopia da remunicipaliza\u00e7\u00e3o foi adiada. A <span class=\"small-caps\">onp<\/span> Primeiro se fragmentou devido a disputas pelo controle de recursos de financiamento externo que, como associa\u00e7\u00e3o civil, deveriam ser alocados para projetos comunit\u00e1rios. Depois, como seus l\u00edderes nunca conseguiram escapar da din\u00e2mica partid\u00e1ria, ela se diluiu at\u00e9 se tornar insignificante no cen\u00e1rio pol\u00edtico. Por meio dessa organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, na d\u00e9cada de 1990 e com o \u00edmpeto do levante zapatista, buscou-se a autonomia das comunidades por meio da remunicipaliza\u00e7\u00e3o, que n\u00e3o foi alcan\u00e7ada.<\/p>\n\n\n\n<p>No final da primeira d\u00e9cada do s\u00e9culo <span class=\"small-caps\">xxi<\/span> e diante do avan\u00e7o do crime organizado, foi feita uma tentativa de ativar a coordena\u00e7\u00e3o entre as autoridades comunit\u00e1rias e as patrulhas comunit\u00e1rias para se defenderem. Foram realizadas v\u00e1rias reuni\u00f5es entre os representantes da comunidade, mas n\u00e3o houve progresso em termos de organiza\u00e7\u00e3o ou coordena\u00e7\u00e3o para a defesa. Depois do movimento da comunidade de Cher\u00e1n em 2011, que levou ao reconhecimento de seu governo por usos e costumes, de seu conselho administrativo e de sua pr\u00f3pria for\u00e7a policial, as principais demandas do restante das comunidades foram nessa dire\u00e7\u00e3o: receber seu or\u00e7amento diretamente (sem passar pelo tesouro dos munic\u00edpios) e o reconhecimento de seu governo por usos e costumes (o que significa ter sua pr\u00f3pria pol\u00edcia comunit\u00e1ria uniformizada e armada, al\u00e9m de decidir se permite a interven\u00e7\u00e3o de partidos pol\u00edticos e urnas eleitorais). Essa conquista foi refletida em mais de 50 comunidades da regi\u00e3o e outras est\u00e3o em processo de faz\u00ea-lo. Assessoradas por diferentes grupos de advogados, as organiza\u00e7\u00f5es que atualmente lideram esses esfor\u00e7os s\u00e3o o Conselho Ind\u00edgena Supremo de Michoac\u00e1n (<span class=\"small-caps\">csim<\/span>) e a Frente por la Autonom\u00eda de Consejos y Comunidades Ind\u00edgenas (ou Frente por la Autonom\u00eda), liderada pelo coletivo de advogados Emacipanciones (<span class=\"small-caps\">ce<\/span>). Ambas as organiza\u00e7\u00f5es t\u00eam como objetivo alcan\u00e7ar a autonomia das comunidades e avan\u00e7ar na consolida\u00e7\u00e3o da Na\u00e7\u00e3o Purh\u00e9pecha. Al\u00e9m disso, elas apoiam as demandas e mobiliza\u00e7\u00f5es das comunidades diante de qualquer tipo de conflito.<\/p>\n\n\n\n<p>At\u00e9 agora, neste s\u00e9culo, as reivindica\u00e7\u00f5es de reconhecimento de seus costumes e tradi\u00e7\u00f5es t\u00eam se baseado na Conven\u00e7\u00e3o 169 da Organiza\u00e7\u00e3o Internacional do Trabalho (Conven\u00e7\u00e3o 169 da OIT).<span class=\"small-caps\">ilo<\/span>) e o direito de ter seu pr\u00f3prio governo e uma for\u00e7a policial para garantir a seguran\u00e7a da popula\u00e7\u00e3o. \u00c9 interessante notar como o passado comunal, ao influenciar os projetos ut\u00f3picos, acabou se impondo e como o discurso e a l\u00f3gica comunais provocaram um processo de expurgo do que era considerado positivo ou vi\u00e1vel na vida comunal, o que havia sido pervertido, interrompido ou se tornado de interesse particular e precisava ser mudado. Mas tamb\u00e9m apontou para as claras limita\u00e7\u00f5es do pensamento radical. Propostas que desprezavam a hist\u00f3ria da comunidade, como o anticlericalismo, a viol\u00eancia de grupos armados, o discurso de que somente por meio da viol\u00eancia seria poss\u00edvel alcan\u00e7ar a mudan\u00e7a e a proposta de \"tudo ou nada\" dos l\u00edderes radicais, que levou a divis\u00f5es claras, foram descartadas. A reorganiza\u00e7\u00e3o do governo local, o papel da assembleia, o compromisso das autoridades com a comunidade e a defesa de seu patrim\u00f4nio foram aceitos.<\/p>\n\n\n\n<p>Sem d\u00favida, as comunidades est\u00e3o cada vez mais diversificadas e plurais, como resultado da implementa\u00e7\u00e3o de v\u00e1rios projetos de moderniza\u00e7\u00e3o, embora mantenham mecanismos de servi\u00e7o (como os cargos) e de coes\u00e3o, como as trocas rituais que carregam uma forte hist\u00f3ria. \u00c9 aqui que surge a nova utopia comunit\u00e1ria, agora representada nas novas formas de governo dos conselhos comunit\u00e1rios, encarregados de administrar o or\u00e7amento direto e oferecer os servi\u00e7os que o munic\u00edpio costumava oferecer, como seguran\u00e7a, educa\u00e7\u00e3o e sa\u00fade. \u00c9 nesse caso que tanto o reconhecimento legal de um certo grau de autonomia quanto o governo por costume e uso encontram limites claros, pois coexistem formas diferentes e, \u00e0s vezes, conflitantes de conceber a autonomia dentro da mesma comunidade e entre comunidades. O pluralismo e a diversidade de interesses e projetos comunit\u00e1rios representam um desafio para a realiza\u00e7\u00e3o da utopia de uma comunidade pol\u00edtica.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Projetos<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"abstract\">A partir da d\u00e9cada de 1980 e em conjunto com o enfraquecimento da <span class=\"small-caps\">ucez<\/span>No in\u00edcio da d\u00e9cada de 1990, surgiram diferentes iniciativas organizacionais e projetos futuros de car\u00e1ter mais \u00e9tnico, sendo um deles a ideia da Na\u00e7\u00e3o Purh\u00e9pecha. O processo de reinven\u00e7\u00e3o da na\u00e7\u00e3o ou do povo Purh\u00e9pecha se consolidou por meio de a\u00e7\u00f5es e discursos de car\u00e1ter reivindicativo e de busca de autonomia. Gradualmente, mas de forma constante, come\u00e7aram a ser realizadas a\u00e7\u00f5es nas comunidades que buscavam manter o controle efetivo de suas institui\u00e7\u00f5es e formas de relacionamento com o Estado, empresas e organiza\u00e7\u00f5es da sociedade civil.<\/p>\n\n\n\n<p>A utopia da na\u00e7\u00e3o Purh\u00e9pecha se manifestou originalmente na cria\u00e7\u00e3o de v\u00e1rios s\u00edmbolos que, no in\u00edcio da d\u00e9cada de 1980, pareciam um tanto estranhos para a maioria da popula\u00e7\u00e3o, mas que agora s\u00e3o amplamente aceitos e difundidos. Por exemplo, a bandeira, o bras\u00e3o, a celebra\u00e7\u00e3o do Ano Novo Purh\u00e9pecha, o pr\u00f3prio termo \"Purh\u00e9pecha\" em vez do Tarascan colonial e o lema \"Purh\u00e9pecha\". <em>(juchari uinapikua)<\/em>que praticamente se institucionalizaram. Um projeto ut\u00f3pico totalmente novo, concebido por profissionais e intelectuais que surgiram das pr\u00f3prias comunidades.<\/p>\n\n\n\n<p>O projeto da Na\u00e7\u00e3o Purh\u00e9pecha, ou o projeto de se apresentar como uma na\u00e7\u00e3o, talvez seja o mais ambicioso que foi proposto nas \u00faltimas d\u00e9cadas devido aos desafios que busca superar. Poucos povos ind\u00edgenas se concebem e se apresentam como uma na\u00e7\u00e3o. Por um lado, trata-se de se apresentarem e buscarem o reconhecimento como um povo ou na\u00e7\u00e3o que est\u00e1 em p\u00e9 de igualdade com qualquer outra na\u00e7\u00e3o e tem os mesmos direitos, e n\u00e3o como uma minoria \u00e9tnica. Por outro lado, trata-se de superar as diferen\u00e7as e os conflitos intercomunit\u00e1rios end\u00eamicos que, ao longo do \u00faltimo s\u00e9culo, levaram os povos ind\u00edgenas a se tornarem uma na\u00e7\u00e3o. <span class=\"small-caps\">xx<\/span>Os Purh\u00e9pechas, que foram objeto de uma s\u00e9rie de conflitos, provocaram divis\u00f5es e confrontos (alguns dos quais ainda est\u00e3o em andamento). Como aconteceu com a formula\u00e7\u00e3o de outros projetos de comunidades ou na\u00e7\u00f5es imaginadas, que buscam superar as rela\u00e7\u00f5es coloniais (Anderson, 2008), foi um grupo de intelectuais e profissionais, autodenominados Purh\u00e9pechas, que definiu sua exist\u00eancia e formulou os s\u00edmbolos de identidade. Um imagin\u00e1rio que re\u00fane vontades, desejos, aspira\u00e7\u00f5es; em uma palavra: a identidade de m\u00faltiplos atores, mesmo com projetos pol\u00edticos, culturais e sociais diversos.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse processo, a ado\u00e7\u00e3o do termo Purh\u00e9pecha como o gentilicio ao qual se atribu\u00edram primeiro os intelectuais, artistas, autoridades, ativistas, professores, entre outros, e depois o restante da sociedade, anteriormente conhecida como Tarascan, foi fundamental para entender como a ideia de na\u00e7\u00e3o ganhou conte\u00fado. O termo Purh\u00e9pecha significa povo comum ou plebeu e, como gentilicio, n\u00e3o era usado na \u00e9poca pr\u00e9-hisp\u00e2nica, nem na \u00e9poca colonial, nem no M\u00e9xico independente. Na \u00e9poca pr\u00e9-hisp\u00e2nica, o que existia eram cl\u00e3s, e um dos primeiros gent\u00edlicos usados pelos conquistadores foi michoaques ou povo da cidade de Michoac\u00e1n (que \u00e9 de origem nahua). Somente em uma fonte colonial, a Relaci\u00f3n de Cuitzeo (Acu\u00f1a, 1987: 81), h\u00e1 uma men\u00e7\u00e3o ao termo Purh\u00e9pecha.<a class=\"anota\" id=\"anota7\" data-footnote=\"7\">7<\/a> Durante o per\u00edodo colonial, os conquistadores impuseram o termo Tarasco, e \u00e9 assim que ele aparece nas cr\u00f4nicas e etnografias coloniais at\u00e9 a d\u00e9cada de 1980. Mesmo naqueles anos, os membros mais antigos das comunidades continuaram a usar o termo colonial Tarasco. Atualmente, esse termo \u00e9 raramente usado, e a grande maioria da popula\u00e7\u00e3o se identifica como Purh\u00e9pecha. O uso desse termo foi uma das primeiras coisas que tiveram de ser negociadas com a popula\u00e7\u00e3o e foi gradualmente aceito. Localidades que n\u00e3o falam o idioma e que, mesmo h\u00e1 algumas d\u00e9cadas, deixaram de se considerar ind\u00edgenas, agora afirmam ser Purh\u00e9pecha e buscam ser reconhecidas como tal. At\u00e9 mesmo localidades que, durante grande parte do s\u00e9culo passado <span class=\"small-caps\">xx<\/span> que antes se consideravam orgulhosamente mesti\u00e7os, como Huecorio, na bacia do lago P\u00e1tzcuaro, agora tamb\u00e9m afirmam ser Purh\u00e9pecha.<\/p>\n\n\n\n<p>Por exemplo, o festival de Ano Novo de Purh\u00e9pecha, que \u00e9 celebrado desde 1982, \u00e9 totalmente institucionalizado; todos os anos, o an\u00fancio da comunidade em que ser\u00e1 celebrado \u00e9 aguardado com ansiedade. H\u00e1 uma competi\u00e7\u00e3o entre as comunidades para celebr\u00e1-lo e, desde o in\u00edcio, um grupo de diretores ou <em>pet\u00e1mutis<\/em> (aqueles que j\u00e1 se encarregaram da celebra\u00e7\u00e3o em sua comunidade ou que promoveram e defenderam a cultura Purh\u00e9pecha e s\u00e3o reconhecidos por seu comportamento respons\u00e1vel), que tomam as decis\u00f5es relativas a essa festa (Z\u00e1rate, 1994).<\/p>\n\n\n\n<p>Atualmente, \u00e9 comum que pessoas de diferentes comunidades reconhe\u00e7am abertamente que fazem parte da na\u00e7\u00e3o Purh\u00e9pecha, e a bandeira aparece em v\u00e1rios ambientes e \u00e9 homenageada junto com a bandeira nacional. A bandeira, o bras\u00e3o e o lema <em>juchari uinapikua<\/em> (\"nossa for\u00e7a\") est\u00e1 presente em todos os espa\u00e7os civis das comunidades, nos escrit\u00f3rios comunit\u00e1rios, nas pra\u00e7as e nas escolas; \u00e9 homenageada ao lado da bandeira nacional, est\u00e1 impressa em documentos oficiais, bem como em in\u00fameros ve\u00edculos coletivos (t\u00e1xis, vans e caminh\u00f5es de passageiros); lidera qualquer manifesta\u00e7\u00e3o pol\u00edtica ou civil, e at\u00e9 mesmo em algumas festividades religiosas est\u00e1 \u00e0 frente dos grupos de dan\u00e7a e bailes.<\/p>\n\n\n\n<p>A pr\u00f3pria comunidade passou por um processo de redefini\u00e7\u00e3o que anda de m\u00e3os dadas com os Purh\u00e9pecha. Ao mesmo tempo em que o sentimento de pertencer a uma na\u00e7\u00e3o est\u00e1 sendo refor\u00e7ado, os tra\u00e7os culturais que antes eram considerados diacr\u00edticos na defini\u00e7\u00e3o de um grupo \u00e9tnico, como a l\u00edngua, j\u00e1 n\u00e3o o s\u00e3o mais, e agora a autodescri\u00e7\u00e3o, a mem\u00f3ria e os elementos de organiza\u00e7\u00e3o social ou ritual que permanecem em vigor s\u00e3o enfatizados ou apelados. A partir da\u00ed, novos agrupamentos foram acrescentados \u00e0 na\u00e7\u00e3o Purh\u00e9pecha, como aconteceu recentemente com os barrios e a comunidade de Santa Clara del Cobre (Pureco, 2021). Para os sujeitos, \u00e9 muito importante mostrar que todas as suas a\u00e7\u00f5es t\u00eam uma conex\u00e3o com o passado ou com um contexto hist\u00f3rico. Da\u00ed a import\u00e2ncia que atribuem \u00e0 sua interpreta\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria como fonte de legitimidade para sua demanda por autonomia e pertencimento \u00e0 na\u00e7\u00e3o Purh\u00e9pecha. Mais uma vez, a hist\u00f3ria parece se manifestar nos projetos para o futuro.<\/p>\n\n\n\n<p>Para alguns autores, esse \u00e9 um processo de \"etnog\u00eanese\", no qual a ado\u00e7\u00e3o e a reivindica\u00e7\u00e3o da categoria \u00e9tnica s\u00e3o estrat\u00e9gicas para manter certos privil\u00e9gios como classe pol\u00edtica (V\u00e1zquez, 1991). Entretanto, para os pr\u00f3prios atores, como deixaram claro em v\u00e1rias ocasi\u00f5es, eles sempre foram \u00edndios e nunca deixaram de s\u00ea-lo, e a ado\u00e7\u00e3o de Pueh\u00e9pecha como gentilicio \u00e9 uma clara rejei\u00e7\u00e3o da categoria colonial de Tarasco. Desde a d\u00e9cada de 1970, as demandas \u00e9tnicas redefiniram a natureza das rela\u00e7\u00f5es entre a comunidade e a sociedade nacional, com base na utopia da autonomia e da reconstru\u00e7\u00e3o da na\u00e7\u00e3o Pueh\u00e9pecha. \u00c9 importante entender que n\u00e3o se trata apenas de um movimento de resist\u00eancia, mas tamb\u00e9m de um movimento proativo em termos dos objetivos e metas que busca alcan\u00e7ar.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m disso, nas comunidades que j\u00e1 est\u00e3o recebendo o or\u00e7amento direto, h\u00e1 agora um \u00edmpeto para desenvolver projetos comunit\u00e1rios, em oposi\u00e7\u00e3o aos projetos produtivos que eram favorecidos pelos governos neoliberais. Ap\u00f3s a crise do indigenismo oficial na d\u00e9cada de 1970, foi promovida a pol\u00edtica de aloca\u00e7\u00e3o de recursos a grupos e comunidades marginalizados por meio de projetos. Essa pol\u00edtica de aloca\u00e7\u00e3o de recursos pressupunha que a corresponsabilidade dos grupos marginalizados seria fortalecida e que eles acabariam se capitalizando e deixando de ser dependentes dos recursos p\u00fablicos. Como resultado, v\u00e1rios grupos e comunidades se organizaram para solicitar ou \"baixar\" recursos, o que gerou novas formas de depend\u00eancia, clientelismo e pobreza (Cort\u00e9s e Z\u00e1rate, 2019). Mas tamb\u00e9m, em alguns casos, produziu c\u00edrculos virtuosos de autorreprodu\u00e7\u00e3o e crescimento que n\u00e3o dependem tanto de financiamento econ\u00f4mico externo, mas do interesse que a pr\u00f3pria comunidade tem neles em sua busca de reafirmar-se como sujeitos ativos.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m da distin\u00e7\u00e3o inerente \u00e0 administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica neoliberal, que divide projetos bem-sucedidos e malsucedidos, h\u00e1 outra diferencia\u00e7\u00e3o mais ilustrativa entre os projetos que s\u00e3o impostos, externos, mas que s\u00e3o elaborados no calor de editais ou situa\u00e7\u00f5es espec\u00edficas, e os de natureza comunit\u00e1ria, que expressam o ideal do que a comunidade deseja para si mesma no futuro. Embora sejam conduzidos por elites locais (profissionais, ativistas e outros agentes), s\u00e3o projetos sustentados pelo consenso e pelo amplo apoio da comunidade. Um exemplo \u00e9 o projeto educacional de Santa F\u00e9 de la Laguna. Trata-se de um projeto educacional pr\u00f3prio, controlado e elaborado pelos professores e profissionais da comunidade, desde o jardim de inf\u00e2ncia at\u00e9 o ensino m\u00e9dio. Esse projeto educacional nasceu como uma contraproposta e alternativa \u00e0s pol\u00edticas de interculturalidade elaboradas pelas institui\u00e7\u00f5es estatais, as quais, como foi demonstrado, acabam promovendo apenas a identidade \u00e9tnica, mas de forma subordinada. Pelo contr\u00e1rio, o projeto educacional de Santa F\u00e9, como demonstraram estudos como o de Gialuanna Ayora (2012), representa uma alternativa aut\u00eantica constru\u00edda em n\u00edvel local, como parte do processo de reivindica\u00e7\u00e3o \u00e9tnica pelo qual a comunidade passou. A gera\u00e7\u00e3o de projetos de m\u00e9dio e longo prazo, como projetos educacionais, ecol\u00f3gicos ou da Na\u00e7\u00e3o Purh\u00e9pecha, que implicam certa reorganiza\u00e7\u00e3o dentro das comunidades devido aos recursos a serem investidos, representa um dos mecanismos pelos quais as comunidades tentam moldar seu futuro.<\/p>\n\n\n\n<p>Nas comunidades com or\u00e7amento direto, as preocupa\u00e7\u00f5es b\u00e1sicas t\u00eam a ver com a demanda por servi\u00e7os: \u00e1gua pot\u00e1vel, drenagem, coleta de lixo, seguran\u00e7a, manuten\u00e7\u00e3o de escolas e espa\u00e7os p\u00fablicos. Em particular, e dadas as circunst\u00e2ncias atuais, dois projetos s\u00e3o considerados de vital import\u00e2ncia: um \u00e9 a forma\u00e7\u00e3o, o treinamento e a manuten\u00e7\u00e3o de um corpo de seguran\u00e7a que possa enfrentar ou, pelo menos, conter as frequentes incurs\u00f5es de grupos do crime organizado nas comunidades. O outro, intimamente ligado ao anterior, \u00e9 a recupera\u00e7\u00e3o ou, pelo menos, a interrup\u00e7\u00e3o da expans\u00e3o do cultivo de abacate em terras comunit\u00e1rias, que se tornou uma verdadeira praga para as comunidades, produzida por empres\u00e1rios privados, \u00e0s vezes associados a grupos de assassinos contratados, que defendem e promovem o desmatamento e a expans\u00e3o do cultivo de abacate em \u00e1reas montanhosas. Ambos os projetos ou microutopias t\u00eam dificuldades consider\u00e1veis para serem realizados porque enfrentam grupos de interesse muito poderosos ligados ao capitalismo neoliberal, que representa um futuro totalmente diferente daquele almejado pelas comunidades. Mas tamb\u00e9m h\u00e1 projetos promovidos por v\u00e1rias comunidades: os dois que surgiram nos \u00faltimos tempos s\u00e3o a constru\u00e7\u00e3o de uma cl\u00ednica m\u00e9dica especializada, a ser localizada no cora\u00e7\u00e3o do plat\u00f4 Purh\u00e9pecha, e um quartel da Guarda Nacional que incluiria a pol\u00edcia comunit\u00e1ria ou a pol\u00edcia da comunidade. <em>kuarichas<\/em>O atual governador prometeu constru\u00ed-las nos pr\u00f3ximos anos. Todos esses projetos estar\u00e3o agora nas m\u00e3os das pr\u00f3prias comunidades, que buscam se manter como sujeitos coletivos vi\u00e1veis diante das tend\u00eancias fragmentadoras e produtoras de desigualdade do capitalismo neoliberal (migra\u00e7\u00e3o, trabalho diurno, depreda\u00e7\u00e3o ambiental, entre outros).<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Para concluir<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"abstract\">N\u00e3o podemos entender completamente a relev\u00e2ncia e a validade das comunidades ind\u00edgenas contempor\u00e2neas se n\u00e3o considerarmos seus projetos futuros, suas utopias e planos, por meio dos quais elas est\u00e3o se reinventando. A mobiliza\u00e7\u00e3o \u00e9 um deles, mas h\u00e1 outros, como o uso de tecnologias digitais, a renova\u00e7\u00e3o dos governos locais, a dial\u00e9tica entre a sacraliza\u00e7\u00e3o e a dessacraliza\u00e7\u00e3o dos rituais comunit\u00e1rios, a persist\u00eancia de narrativas que articulam o futuro como uma renova\u00e7\u00e3o do passado.<\/p>\n\n\n\n<p>O futuro sempre esteve na mira das comunidades ind\u00edgenas, explicitamente a partir da d\u00e9cada de 1970. <span class=\"small-caps\">xx<\/span>Embora, a partir das perspectivas tradicionais das ci\u00eancias sociais, nunca o tenhamos considerado dessa forma, porque a antropologia tem sido dominada por uma vis\u00e3o \"realista\", na qual prevalece o uso de categorias fixas e modelos est\u00e1ticos, sem considerar que os sujeitos constroem sua ag\u00eancia em rela\u00e7\u00e3o a utopias de melhores condi\u00e7\u00f5es de vida. Quando se fala em tempo, n\u00e3o h\u00e1 realismo que seja v\u00e1lido, estamos diante de constru\u00e7\u00f5es imagin\u00e1rias do passado, mas tamb\u00e9m do \"futuro\" e de cortes arbitr\u00e1rios para delimitar o presente.<\/p>\n\n\n\n<p>Considerar as diversas temporalidades que se expressam nesses processos organizacionais, como mostramos, nos permite superar algumas das cr\u00edticas que o pensamento liberal faz aos projetos ut\u00f3picos, como os de comunidades, povos origin\u00e1rios e na\u00e7\u00f5es. Isso se deve ao fato de que qualquer grupo social que se considere uma comunidade aspira a permanecer vi\u00e1vel no futuro, ou a uma melhor condi\u00e7\u00e3o de vida, portanto, deve permanecer em constante movimento, gerando projetos de participa\u00e7\u00e3o coletiva e mudan\u00e7a para moldar suas condi\u00e7\u00f5es de vida e seu futuro. Nesse caso, persistir tem a ver com a vontade de preservar a unidade entre a popula\u00e7\u00e3o e o territ\u00f3rio. Isso tamb\u00e9m nos permite nos afastar das defini\u00e7\u00f5es essencialistas que consideram que as comunidades contempor\u00e2neas existem por si s\u00f3. Em vez disso, devemos considerar que elas s\u00e3o o produto da a\u00e7\u00e3o de sujeitos que aspiram a melhorar suas condi\u00e7\u00f5es de vida e, ao faz\u00ea-lo, afetam o presente e suas imagens do passado.<\/p>\n\n\n\n<p>No mundo moderno, definido pelo capitalismo global, viver em comunidade, mesmo que seja pol\u00edtica, \u00e9 sempre uma a\u00e7\u00e3o deliberada de sujeitos que buscam, de alguma forma, ter algum controle sobre o que o futuro reserva. Como esses s\u00e3o processos cont\u00ednuos, seu estudo ou compreens\u00e3o nos apresenta o desafio de tentar apreender o que est\u00e1 apenas em constru\u00e7\u00e3o e existe na imagina\u00e7\u00e3o. As utopias realistas ou poss\u00edveis n\u00e3o s\u00e3o uma idealiza\u00e7\u00e3o banal de movimentos de reivindica\u00e7\u00e3o e reconhecimento, nem um desvio de projetos aut\u00eanticos para a transforma\u00e7\u00e3o da sociedade, mas uma das m\u00faltiplas possibilidades de transforma\u00e7\u00e3o; portanto, sua considera\u00e7\u00e3o \u00e9 necess\u00e1ria para entender os processos contempor\u00e2neos de comunaliza\u00e7\u00e3o e a constru\u00e7\u00e3o de futuros alternativos ao oferecido pelo capitalismo global.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Bibliografia<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"bibliography\" data-no-auto-translation=\"\">Acu\u00f1a, Ren\u00e9 (ed.) (1987). Relaciones geogr\u00e1ficas del siglo <span class=\"small-caps\">xvi<\/span>: Michoac\u00e1n. M\u00e9xico: <span class=\"small-caps\">unam<\/span>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"bibliography\" data-no-auto-translation=\"\">Aguirre B., Gonzalo (1983). Las lenguas vern\u00e1culas. Su uso y desuso en la ense\u00f1anza: la experiencia de M\u00e9xico. M\u00e9xico: <span class=\"small-caps\">ciesas<\/span>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"bibliography\" data-no-auto-translation=\"\">Anderson, Benedict (2008). Bajo tres banderas. Anarqu\u00eda e imaginaci\u00f3n anticolonial. Madrid: Akal.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"bibliography\" data-no-auto-translation=\"\">Appadurai, Arjun (2013). The Future as Cultural Fact: Essays on the Global Condition. Londres y Nueva York: Verso.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"bibliography\" data-no-auto-translation=\"\">Ayora, Gialuanna (2012). \u201cEducaci\u00f3n intercultural y decolonialidad: de la promoci\u00f3n de la lectura a un enfoque de literacidad para la ni\u00f1ez ind\u00edgena purh\u00e9pecha\u201d. Tesis de maestr\u00eda en investigaci\u00f3n educativa. Xalapa: Universidad Veracruzana.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"bibliography\" data-no-auto-translation=\"\">Benjamin, Walter (2007). \u201cSobre el concepto de historia\u201d, en Walter Benjamin. 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M\u00e9xico: El Colegio de Michoac\u00e1n\/<span class=\"small-caps\">inah\/ciesas<\/span>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"bibliography\" data-no-auto-translation=\"\">Mumford, Lewis (2015). Historia de las utop\u00edas. La Rioja: Pepitas de Calabaza.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"bibliography\" data-no-auto-translation=\"\">Munn, Nancy (1992). \u201cThe Cultural Anthropology of Time: A Critical Essay\u201d, Annual Review of Anthropology, vol. 21, pp. 93-123.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"bibliography\" data-no-auto-translation=\"\">Nozik, Robert (1988). Anarqu\u00eda, Estado y utop\u00eda. M\u00e9xico: <span class=\"small-caps\">fce<\/span>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"bibliography\" data-no-auto-translation=\"\">Popper, Karl (2017). La sociedad abierta y sus enemigos. 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Zamora: El Colegio de Michoac\u00e1n\/<span class=\"small-caps\">iteso<\/span>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"bibliography\" data-no-auto-translation=\"\">\u2014 (1999). \u201cLa reconstrucci\u00f3n de la naci\u00f3n purh\u00e9pecha y el proceso de autonom\u00eda en Michoac\u00e1n, M\u00e9xico\u201d, en Willem Assies, Gemma Van der Haar y Andr\u00e9 Hoekema (eds.). El reto de la diversidad. Zamora: El Colegio de Michoac\u00e1n.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"bibliography\" data-no-auto-translation=\"\">Zeitlyn, David (2020). \u201cHaunting, Dutching, and Interference: Provocations for the Anthropology of Time\u201d, Current Anthropology, vol. 61, n\u00fam. 4, pp. 495-513.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity is-style-dots\"\/>\n\n\n\n<p class=\"abstract\"><em>Eduardo Zarate<\/em> \u00e9 professor pesquisador no El Colegio de Michoac\u00e1n. \u00daltimos livros publicados: Z\u00e1rate, Eduardo e Jorge Uzeta (eds.) (2016). <em>Idiomas da fragmenta\u00e7\u00e3o pol\u00edtica<\/em>. Zamora: El Colegio de Michoac\u00e1n; Z\u00e1rate, Eduardo (2017). <em>A celebra\u00e7\u00e3o da inf\u00e2ncia. O culto ao Menino Jesus na regi\u00e3o de Purh\u00e9pecha.<\/em>. Zamora: El Colegio de Michoac\u00e1n; Oiki\u00f3n, Ver\u00f3nica e Jos\u00e9 Eduardo Z\u00e1rate (eds.) (2019). <em>Michoac\u00e1n. pol\u00edtica e sociedade<\/em>. Zamora: El Colegio de Michoac\u00e1n; Z\u00e1rate, Eduardo (ed.) (2022). <em>Comunidades, utopias e futuros<\/em>. Zamora: El Colegio de Michoac\u00e1n.<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Resumo Neste artigo, mostramos como as organiza\u00e7\u00f5es e os projetos ancorados na comunidade ind\u00edgena contempor\u00e2nea s\u00e3o estruturados em torno de imagin\u00e1rios do futuro desej\u00e1vel. Retomamos a ideia de utopia como refer\u00eancia ao poss\u00edvel para entender os efeitos das reivindica\u00e7\u00f5es \u00e9tnicas nas pr\u00f3prias comunidades. 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