{"id":37332,"date":"2023-09-21T11:00:00","date_gmt":"2023-09-21T11:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/encartes.mx\/?p=37332"},"modified":"2023-11-16T17:26:27","modified_gmt":"2023-11-16T23:26:27","slug":"bastos-descolonizacion-movilizacion-indigenas-america-latina","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/encartes.mx\/pt\/bastos-descolonizacion-movilizacion-indigenas-america-latina\/","title":{"rendered":"Mobiliza\u00e7\u00e3o ind\u00edgena e descoloniza\u00e7\u00e3o na Am\u00e9rica Latina: algumas ideias para discuss\u00e3o"},"content":{"rendered":"<h2 class=\"wp-block-heading\">Sum\u00e1rio<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"abstract\">Com base em v\u00e1rias das ideias contidas em \"Beyond Decoloniality: A Discussion of Some Key Concepts\" (2023), de David Lehmann, proponho neste artigo uma maneira diferente de entender a rela\u00e7\u00e3o entre a mobiliza\u00e7\u00e3o ind\u00edgena nas \u00faltimas d\u00e9cadas na Am\u00e9rica Latina, os estudos decoloniais e outras formas do que chamo de \"moldura colonial\". O argumento central se desenvolve em torno da mobiliza\u00e7\u00e3o ind\u00edgena, que vejo como mut\u00e1vel e em um processo de complexifica\u00e7\u00e3o, no qual as rela\u00e7\u00f5es com as ideias de descoloniza\u00e7\u00e3o s\u00e3o evidentes, mas n\u00e3o s\u00e3o as \u00fanicas que informam sua a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Ao levar em conta esses dois elementos, a rela\u00e7\u00e3o entre mobiliza\u00e7\u00e3o, descoloniza\u00e7\u00e3o e democracia \u00e9 entendida de uma maneira diferente e com consequ\u00eancias diferentes das de Lehmann.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"abstract\">Palavras-chave: <a href=\"https:\/\/encartes.mx\/pt\/tag\/descolonizacion\/\" rel=\"tag\">descoloniza\u00e7\u00e3o<\/a>, <a href=\"https:\/\/encartes.mx\/pt\/tag\/giro-decolonial\/\" rel=\"tag\">virada decolonial<\/a>, <a href=\"https:\/\/encartes.mx\/pt\/tag\/movilizacion-indigena\/\" rel=\"tag\">mobiliza\u00e7\u00e3o ind\u00edgena<\/a>, <a href=\"https:\/\/encartes.mx\/pt\/tag\/pueblos-indigenas\/\" rel=\"tag\">povos ind\u00edgenas<\/a><\/p>\n\n\n\n<p class=\"en-title\"><span class=\"small-caps\">mobiliza\u00e7\u00e3o ind\u00edgena e descoloniza\u00e7\u00e3o na am\u00e9rica latina:<\/span> <span class=\"small-caps\">Algumas ideias para discuss\u00e3o <\/span><\/p>\n\n\n\n<p class=\"en-text abstract\">Partindo de algumas das ideias do texto de David Lehman, proponho uma maneira diferente de entender a rela\u00e7\u00e3o entre a mobiliza\u00e7\u00e3o ind\u00edgena nas \u00faltimas d\u00e9cadas na Am\u00e9rica Latina e os estudos decoloniais e outras pesquisas que chamei de \"raz\u00e3o colonial\". Argumento que esse paradigma \u00e9 mais amplo do que o \"decolonial\" e que, al\u00e9m de contribui\u00e7\u00f5es muito interessantes, parte de suas limita\u00e7\u00f5es vem de sua pr\u00f3pria inten\u00e7\u00e3o abrangente. Mas o argumento central \u00e9 sobre a mobiliza\u00e7\u00e3o ind\u00edgena, que considero estar mudando e em um processo de complexidade crescente, no qual as rela\u00e7\u00f5es com as ideias de descoloniza\u00e7\u00e3o s\u00e3o evidentes, mas n\u00e3o s\u00e3o as \u00fanicas que informam a a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica ind\u00edgena. Levando em conta esses dois elementos, a rela\u00e7\u00e3o entre mobiliza\u00e7\u00e3o, descoloniza\u00e7\u00e3o e democracia \u00e9 vista de outra forma e com outras consequ\u00eancias.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"abstract\">Palavras-chave: povos ind\u00edgenas, descoloniza\u00e7\u00e3o, reviravolta descolonial, mobiliza\u00e7\u00e3o ind\u00edgena, Guatemala.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator is-style-dots\"\/>\n\n\n\n<p class=\"has-drop-cap abstract\">David Lehmann nos brinda com um texto provocativo, no qual aborda v\u00e1rias quest\u00f5es importantes para o debate sobre a mobiliza\u00e7\u00e3o dos povos ind\u00edgenas na Am\u00e9rica Latina nas primeiras d\u00e9cadas do s\u00e9culo. <span class=\"small-caps\">xxi<\/span>. Ele desenvolve v\u00e1rios argumentos em torno delas, mas suas duas ideias principais me parecem interessantes e, em princ\u00edpio, eu as compartilharia: que as mobiliza\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas produzem contribui\u00e7\u00f5es para a democracia al\u00e9m dos benef\u00edcios obtidos pelos pr\u00f3prios ind\u00edgenas e que a proposta de decolonialidade acabou gerando uma forma simplificada de entender a complexa realidade \u00e9tnico-racial desse continente. No entanto, a articula\u00e7\u00e3o que ele prop\u00f5e entre as duas ideias, assim como outras afirma\u00e7\u00f5es do texto, pode ser discutida e farei isso fazendo alguns coment\u00e1rios dentro de uma proposta diferente de como entender a mobiliza\u00e7\u00e3o ind\u00edgena e o papel da proposta decolonial nela. Acredito que ambos - a mobiliza\u00e7\u00e3o ind\u00edgena e as ideias desenvolvidas a partir do que chamarei de \"estrutura colonial\" - se influenciaram mutuamente nas \u00faltimas d\u00e9cadas, que s\u00e3o mais amplos do que Lehmann prop\u00f5e e que a mobiliza\u00e7\u00e3o ind\u00edgena em particular - que \u00e9 a quest\u00e3o que me interessa - tem efeitos democratizantes em toda a sociedade, n\u00e3o apenas em termos da pr\u00f3pria mobiliza\u00e7\u00e3o ind\u00edgena, mas tamb\u00e9m em termos da descoloniza\u00e7\u00e3o do movimento ind\u00edgena como um todo. <em>apesar de<\/em> de argumentos decoloniais - como Lehmann aponta - mas precisamente por causa da <em>de<\/em> Por isso, o debate entre movimentos universalistas e \"movimentos definidos apenas por pol\u00edticas de identidade\" deve ser abordado a partir de uma perspectiva que leve em conta o que significa ser ind\u00edgena na Am\u00e9rica Latina no s\u00e9culo XXI. Por essa raz\u00e3o, o debate entre movimentos universalistas e \"movimentos definidos apenas por pol\u00edticas de identidade\" deve ser abordado a partir de uma perspectiva que leve em conta o que significa ser ind\u00edgena na Am\u00e9rica Latina no s\u00e9culo XXI. <span class=\"small-caps\">xxi<\/span>.<\/p>\n\n\n\n<p>Esta reflex\u00e3o n\u00e3o se concentra na quest\u00e3o da decolonialidade, mas no que posso contribuir: a an\u00e1lise da a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica de povos ind\u00edgenas mobilizados.<a class=\"anota\" id=\"anota1\" data-footnote=\"1\">1<\/a> Este n\u00e3o pretende ser um artigo acad\u00eamico, mas, com base em uma leitura do texto de Lehmann, gostaria de apresentar uma s\u00e9rie de ideias que podem ser \u00fateis para a discuss\u00e3o a que ele nos convida. <em>Encartes<\/em>. Dada a variedade e a complexidade das quest\u00f5es, este ser\u00e1 necessariamente um resumo incompleto e parcial, no qual cairei em generaliza\u00e7\u00f5es e simplifica\u00e7\u00f5es, com constru\u00e7\u00f5es como \"abordagem decolonial\", \"povos ind\u00edgenas da Am\u00e9rica Latina\" ou \"povos ind\u00edgenas organizados\" que ocultam a grande diversidade existente entre eles.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">A \"estrutura colonial\", a descoloniza\u00e7\u00e3o e a descolonialidade<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"abstract\">Antes de entrar na mobiliza\u00e7\u00e3o ind\u00edgena - que, repito, \u00e9 o foco deste texto -, \u00e9 necess\u00e1rio se deter na quest\u00e3o da decolonialidade, j\u00e1 que, como aparece no t\u00edtulo de Lehmann, \u00e9 sua principal preocupa\u00e7\u00e3o. N\u00e3o vou entrar em um assunto sobre o qual j\u00e1 existe uma grande produ\u00e7\u00e3o e um debate acalorado (ver De la Garza, 2021; Rufer, 2022; ou o pr\u00f3prio livro de Lehmann, 2022; para citar a produ\u00e7\u00e3o recente); quero apenas levantar algumas quest\u00f5es que, em minha opini\u00e3o, s\u00e3o necess\u00e1rias para o desenvolvimento do texto.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center cuadrado\">\u25a0<\/p>\n\n\n\n<p class=\"abstract\">Uma primeira observa\u00e7\u00e3o ao texto de Lehmann seria que os estudos que se baseiam na compreens\u00e3o da situa\u00e7\u00e3o atual da Am\u00e9rica Latina a partir de uma perspectiva que questiona o eurocentrismo das propostas te\u00f3ricas e ideol\u00f3gicas que governaram seus destinos e que n\u00e3o levam em conta seus habitantes originais e seus conhecimentos (Quijano, 2000; Rufer, 2022) s\u00e3o mais amplos do que os autodenominados decoloniais.<\/p>\n\n\n\n<p>Desde o final do s\u00e9culo passado, uma s\u00e9rie de propostas pol\u00edtico-acad\u00eamicas vem se consolidando em torno do que Mario Rufer chama de \"o campo dos estudos de(s)coloniais e da cr\u00edtica p\u00f3s-colonial\" (2022: 11) e que neste artigo chamarei de \"o marco colonial\", para me referir \u00e0queles que prop\u00f5em suas an\u00e1lises a partir do marco de ideias que a situa\u00e7\u00e3o colonial gerou nesse continente desde o s\u00e9culo XX, e que \u00e9 o resultado de uma s\u00e9rie de propostas pol\u00edtico-acad\u00eamicas que foram apresentadas no campo da cr\u00edtica p\u00f3s-colonial. <span class=\"small-caps\">xvi<\/span> ainda est\u00e1 presente como uma \"condi\u00e7\u00e3o estruturante do presente\" (Rufer, 2022: 11), como um elemento <em>central<\/em> para entender a conforma\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica e a din\u00e2mica social da regi\u00e3o. Em outras palavras, o cerne do argumento est\u00e1 na maneira de entender e ordenar o mundo que a experi\u00eancia colonial gerou e que ainda est\u00e1 presente, muitas vezes oculta porque nossa pr\u00f3pria maneira de analisar as sociedades faz parte dela.<\/p>\n\n\n\n<p>Muitos autores e escolas se enquadram nessa estrutura. Dentro dessa gama, o Colonality\/Modernity Group, o Decolonial Studies Group ou a \"op\u00e7\u00e3o decolonial\" seriam caracterizados por suas abordagens em torno da nega\u00e7\u00e3o <em>epist\u00eamico<\/em> dos sujeitos originais como a base da modernidade ocidental, baseada no que Walter Mignolo chamou de \"matriz do poder colonial\", que afeta todas as dimens\u00f5es da vida social e que foi enriquecida pelas propostas de Boaventura de Sousa Santos sobre a ecologia do conhecimento e as epistemologias do Sul. Talvez seja a vers\u00e3o dos estudos inclu\u00eddos na \"estrutura colonial\" que tenha alcan\u00e7ado maior presen\u00e7a no meio acad\u00eamico latino-americano e, portanto, \u00e9 poss\u00edvel que Lehmann se refira a ela de forma isolada,<a class=\"anota\" id=\"anota2\" data-footnote=\"2\">2<\/a>  mas essa n\u00e3o \u00e9 a \u00fanica vers\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 uma diversidade de propostas que foram desenvolvidas e fortalecidas nessas d\u00e9cadas, como a releitura das ideias sobre colonialismo interno formuladas no M\u00e9xico por Pablo Gonz\u00e1lez Casanova e Rodolfo Stavenhagen em meados do s\u00e9culo passado. H\u00e1 tamb\u00e9m as que surgem das lutas ind\u00edgenas, como as contribui\u00e7\u00f5es da boliviana Silvia Rivera Cusicanqui que, vendo a colonialidade como a base da sociedade boliviana, a concebe como <em>ch'ixi<\/em>Essas s\u00e3o maneiras pelas quais a persist\u00eancia do colonialismo n\u00e3o \u00e9 entendida apenas como ligada a formas de conhecimento e epistemologias, mas tamb\u00e9m como relacionada a outros aspectos da realidade hist\u00f3rica e social. Essas s\u00e3o maneiras pelas quais a persist\u00eancia do colonialismo n\u00e3o \u00e9 entendida apenas como ligada a formas de conhecimento e epistemologias, mas tamb\u00e9m como relacionada a outros aspectos da realidade hist\u00f3rica e social.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center cuadrado\">\u25a0<\/p>\n\n\n\n<p class=\"abstract\">J\u00e1 na terceira d\u00e9cada do s\u00e9culo <span class=\"small-caps\">xxi<\/span>No entanto, n\u00e3o se pode negar a import\u00e2ncia e o impacto das contribui\u00e7\u00f5es feitas a partir dessa \"estrutura colonial\" na renova\u00e7\u00e3o e no aprofundamento da an\u00e1lise das realidades sociais da Am\u00e9rica Latina e como ela influenciou escolas como o feminismo, o marxismo ou a ecologia pol\u00edtica.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 evidente que a chamada de aten\u00e7\u00e3o para a import\u00e2ncia da persist\u00eancia dos esquemas coloniais nas estruturas sociais e ideol\u00f3gicas permitiu uma maior compreens\u00e3o do desenvolvimento hist\u00f3rico e das lacunas sociais na regi\u00e3o, estabelecendo uma rela\u00e7\u00e3o inescap\u00e1vel com o capitalismo e assumindo a proposta feminista de incorporar o patriarcado a essa estrutura de domina\u00e7\u00e3o. Al\u00e9m disso, desde a proposta original de An\u00edbal Quijano (2000), os estudiosos da estrutura colonial se juntaram a outras correntes (estudos afro-americanos e diasp\u00f3ricos, racismo cr\u00edtico), de modo que agora o racismo, a ra\u00e7a e a racializa\u00e7\u00e3o formam uma parte inescap\u00e1vel das ci\u00eancias sociais que, na regi\u00e3o, relutavam em rela\u00e7\u00e3o a essa estrutura de interpreta\u00e7\u00e3o, enriquecendo assim as formas de entender nossas sociedades. \u00c9 importante entender que o racismo vai al\u00e9m da popula\u00e7\u00e3o ind\u00edgena ou afrodescendente e que o princ\u00edpio da diferencia\u00e7\u00e3o por origem est\u00e1 na base da pr\u00f3pria concep\u00e7\u00e3o de todas as sociedades, marcadas pelos efeitos da experi\u00eancia colonial.<\/p>\n\n\n\n<p>Talvez o mais interessante seja a faceta desconstrutiva dessas cr\u00edticas, como o questionamento das formas acad\u00eamicas de conhecimento, que for\u00e7ou um exame de nossas formas de pesquisa e ensino, aprofundando a cr\u00edtica das formas hier\u00e1rquicas de entender nosso trabalho. Dessa forma, ao refor\u00e7ar propostas que j\u00e1 estavam em vigor, como o \"conhecimento situado\" do feminismo (Haraway, 1995), as formas de conceber e praticar a academia foram enriquecidas. A reivindica\u00e7\u00e3o do conhecimento ind\u00edgena como forma leg\u00edtima de conhecimento permitiu o desenvolvimento da \"pesquisa ind\u00edgena\" com base em sua experi\u00eancia diferenciada das quest\u00f5es que lhes dizem respeito como povos ind\u00edgenas. Da mesma forma, a cr\u00edtica da raz\u00e3o como base do conhecimento moderno abriu espa\u00e7o para a pesquisa de ontologias e \"sentipensares\", diferentes formas de conhecimento que enriquecem nosso trabalho.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center cuadrado\">\u25a0<\/p>\n\n\n\n<p class=\"abstract\">Mas a maneira como essas propostas s\u00e3o frequentemente tratadas prova que Lehmann est\u00e1 certo quando acusa essas abordagens de simplificar a realidade. Como diz Ren\u00e9e de la Torre (comunica\u00e7\u00e3o pessoal, 5\/04\/2023), a <em>cr\u00edticas<\/em> p\u00f3s-colonial gerou <em>discursos<\/em> propostas p\u00f3s-coloniais que n\u00e3o atendem \u00e0s mesmas expectativas. \u00c9 paradoxal que as propostas que surgiram de uma abordagem de revis\u00e3o hist\u00f3rica para dar lugar a uma diversidade cultural que havia sido negada pelo pensamento ocidental tenham terminado em uma vis\u00e3o que, como Lehmann aponta, \u00e9 a de um \"sistema polarizado que permaneceu intacto por quase 500 anos\".<a class=\"anota\" id=\"anota3\" data-footnote=\"3\">3<\/a>  A hist\u00f3ria foi congelada de forma dicot\u00f4mica entre um passado em que n\u00e3o havia domina\u00e7\u00e3o colonial e um \"presente\" de 500 anos que permanece ancorado nessa domina\u00e7\u00e3o. Tamb\u00e9m foi gerada uma vis\u00e3o de mundo dicot\u00f4mica, polarizada entre um Norte ou Ocidente moderno, colonizador, capitalista, patriarcal e predat\u00f3rio e culturas \"do Sul\", definidas por uma ontologia relacional, um respeito pela natureza e formas coletivas de organiza\u00e7\u00e3o - ou seja, o oposto do Ocidente - que parecem semelhantes entre si, apesar de sua diversidade hist\u00f3rica e geogr\u00e1fica.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa vis\u00e3o do \"Ocidente\" ou do \"Norte\" \u00e9 compreens\u00edvel porque foi a modernidade e a Europa que chegaram \u00e0 Am\u00e9rica Latina e a moldaram como ela \u00e9 hoje, mas \u00e9 uma vers\u00e3o que esquece s\u00e9culos de hist\u00f3ria, n\u00e3o apenas elementos pr\u00e9-capitalistas, mas tamb\u00e9m elementos pr\u00e9-crist\u00e3os muito semelhantes ao \"conhecimento ind\u00edgena\", que tamb\u00e9m fazem parte dos repert\u00f3rios sociais e culturais das sociedades europeias. Na simplifica\u00e7\u00e3o do pensamento \"ocidental\", cria-se uma genealogia \u00fanica - excludente, patriarcal, racista - que \u00e9 evidente, mas que esquece tradi\u00e7\u00f5es que criticam essa modernidade ou que se desenvolveram paralelamente a ela, algumas das quais s\u00e3o alimentadas pelos pr\u00f3prios estudos que as negam.<\/p>\n\n\n\n<p>Pelo contr\u00e1rio, acabou criando um \"Sul\" unificado por aquilo que se op\u00f5e ao \"Ocidente\": um Sul m\u00edtico no qual, apesar dessa colonialidade, as rela\u00e7\u00f5es sociais horizontais sobreviveram, no qual os seres humanos tratam a natureza como parte dela, no qual a diferen\u00e7a de g\u00eanero n\u00e3o implica domina\u00e7\u00e3o e no qual a diversidade - cultural, sexual - \u00e9 celebrada e n\u00e3o perseguida. Se essas pr\u00e1ticas n\u00e3o existem atualmente, \u00e9 porque a modernidade\/capitalismo\/patriarcado\/patriarcado\/racismo as apagou. Esses argumentos acabam levando a uma vis\u00e3o de sociedades em que os coletivos inseridos em rela\u00e7\u00f5es coloniais s\u00e3o entendidos como coletivos autocontidos e autoexcludentes, separados uns dos outros e definidos por \"conhecimentos\" que tamb\u00e9m s\u00e3o \"seus\", diferentes e autoexcludentes, deixando de lado v\u00e1rias d\u00e9cadas de compreens\u00e3o da din\u00e2mica social e cultural nesse continente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center cuadrado\">\u25a0<\/p>\n\n\n\n<p class=\"abstract\">Outro paradoxo \u00e9 que, em minha opini\u00e3o, essas limita\u00e7\u00f5es da raz\u00e3o colonial decorrem de um de seus maiores pontos fortes: a tentativa de construir um <em>novo paradigma<\/em> (Rufer, 2022) que questiona, rompe e supera o pensamento do qual se origina, um paradigma que cont\u00e9m propostas pol\u00edticas a partir das quais a sociedade pode ser transformada. Por um lado, essa afirma\u00e7\u00e3o pode levar a uma simplifica\u00e7\u00e3o da an\u00e1lise - \"tudo \u00e9 colonial\", \"s\u00f3 a colonialidade explica\" - e a uma nega\u00e7\u00e3o de todas as outras correntes e estruturas explicativas consideradas \"colonialistas\", a menos que explicitem sua convers\u00e3o descolonizadora. Isso pode levar \u00e0 vitimiza\u00e7\u00e3o desse pensamento dentro da academia, apesar de sua evidente consolida\u00e7\u00e3o e at\u00e9 mesmo empoderamento em alguns espa\u00e7os. Por outro lado, essa reivindica\u00e7\u00e3o de refunda\u00e7\u00e3o levou a uma vers\u00e3o militante na qual a \"raz\u00e3o colonial\" est\u00e1 passando de paradigma para paradigma.<em> doutrina<\/em> para aqueles que a consideram uma verdade \u00fanica e que medem a adequa\u00e7\u00e3o das propostas acad\u00eamicas por sua proximidade com o n\u00facleo \"descolonizador\" e n\u00e3o por sua capacidade anal\u00edtica.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 uma situa\u00e7\u00e3o que em parte se assemelha ao que aconteceu com o marxismo acad\u00eamico que se tornou hegem\u00f4nico em certos espa\u00e7os na d\u00e9cada de 1970: ele \u00e9 usado para medir o politicamente correto de uma \"academia comprometida\" que simplifica muito a an\u00e1lise, mas que - dizem - aumenta o valor pol\u00edtico dos estudos. Naquela \u00e9poca, talvez as vers\u00f5es mais ricas sejam aquelas que combinam elementos desse paradigma com os de outros, explorando assim todo o seu potencial em vez de se fechar em uma \u00fanica verdade.<\/p>\n\n\n\n<p>Por essa raz\u00e3o, propostas como a de Silvia Rivera Cusicanqui (2010) s\u00e3o reconstituintes, provocativas e sugestivas, pois ela n\u00e3o fala do \"...\".<em>chixi<\/em>\"N\u00e3o retoma Ren\u00e9 Zavaleta para se opor ao colonial, como Lehmann parece argumentar, mas o faz a partir do pressuposto da necessidade de uma \"pr\u00e1tica descolonizadora\", e que considera a hist\u00f3ria a partir dos diferentes \"horizontes\" ou momentos hist\u00f3ricos de domina\u00e7\u00e3o: o \"colonial, o liberal, o populista\" (p. 56) para propor um \"projeto de modernidade ind\u00edgena\" (p. 55) em uma Bol\u00edvia que parte da \"afirma\u00e7\u00e3o de um 'n\u00f3s', variegado e <em>chixi<\/em>\" (p. 73).<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Ser ind\u00edgena na Am\u00e9rica Latina do s\u00e9culo XXI<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"abstract\">Assim, quando Lehmann questiona a maneira como os estudos decoloniais concebem a realidade ind\u00edgena como homog\u00eanea e ancorada entre a colonialidade e a resist\u00eancia, em minha opini\u00e3o, essa \u00e9 uma cr\u00edtica leg\u00edtima e necess\u00e1ria. Mas a vis\u00e3o do ind\u00edgena que ele mostra, n\u00e3o de forma expl\u00edcita e ordenada, mas por meio de coment\u00e1rios soltos, tamb\u00e9m n\u00e3o ajuda a entender a atual mobiliza\u00e7\u00e3o ind\u00edgena e est\u00e1 na base do que quero levantar nas se\u00e7\u00f5es seguintes, por isso vou me deter brevemente nessa quest\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center cuadrado\">\u25a0<\/p>\n\n\n\n<p class=\"abstract\">Em seu texto, Lehmann expressa uma vis\u00e3o do que significa ser ind\u00edgena na Am\u00e9rica Latina hoje, com base em uma identidade que ele considera \"fluida e mut\u00e1vel\", baseada em elementos \"subjetivos\" e relacionada \u00e0 \"fluidez das fronteiras raciais\" em sociedades \"variegadas\" com \"mesti\u00e7agem generalizada\". Essa imagem, na qual a etnia racial n\u00e3o parece ser um elemento importante na forma\u00e7\u00e3o social, \u00e9 refor\u00e7ada quando o \"racismo estrutural\" \u00e9 mencionado apenas uma vez - entre par\u00eanteses - e considera que \"a ra\u00e7a e a etnia carregam uma ambiguidade\" com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 desigualdade, uma vez que, mais uma vez, \"as fronteiras s\u00e3o porosas\", \"diz respeito a desvantagens e feridas ancestrais que continuam a afetar o desempenho individual\" e acredita que os povos ind\u00edgenas \"sofrem com os efeitos psicol\u00f3gicos e sociais do preconceito racial e da exclus\u00e3o repetidos de gera\u00e7\u00e3o em gera\u00e7\u00e3o\".<\/p>\n\n\n\n<p>A compreens\u00e3o de Lehmann sobre o papel da diferen\u00e7a \u00e9tnico-racial na gera\u00e7\u00e3o de desigualdades na Am\u00e9rica Latina parece ser limitada. N\u00e3o \u00e9 de surpreender, portanto, que ele discorde de propostas descolonizadoras e tenha uma compreens\u00e3o parcial da mobiliza\u00e7\u00e3o ind\u00edgena, j\u00e1 que elas se baseiam nessa desigualdade estrutural.<a class=\"anota\" id=\"anota4\" data-footnote=\"4\">4<\/a>  \u00c0s vezes, ele at\u00e9 cai na imagem estereotipada do ind\u00edgena que ele atribui tanto ao decolonial quanto ao ind\u00edgena: como, por exemplo, quando diz que os zapatistas \"eram \u00edndios, mas tinham vivido mais em um regime de servid\u00e3o do que em comunidades ind\u00edgenas estruturadas, e seus l\u00edderes estavam imersos na ret\u00f3rica da teologia da liberta\u00e7\u00e3o e do socialismo\". Conhecer a teologia da liberta\u00e7\u00e3o e o socialismo \"desindigeniza\", \"desetniciza\", deslegitima as reivindica\u00e7\u00f5es como \"ind\u00edgenas\"?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center cuadrado\">\u25a0<\/p>\n\n\n\n<p class=\"abstract\">Acredito que, para entender a mobiliza\u00e7\u00e3o ind\u00edgena na Am\u00e9rica Latina hoje e o que significa ser ind\u00edgena no s\u00e9culo XXI, \u00e9 importante entender o que significa ser ind\u00edgena. <span class=\"small-caps\">xxi<\/span> \u00e9 necess\u00e1ria uma abordagem diferente nessa regi\u00e3o. Uma abordagem baseada na economia pol\u00edtica, como prop\u00f5e Lehmann, mas que <em>de<\/em> ra\u00e7a e diferen\u00e7a \u00e9tnica, n\u00e3o <em>em vez de <\/em>Uma abordagem que, assim como a da raz\u00e3o colonial, coloca a desigualdade estrutural no centro, mas que - como Lehmann corretamente aponta - leva em conta as mudan\u00e7as introduzidas pela hist\u00f3ria nos povos ind\u00edgenas e nas pr\u00f3prias sociedades latino-americanas, tanto na diversidade interna quanto no surgimento e desenvolvimento de suas lutas. Essa \u00e9 uma tarefa muito ampla para este artigo, mas pode ser \u00fatil propor algumas ideias a esse respeito - novamente com o risco de cair em generaliza\u00e7\u00f5es e simplifica\u00e7\u00f5es - para entender melhor as se\u00e7\u00f5es a seguir.<\/p>\n\n\n\n<p>Poder\u00edamos come\u00e7ar considerando o fato de ser ind\u00edgena como uma condi\u00e7\u00e3o social - semelhante a ser mulher, campon\u00eas ou alem\u00e3o -, produto de um processo hist\u00f3rico espec\u00edfico, que implica uma posi\u00e7\u00e3o estereotipada - esperada - dentro da escala \u00e9tnico-racial predominante, o que geralmente implica rela\u00e7\u00f5es de subalternidade - e n\u00e3o de dicotomia - com as outras categorias dessa escala: brancos-crioulos, ladinos-mesti\u00e7os e outras que ocorrem localmente. Em outras palavras, os povos ind\u00edgenas s\u00e3o a manifesta\u00e7\u00e3o mais vis\u00edvel da constru\u00e7\u00e3o da domina\u00e7\u00e3o \u00e9tnico-racial em praticamente toda a Am\u00e9rica Latina, juntamente com os afro-americanos em alguns pa\u00edses e regi\u00f5es. <a class=\"anota\" id=\"anota5\" data-footnote=\"5\">5<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Ser ind\u00edgena hoje, portanto, est\u00e1 t\u00e3o relacionado a m\u00faltiplas desigualdades quanto \u00e0 especificidade cultural. \u00c9 uma categoria que foi criada para justificar a domina\u00e7\u00e3o e a exclus\u00e3o, construindo uma ideologia - o racismo - que culpa a cultura e a \"ra\u00e7a\" pela subalternidade daqueles que a sofrem (Bonfil, 1972; Quijano, 2000).<a class=\"anota\" id=\"anota6\" data-footnote=\"6\">6<\/a> Dessa forma, uma diferen\u00e7a cultural existente \u00e9 impactada pelas avalia\u00e7\u00f5es e pelo papel que lhe \u00e9 atribu\u00eddo nessa domina\u00e7\u00e3o: na evolu\u00e7\u00e3o das l\u00ednguas nativas nos \u00faltimos s\u00e9culos, n\u00e3o podemos ignorar sua estigmatiza\u00e7\u00e3o e sua fun\u00e7\u00e3o como marcador \u00e9tnico e os \"empr\u00e9stimos impostos\" pelos setores dominantes; mas tamb\u00e9m n\u00e3o podemos ignorar o valor que lhes \u00e9 atribu\u00eddo como s\u00edmbolo de especificidade e resist\u00eancia. N\u00e3o podemos negar suas cont\u00ednuas mudan\u00e7as, pois os elementos culturais e raciais considerados \"ind\u00edgenas\" e as justificativas ideol\u00f3gicas que os acompanham mudam, sem deixar de ser \"pr\u00f3prios\", mesmo que n\u00e3o sejam \"puros\".<\/p>\n\n\n\n<p>Neste s\u00e9culo <span class=\"small-caps\">xxi<\/span>Os significados e as consequ\u00eancias de ser considerado ind\u00edgena s\u00e3o o produto de uma longa hist\u00f3ria que vem mudando e acumulando efeitos. A forma\u00e7\u00e3o de um regime colonial baseado, entre outras coisas, na racializa\u00e7\u00e3o das estruturas e rela\u00e7\u00f5es sociais foi fundamental para esse processo, mas n\u00e3o \u00e9 o \u00fanico momento, nem a colonialidade explica tudo o que aconteceu at\u00e9 hoje. Por exemplo, a dicotomia \u00e9tnica baseada nas categorias de \"ind\u00edgena\" e \"ladino\", que ainda rege muitas das rela\u00e7\u00f5es na Guatemala - e a mesma figura aglutinadora do ladino, diferente do mesti\u00e7o mexicano - tem uma historicidade espec\u00edfica: surgiu no final do s\u00e9culo XX. <span class=\"small-caps\">xix<\/span> O novo modelo econ\u00f4mico est\u00e1 associado a reformas liberais e \u00e0 economia agroexportadora do caf\u00e9 (Taracena, 1997, 2004; Smith, 1990); est\u00e1 associado a esse per\u00edodo espec\u00edfico da hist\u00f3ria da Guatemala que dura mais ou menos os pr\u00f3ximos cem anos. Portanto, agora que o modelo econ\u00f4mico est\u00e1 mudando, o mesmo acontece com as categorias e a estrutura ideol\u00f3gica que as sustentam (Bastos, 2007). <a class=\"anota\" id=\"anota7\" data-footnote=\"7\">7<\/a> <\/p>\n\n\n\n<p>Os povos ind\u00edgenas t\u00eam sido parte integrante, muitas vezes fundamental, das sociedades criadas desde os tempos coloniais e que se tornaram complexas \u00e0 medida que foram atravessadas por diferentes dimens\u00f5es de diferencia\u00e7\u00e3o e hierarquia: g\u00eanero, classe, gera\u00e7\u00e3o, rural-urbano, al\u00e9m da categoria \u00e9tnico-racial. As sociedades dos <span class=\"small-caps\">xxi<\/span> s\u00e3o essencialmente complexos, de modo que a condi\u00e7\u00e3o \u00e9tnico-racial n\u00e3o \u00e9 a \u00fanica que marca a experi\u00eancia dos povos ind\u00edgenas: s\u00e3o homens, mulheres, camponeses, pedreiros ou profissionais, que vivem em aldeias, vilas, cidades ou em outros pa\u00edses. S\u00e3o, ainda que sempre em termos deficientes, homens e mulheres guatemaltecos, homens e mulheres mexicanos (na constru\u00e7\u00e3o dessas identidades nacionais temos outra hist\u00f3ria com desenvolvimentos muito diferentes entre os dois pa\u00edses).<\/p>\n\n\n\n<p>Portanto, devemos reconhecer a import\u00e2ncia da divis\u00e3o \u00e9tnico-racial na maioria das sociedades latino-americanas, mas n\u00e3o \u00e9 \u00fatil fazer isso entendendo os povos ind\u00edgenas como coletivos aut\u00f4nomos e autoexcludentes, separados das sociedades das quais fazem parte. Essas vis\u00f5es dicot\u00f4micas que negam essas realidades tang\u00edveis resultam em diagn\u00f3sticos simplificados de realidades sociais e pol\u00edticas complexas.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Mobiliza\u00e7\u00e3o ind\u00edgena e descoloniza\u00e7\u00e3o (e democracia)<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"abstract\">Em seu texto, Lehmann argumenta que a mobiliza\u00e7\u00e3o ind\u00edgena n\u00e3o tem objetivos \"universalizantes\" porque \u00e9 basicamente \"indigenoc\u00eantrica\", atribuindo essa vis\u00e3o aos postulados decoloniais - como se fossem a \u00fanica fonte do pensamento ind\u00edgena - e prop\u00f5e que, apesar disso, seus efeitos s\u00e3o democratizantes para a sociedade como um todo. Acho que a quest\u00e3o \u00e9 mais complexa: a mobiliza\u00e7\u00e3o vem mudando e \u00e9 muito diversificada, assim como sua rela\u00e7\u00e3o com a estrutura colonial.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center cuadrado\">\u25a0<\/p>\n\n\n\n<p class=\"abstract\">Nas \u00faltimas cinco ou seis d\u00e9cadas, as mobiliza\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas passaram por v\u00e1rias fases, com ritmos espec\u00edficos para cada pa\u00eds, de acordo com os contextos nacionais. Em geral, podemos dizer que elas come\u00e7aram ligadas a atores como a Igreja Cat\u00f3lica, movimentos camponeses, partidos de esquerda e movimentos revolucion\u00e1rios. Houve processos de identifica\u00e7\u00e3o como ind\u00edgenas e, na d\u00e9cada de 1980, j\u00e1 havia din\u00e2micas de auto-organiza\u00e7\u00e3o e etniza\u00e7\u00e3o de estruturas interpretativas: demandas culturais contra a discrimina\u00e7\u00e3o e alguns elementos de autodetermina\u00e7\u00e3o que estavam sendo elaborados por intelectuais ind\u00edgenas nascentes come\u00e7aram a entrar nos discursos da teologia camponesa e da liberta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Na d\u00e9cada de 1990, quando o desmembramento da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica precipitou o fim do socialismo real e o neoliberalismo se imp\u00f4s, os povos ind\u00edgenas eram atores locais que buscavam ser levados em conta como tais e demonstraram sua for\u00e7a e capacidade pol\u00edtica em a\u00e7\u00f5es como a marcha para Quito em 1991, o levante zapatista em 1994 e o movimento maia na Guatemala. Os governos reagiram com a onda do \"constitucionalismo multicultural\" (Van Cott, 1995; Sieder, 2002), que implicou o reconhecimento formal da exist\u00eancia dos povos ind\u00edgenas e a implementa\u00e7\u00e3o de algumas pol\u00edticas multiculturais, sempre limitadas e politicamente cosm\u00e9ticas.<\/p>\n\n\n\n<p>Um exemplo seriam as pol\u00edticas de cotas mencionadas por Lehmann que, segundo ele, n\u00e3o funcionam \"a longo prazo\" devido ao alto n\u00famero de \"fraudes\" de identidade que elas acarretam. Novamente, acho que a quest\u00e3o \u00e9 mais complexa. Sem entrar em debates mais espec\u00edficos dessa pol\u00edtica em particular, h\u00e1, por um lado, o que Stavenhagen (2007) chamou elegantemente de \"lacuna de implementa\u00e7\u00e3o\" para falar da n\u00e3o aplica\u00e7\u00e3o dos direitos declarados e das pol\u00edticas estabelecidas; por outro lado, mesmo que sejam cumpridas, s\u00e3o a\u00e7\u00f5es que atacam os efeitos e n\u00e3o as causas - como as cotas -: n\u00e3o buscam tocar na constru\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica nem resolver as causas estruturais dessa desigualdade. No entanto, s\u00e3o utilizadas pelos atores ind\u00edgenas para se fortalecerem e desenvolverem sua legitimidade como povos que, al\u00e9m do reconhecimento de sua diferen\u00e7a cultural, buscam a autodetermina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Com a virada do s\u00e9culo, a <em>realpolitik<\/em> do capitalismo neoliberal foi imposta na Am\u00e9rica Latina na forma de regimes extrativistas (Svampa, 2019) que surgiram da reprimariza\u00e7\u00e3o das economias. Essas pol\u00edticas tiveram um grande impacto nas economias populares, incluindo as das comunidades ind\u00edgenas. Nesse contexto, devido ao processo de consolida\u00e7\u00e3o e \u00e0 pr\u00f3pria desarticula\u00e7\u00e3o de outras formas e atores baseados em classe - como sindicatos e organiza\u00e7\u00f5es camponesas - as organiza\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas se tornaram os principais atores da mobiliza\u00e7\u00e3o antineoliberal dentro da chamada \"virada eco-territorial\" (Svampa, 2019).<\/p>\n\n\n\n<p>A partir dessas posi\u00e7\u00f5es, em alguns pa\u00edses, eles formam verdadeiras coaliz\u00f5es sociais que alcan\u00e7am triunfos eleitorais, enquanto outros se concentram em seus territ\u00f3rios diante do abandono do di\u00e1logo com esses Estados, e outros desenvolvem ambos ao mesmo tempo. A partir de ambas as posi\u00e7\u00f5es, aprofunda-se a \"busca do pr\u00f3prio\", a reconstitui\u00e7\u00e3o como povos e a cria\u00e7\u00e3o-recupera\u00e7\u00e3o de um modo de pensar ind\u00edgena (Burguete, 2010). Express\u00f5es como \"Abya Yala\" ou \"el Buen Vivir\" mostram a capacidade de gerar propostas a partir desse pensamento pr\u00f3prio, que s\u00e3o alimentadas pelas lutas e discursos aliados e se tornam eixos de a\u00e7\u00e3o e elabora\u00e7\u00f5es al\u00e9m da mobiliza\u00e7\u00e3o ind\u00edgena.<\/p>\n\n\n\n<p>Isso significa que as mobiliza\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas desses anos mudaram seu foco e que os direitos culturais se tornaram a \"defesa do territ\u00f3rio amea\u00e7ado\", compartilhando a luta com atores ambientais, antineoliberais e feministas. Generaliza-se um discurso anticapitalista, que n\u00e3o se refere ao conte\u00fado de classe, mas se concentra na capacidade predat\u00f3ria desse sistema. Al\u00e9m disso, como rea\u00e7\u00e3o \u00e0 proposta multicultural, est\u00e3o sendo consolidadas propostas plurinacionais que se aprofundam na autodetermina\u00e7\u00e3o e questionam mais profundamente os Estados latino-americanos em sua dimens\u00e3o colonial.<\/p>\n\n\n\n<p>Portanto, para esta terceira d\u00e9cada do s\u00e9culo <span class=\"small-caps\">xxi<\/span> As lutas ind\u00edgenas mudaram muito. O que na d\u00e9cada de 1970 eram ideias de alguns intelectuais, na d\u00e9cada de 1990 foram ado\u00e7adas, mas tamb\u00e9m disseminadas com o apoio dos Estados, e no novo s\u00e9culo foram uma das bases dos protestos antineoliberais. Eles n\u00e3o se assemelham aos atores que exigiram pol\u00edticas de reconhecimento cultural na d\u00e9cada de 1990, pois suas demandas s\u00e3o mais amplas e n\u00e3o s\u00e3o \"alguns poucos\" - como diz Lehmann - que t\u00eam reivindica\u00e7\u00f5es territoriais.<\/p>\n\n\n\n<p>Da mesma forma, a atitude em rela\u00e7\u00e3o aos governos \u00e9 muito ampla: desde aqueles que fazem parte de frentes amplas com uma base mais ou menos ind\u00edgena at\u00e9 aqueles que se op\u00f5em frontalmente aos regimes cada vez mais autorit\u00e1rios. Mas o importante \u00e9 que as demandas e propostas ind\u00edgenas para a compreens\u00e3o dessas sociedades est\u00e3o se consolidando al\u00e9m delas mesmas. Assim, em 2006, a f\u00f3rmula plurinacional foi a mais votada na heterog\u00eanea Bol\u00edvia; ou na Guatemala, desde 2012, a proposta de um Estado plurinacional tem sido cada vez mais aceita entre a popula\u00e7\u00e3o ind\u00edgena e fora dela como uma sa\u00edda para a crise na qual essa sociedade est\u00e1 imersa. <a class=\"anota\" id=\"anota8\" data-footnote=\"8\">8<\/a> <\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center cuadrado\">\u25a0<\/p>\n\n\n\n<p class=\"abstract\">Um dos elementos unificadores dessa mobiliza\u00e7\u00e3o em que estamos imersos tem sido a constru\u00e7\u00e3o da luta, das demandas e dos direitos a partir da ideia de \"povos\": que os povos ind\u00edgenas formam uma s\u00e9rie de coletivos com uma hist\u00f3ria e uma cultura comuns que lhes d\u00e3o o direito \u00e0 autodetermina\u00e7\u00e3o, a decidir sobre suas vidas e seu futuro como tais coletivos. Essa figura foi se enchendo de conte\u00fado \u00e0 medida que a mobiliza\u00e7\u00e3o avan\u00e7ava, com \u00eanfases diferentes dependendo do pa\u00eds: se na d\u00e9cada de 1970 era uma refer\u00eancia proveniente das descoloniza\u00e7\u00f5es da \u00c1sia e da \u00c1frica, avan\u00e7ou para um conte\u00fado claramente nacional que desafia os Estados nacionais latino-americanos a partir de dentro, sempre a partir de uma polissemia que \u00e9 muito \u00fatil para conseguir esfor\u00e7os conjuntos.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim, atualmente, \"pessoas\" \u00e9 um conceito multivalente com diversos referentes. Por um lado, ele \u00e9 entendido como <em>sujeito coletivo de direitos<\/em> constitucional e internacional, como a Conven\u00e7\u00e3o 169 da Organiza\u00e7\u00e3o Internacional do Trabalho (OIT).<span class=\"small-caps\">ilo)<\/span> e a Declara\u00e7\u00e3o Universal da ONU sobre os Direitos dos Povos Ind\u00edgenas. Embora dificilmente tenham sido implementadas pelos governos, elas s\u00e3o um instrumento importante para a defesa de direitos e reivindica\u00e7\u00f5es de autodetermina\u00e7\u00e3o, como o uso do direito \u00e0 consulta livre, pr\u00e9via e informada (<span class=\"small-caps\">clpi<\/span>) em diversas disputas na regi\u00e3o (Sieder, Montoya e Bravo-Espinosa, 2022).<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m disso, como j\u00e1 mencionei, h\u00e1 um significado de <em>pessoas como uma na\u00e7\u00e3o<\/em>S\u00e3o quase sin\u00f4nimos: ambos falam de um coletivo unificado pela hist\u00f3ria, identidade e cultura que reivindica algum grau de soberania pol\u00edtica. A pr\u00f3pria constru\u00e7\u00e3o das ideias de povos ind\u00edgenas no contexto multicultural foi baseada no nacional (Bastos, 1998) e foi explicitada - em alguns pa\u00edses mais do que em outros - nas propostas de recupera\u00e7\u00e3o de um passado autodeterminado nos processos de reconstitui\u00e7\u00e3o (Bastos, 2022). O que \u00e9 espec\u00edfico a essas constru\u00e7\u00f5es como na\u00e7\u00f5es \u00e9 que elas n\u00e3o reivindicam - por enquanto - uma soberania do tipo estatal, mas sim uma \"autonomia\" dentro dos Estados (Gros, 1999; Santos, 2010), seja por meio dos Estados plurinacionais mencionados acima ou por meio de comunidades que buscam autonomia. <a class=\"anota\" id=\"anota9\" data-footnote=\"9\">9<\/a> <\/p>\n\n\n\n<p>Por fim, a ideia de povos ind\u00edgenas tem uma clara <em>componente de descoloniza\u00e7\u00e3o<\/em>Isso d\u00e1 uma nuance especial \u00e0 ideia nacional, uma vez que, al\u00e9m da autodetermina\u00e7\u00e3o, o objetivo \u00e9 reverter a situa\u00e7\u00e3o colonial em que eles se consideram. Essa situa\u00e7\u00e3o implicou a nega\u00e7\u00e3o de seu conhecimento e de sua pr\u00f3pria exist\u00eancia, que s\u00f3 foram mantidos - argumentam - por sua atitude de resist\u00eancia hist\u00f3rica. Ao opor seu pr\u00f3prio conhecimento \u00e0quele imposto pela rela\u00e7\u00e3o colonial, a diferen\u00e7a \u00e9 refor\u00e7ada por meio de elementos considerados ancestrais e ontologicamente diferenciados dos do Ocidente.<\/p>\n\n\n\n<p>Tudo isso leva \u00e0 proposi\u00e7\u00e3o de que a constitui\u00e7\u00e3o dos povos ind\u00edgenas como sujeitos pol\u00edticos est\u00e1 sendo feita com base em sua reconstitui\u00e7\u00e3o, a <em>recrea\u00e7\u00e3o<\/em> dos elementos pr\u00e9-conquista, que supostamente os definiam, a partir dos c\u00f3digos e necessidades atuais. Dessa forma, amplio a proposta de Araceli Burguete (2010) - que a considera uma fase do processo de afirma\u00e7\u00e3o pol\u00edtica - para uma forma de entender todo o processo de recupera\u00e7\u00e3o e consolida\u00e7\u00e3o cultural como um tema pol\u00edtico e a complexifica\u00e7\u00e3o do discurso que vem ocorrendo desde a d\u00e9cada de 1970 (Bastos, 2022).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center cuadrado\">\u25a0<\/p>\n\n\n\n<p class=\"abstract\">Assim, a constru\u00e7\u00e3o de propostas descolonizadoras no campo acad\u00eamico e a constitui\u00e7\u00e3o dos povos ind\u00edgenas como sujeitos pol\u00edticos t\u00eam se desenvolvido paralelamente e, especialmente desde o in\u00edcio deste s\u00e9culo, t\u00eam se nutrido mutuamente. Dessa forma, as propostas da estrutura colonial aparecem no discurso e na pr\u00e1tica da mobiliza\u00e7\u00e3o ind\u00edgena de v\u00e1rias formas.<\/p>\n\n\n\n<p>Para come\u00e7ar, a pr\u00f3pria abordagem de uma situa\u00e7\u00e3o colonial ainda em vigor refor\u00e7a a necessidade de fechar o ciclo que come\u00e7ou quando os europeus interromperam seu desenvolvimento como povos aut\u00f4nomos e autossuficientes e continuou nas rep\u00fablicas na forma de racismo renovado. Agora \u00e9 preciso encerrar esse ciclo com a conquista da autodetermina\u00e7\u00e3o. Nas vers\u00f5es simplificadas da hist\u00f3ria e da geopol\u00edtica, a proposi\u00e7\u00e3o de um \"Ocidente\" tamb\u00e9m \u00e9 considerada a causa geral n\u00e3o apenas da opress\u00e3o, da explora\u00e7\u00e3o e da nega\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m a fonte dos males - machismo, alcoolismo - que afligem as sociedades ind\u00edgenas.<\/p>\n\n\n\n<p>As abordagens de descoloniza\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m refor\u00e7am a ideia de conhecimento ind\u00edgena que vai al\u00e9m dos elementos \"culturais\" atribu\u00eddos pela antropologia tradicional e molda uma forma ind\u00edgena de conceber o mundo que \u00e9 radicalmente diferente da forma colonial dominante, que foi silenciada e agora deve ser recuperada, descolonizada e limpa de elementos impostos. Dessa forma, o \"pr\u00f3prio\" \u00e9 concebido a partir de uma diferencia\u00e7\u00e3o ontol\u00f3gica com o conhecimento ocidental, e a \"liberta\u00e7\u00e3o dos ind\u00edgenas\" - como se dizia na d\u00e9cada de 1970 - ou autodetermina\u00e7\u00e3o - em termos mais atuais - n\u00e3o implica apenas a necessidade de se libertarem das estruturas pol\u00edticas e sociais que oprimem, mas tamb\u00e9m das estruturas ideol\u00f3gicas e mentais constru\u00eddas para neg\u00e1-los como sujeitos.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim, algumas das abordagens que s\u00e3o compartilhadas com os desenvolvimentos da estrutura colonial servem aos atores ind\u00edgenas para seu refor\u00e7o interno como um sujeito pol\u00edtico com for\u00e7a e raz\u00e3o de ser. E o fazem naqueles aspectos em que a hist\u00f3ria \u00e9 simplificada e a diversidade, os sincretismos e muitos elementos presentes na vida cotidiana desaparecem, como Lehmann corretamente aponta. E o fazem naqueles aspectos em que a hist\u00f3ria \u00e9 simplificada e a diversidade, os sincretismos e muitos elementos presentes na vida cotidiana dos povos ind\u00edgenas desaparecem, como bem aponta Lehmann. Em uma clara opera\u00e7\u00e3o de essencialismo estrat\u00e9gico (Spivak, 2003), que \u00e0s vezes se torna ontol\u00f3gico, serve para refor\u00e7ar identidades que s\u00e3o sempre desvalorizadas e para destacar o que \u00e9 \u00fanico, mas tamb\u00e9m para gerar barreiras, listas de requisitos, c\u00f3digos de conduta e \"par\u00e2metros de maio\" para medir a pureza das propostas, como sugere Mar\u00eda Jacinta X\u00f3n Riquiac (2022) para a Guatemala.<\/p>\n\n\n\n<p>O que \u00e9 perigoso nessas ideias \u00e9 que elas acabam nos levando a ver as sociedades como formadas por esses coletivos autoexcludentes, como bolas de bilhar - como disse Wolf (citado em Carrithers, 1995: 47) - cuja \u00fanica rela\u00e7\u00e3o poss\u00edvel \u00e9 o choque entre elas. Essa maneira de entender as sociedades como formadas por n\u00facleos definidos por seus conhecimentos e culturas autorreferenciados remete, por fim, \u00e0 tr\u00edade de Johann G. Herder: espa\u00e7o-cultura-comunidade, na qual cada territ\u00f3rio corresponde a um coletivo definido por uma cultura. <a class=\"anota\" id=\"anota10\" data-footnote=\"10\">10<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Esses aspectos, que est\u00e3o na base do nacionalismo, tamb\u00e9m acabam sendo a base dos estudos coloniais e das propostas ind\u00edgenas que simplificam o pertencimento e o conhecimento com base na raz\u00e3o colonial. Eles n\u00e3o nos permitem levar em conta a complexidade que existe dentro e entre esses coletivos, que s\u00e3o moldados pelo \u00e9tnico-racial como uma das dimens\u00f5es da vida social. Mas nessa sociabilidade h\u00e1 outras dimens\u00f5es por meio das quais todos os tipos de rela\u00e7\u00f5es ocorreram. A forma\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica de coletivos etnicamente marcados, os \"povos\", tem se baseado em uma troca - desigual, hier\u00e1rquica, baseada na domina\u00e7\u00e3o - que tem sido parte das transforma\u00e7\u00f5es que ocorreram \u00e0 medida que as pr\u00f3prias sociedades mudaram. Essa rela\u00e7\u00e3o entre territ\u00f3rio, cultura e coletivo est\u00e1 longe de ser un\u00edvoca.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center cuadrado\">\u25a0<\/p>\n\n\n\n<p class=\"abstract\">Essa reconstitui\u00e7\u00e3o \u00e9 uma das facetas da mobiliza\u00e7\u00e3o ind\u00edgena, um elemento fundamental de sua a\u00e7\u00e3o interna, do fortalecimento dos atores e de sua consolida\u00e7\u00e3o como sujeitos pol\u00edticos. Eu a destaquei porque ela tem v\u00ednculos claros com os argumentos da descoloniza\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o \u00e9 a \u00fanica a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica dos povos ind\u00edgenas, portanto, aqui eu gostaria de contra-argumentar algumas das afirma\u00e7\u00f5es de Lehmann que me parecem importantes pelo que implicam.<\/p>\n\n\n\n<p>Em primeiro lugar, fiquei muito intrigado com a afirma\u00e7\u00e3o \"por mais descoloniais e antiocidentais que afirmem ser [...] isso se torna uma for\u00e7a democratizante\". Sem entrar em um debate sobre o que queremos dizer com \"democracia\", n\u00e3o acho que haja motivo para duvidar das credenciais democr\u00e1ticas daqueles que afirmam ser descolonizadores ou povos ind\u00edgenas. <a class=\"anota\" id=\"anota11\" data-footnote=\"11\">11<\/a> A descoloniza\u00e7\u00e3o \u00e9 democratizante, pois busca desmantelar as estruturas de poder. Ela se concentra quase que exclusivamente na racialidade e na colonialidade, mas a partir de uma vis\u00e3o da racialidade e da colonialidade que transcende o ind\u00edgena e v\u00ea toda a sociedade latino-americana como fundada inteiramente nesses princ\u00edpios. As propostas ind\u00edgenas refor\u00e7am a democracia n\u00e3o apenas exigindo tratamento igualit\u00e1rio e, portanto, a aplica\u00e7\u00e3o da legalidade, mas tamb\u00e9m buscando direitos al\u00e9m dos estabelecidos e op\u00e7\u00f5es de participa\u00e7\u00e3o que expandem as pr\u00f3prias formas democr\u00e1ticas existentes atualmente.<\/p>\n\n\n\n<p>A vis\u00e3o descolonizadora \u00e9 uma estrutura que permitiu que os atores ind\u00edgenas atuassem em conjunto com muitos outros. Os povos ind\u00edgenas trouxeram muito de seu conhecimento para as a\u00e7\u00f5es e propostas ambientais, e muitas mulheres ind\u00edgenas est\u00e3o enriquecendo as demandas antipatriarcais e vice-versa. Ao fazer parte de for\u00e7as que, de uma forma ou de outra, levantam a necessidade de descoloniza\u00e7\u00e3o, os atores ind\u00edgenas v\u00e3o al\u00e9m de suas demandas e buscam uma transforma\u00e7\u00e3o da sociedade em suas pr\u00f3prias a\u00e7\u00f5es e em conjunto com outros atores.<\/p>\n\n\n\n<p>Portanto, quando essas posi\u00e7\u00f5es anticoloniais que afetam toda a sociedade s\u00e3o assumidas e os povos ind\u00edgenas apresentam propostas para toda a sociedade, considero que o debate entre direitos universais e direitos espec\u00edficos foi superado e, com ele, as distin\u00e7\u00f5es que Lehmann faz entre \"universalismo\" e \"indigenocentrismo\". Esse debate teve seu auge quando se tentou adaptar as propostas de Charles Taylor (1993) e Will Kymlicka (1996) \u00e0 realidade latino-americana, em um momento em que os atores ind\u00edgenas buscavam de alguma forma \"arrancar\" seus direitos de Estados relutantes e consideravam \u00fateis as justificativas desses pensadores sobre a necessidade de ampliar o conceito de direitos para al\u00e9m do \"universalismo\".<\/p>\n\n\n\n<p>Mas, no momento, acredito que o debate \u00e9 diferente e s\u00e3o os outros setores que contam com as propostas feitas pelos ind\u00edgenas para toda a sociedade. A convoca\u00e7\u00e3o na Guatemala de uma Assembleia Popular Constituinte Plurinacional, proposta pelo Movimento Popular de Liberta\u00e7\u00e3o a partir dos \"povos\" e n\u00e3o dos \"ind\u00edgenas\", parece-me um bom exemplo: a proposta plurinacional \u00e9 assumida por diversos setores, al\u00e9m dos ind\u00edgenas, como uma sa\u00edda para uma situa\u00e7\u00e3o de crise causada por uma elite crioula que busca manter privil\u00e9gios com base em formas autorit\u00e1rias. A raz\u00e3o colonial \u00e9 uma estrutura que d\u00e1 sentido a essa situa\u00e7\u00e3o que afeta a sociedade como um todo e a partir da qual s\u00e3o propostas solu\u00e7\u00f5es como a plurinacionalidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Por outro lado, como expliquei no in\u00edcio deste texto, os povos ind\u00edgenas s\u00e3o sujeitos que fazem parte de suas sociedades e o fazem a partir de m\u00faltiplas dimens\u00f5es dessa vida social, n\u00e3o apenas a \u00e9tnico-racial. Eles podem atuar a partir de uma perspectiva de g\u00eanero como mulheres, de uma perspectiva de classe como camponeses, de uma perspectiva sexual como homossexuais ou de uma perspectiva religiosa como evang\u00e9licos. Quando atuam na pol\u00edtica como tal, os atores ind\u00edgenas se envolvem porque fazem parte dela e buscam mud\u00e1-la; eles se envolvem nas demandas dos camponeses porque tamb\u00e9m s\u00e3o camponeses e apoiam as demandas das mulheres porque s\u00e3o mulheres.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim, quando os atores ind\u00edgenas buscam ou alcan\u00e7am mudan\u00e7as n\u00e3o relacionadas \u00e0 sua autodetermina\u00e7\u00e3o, n\u00e3o estamos lidando com \"efeitos colaterais\", como Lehmann parece sugerir. Por essa raz\u00e3o, eles n\u00e3o apenas lutam por seus pr\u00f3prios direitos, mas tamb\u00e9m pelos direitos coletivos gerais de que tamb\u00e9m precisam por fazerem parte dessas sociedades: \"H\u00e1, portanto, uma complementaridade entre essas duas esferas que n\u00e3o \u00e9 isenta de conflito, o que mostraria a concep\u00e7\u00e3o desses sujeitos tanto como coletivos de direito pr\u00f3prio, com uma hist\u00f3ria milenar, mas tamb\u00e9m como pertencentes aos coletivos nacionais que a hist\u00f3ria colonial lhes imp\u00f4s\" (Bastos, 2022: 26).<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Conclus\u00f5es: Rumo \u00e0 descoloniza\u00e7\u00e3o?<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"abstract\">Acredito que, para entender os fen\u00f4menos que Lehmann analisa e discute em seu texto, \u00e9 \u00fatil partir da premissa de que tanto a mobiliza\u00e7\u00e3o ind\u00edgena na Am\u00e9rica Latina por reconhecimento e autodetermina\u00e7\u00e3o quanto a proposta descolonial fazem parte de um processo mais amplo: o questionamento da modernidade ocidental que vem ocorrendo h\u00e1 pelo menos cinquenta anos em v\u00e1rios campos: cultural, pol\u00edtico, acad\u00eamico, e que inclui o ambientalismo, o feminismo e a alterglobaliza\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m o p\u00f3s-modernismo, as religiosidades etc. <em>nova era<\/em> ou turistas em busca de \"culturas puras\". Esse questionamento se fortaleceu \u00e0 medida que o capitalismo avan\u00e7ou para formas cada vez mais excludentes e predat\u00f3rias, colocando o planeta em uma situa\u00e7\u00e3o de crise irrevers\u00edvel e, ao mesmo tempo, mercantilizando praticamente todos os aspectos da vida social, inclusive os pol\u00edticos. Nesse processo, as mulheres e os povos ind\u00edgenas s\u00e3o possivelmente os sujeitos pol\u00edticos mais ativos que, ao se defenderem das agress\u00f5es socialmente normalizadas, questionam os pr\u00f3prios fundamentos da modernidade que os reduziu a atores sem direitos.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim, estamos testemunhando uma mudan\u00e7a de paradigma na luta contra-hegem\u00f4nica em geral, que prop\u00f5e novas formas de entender as rela\u00e7\u00f5es sociais e os processos hist\u00f3ricos para acabar com as formas de opress\u00e3o herdadas de uma hist\u00f3ria marcada pela raz\u00e3o colonial (Pineda, 2023).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center cuadrado\">\u25a0<\/p>\n\n\n\n<p class=\"abstract\">Nesse sentido, a descoloniza\u00e7\u00e3o de nossas sociedades e de nosso pensamento \u00e9 uma proposta que pode ter efeitos muito profundos em termos de desmantelamento das estruturas de poder nas quais tanto as sociedades quanto as mentalidades est\u00e3o organizadas. Despojada da arrog\u00e2ncia daqueles que se consideram ap\u00f3stolos de uma \u00fanica verdade, a vontade perscrutadora e desconstrutiva do <em>ethos<\/em> A descoloniza\u00e7\u00e3o \u00e9 um elemento que ajuda a desmantelar as suposi\u00e7\u00f5es e os mecanismos nos quais essa fase do capitalismo \u00e9 organizada.<\/p>\n\n\n\n<p>As propostas de descoloniza\u00e7\u00e3o buscam dissolver as estruturas de poder que existem em nossas sociedades, organizadas por meio da ra\u00e7a e de outros mecanismos da matriz colonial de poder. Se a \u00eanfase for colocada nesses <em>causas<\/em>Em outras palavras, nas rela\u00e7\u00f5es de poder, \u00e9 poss\u00edvel gerar propostas para sociedades mais horizontais, nas quais a etnia n\u00e3o seria a base das rela\u00e7\u00f5es sociais hier\u00e1rquicas, mas apenas outra dimens\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, os sujeitos que se consideram atores dessa transforma\u00e7\u00e3o, os povos ind\u00edgenas, al\u00e9m de muitas outras a\u00e7\u00f5es, est\u00e3o refor\u00e7ando sua alteridade de uma forma que, a meu ver, pode ser perigosa: por um lado, o questionamento dos Estados-na\u00e7\u00e3o com base em propostas plurinacionais n\u00e3o se op\u00f5e, mas refor\u00e7a a figura da \"na\u00e7\u00e3o\", quando a na\u00e7\u00e3o \u00e9 um dos pilares da ordem pol\u00edtica e identit\u00e1ria dessa modernidade ocidental que est\u00e1 sendo questionada. Nessa fase do capitalismo supostamente global, em que a \"na\u00e7\u00e3o\" est\u00e1 ressurgindo em formas cada vez mais supremacistas e excludentes, at\u00e9 que ponto a na\u00e7\u00e3o pode ser um ve\u00edculo de liberta\u00e7\u00e3o?<\/p>\n\n\n\n<p>Por outro lado, esses povos-na\u00e7\u00e3o implicam a consolida\u00e7\u00e3o das categorias de alteridade criadas para a domina\u00e7\u00e3o colonial. Nesse sentido, basear a a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica nelas, em vez de question\u00e1-las, tamb\u00e9m pode implicar a consolida\u00e7\u00e3o da ordem colonial que as criou, ao atribuir aos crit\u00e9rios \u00e9tnico-raciais o papel de governar a organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e as rela\u00e7\u00f5es sociais, como argumentou An\u00edbal Quijano (2000). Por mais que se busque des-hierarquizar essas rela\u00e7\u00f5es, no final o que se faz \u00e9 gerar micro-sociedades baseadas em identidades criadas para a domina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa quest\u00e3o foi levantada por John e Jean Comaroff h\u00e1 algum tempo, quando eles alertaram que \"a etnia se torna um fator de amadurecimento em uma ordem capitalista colonial e p\u00f3s-colonial caracterizada por assimetrias marcantes\" (2006 [1992]: 130). Enquanto se pensar que as categorias \u00e9tnico-raciais governam as rela\u00e7\u00f5es sociais e se buscar uma solu\u00e7\u00e3o para a hierarquiza\u00e7\u00e3o social sem questionar essa ordem social, n\u00e3o estaremos dissolvendo a ideologia, mas sim tentando transformar a sociedade a partir das mesmas regras criadas pela colonialidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Por essa raz\u00e3o, precisamos estar atentos, pois essa mudan\u00e7a de paradigma - que est\u00e1 claramente em andamento - pode permitir avan\u00e7os na supera\u00e7\u00e3o dessa modernidade, mas tamb\u00e9m pode ser absorvida pelo capital e acabar tendo resultados diferentes dos previstos, como aconteceu com a democracia. N\u00e3o estou dizendo que isso tenha que acontecer, mas essa mudan\u00e7a pode n\u00e3o ser libertadora para as pessoas e pode acabar sendo parte do amadurecimento de um capitalismo devorador que agora est\u00e1 fagocitando a diversidade que tentou negar por tanto tempo.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Bibliografia<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"bibliography\" data-no-auto-translation=\"\">Baitenmann, Helga (2007). \u201cReforma agraria y ciudadan\u00eda en el M\u00e9xico del siglo xx\u201d, en Francisco Javier G\u00f3mez (ed.). <em>Paisajes mexicanos de la reforma agraria: homenaje a William Roseberry<\/em>. M\u00e9xico: El Colegio de Michoac\u00e1n\/Benem\u00e9rita Universidad Aut\u00f3noma de Puebla.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"bibliography\" data-no-auto-translation=\"\">Bastos, Santiago (1998). \u201cLos indios, la naci\u00f3n y el nacionalismo\u201d, <em>Espiral. Estudios sobre Estado y Sociedad<\/em>, vol. <span class=\"small-caps\">ii<\/span>, n\u00fam. 6, Guadalajara: Universidad de Guadalajara, pp. 161-206.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"bibliography\" data-no-auto-translation=\"\">\u2014 (2007). \u201cLa ideolog\u00eda multicultural en la sociedad guatemalteca del cambio de siglo\u201d, en Santiago Bastos y Aura Cumes (coords.). <em>Mayanizaci\u00f3n y vida cotidiana. La ideolog\u00eda multicultural en la sociedad guatemalteca<\/em>, vol. 1: <em>Introducci\u00f3n y an\u00e1lisis generales<\/em>. Guatemala: <span class=\"small-caps\">flacso<\/span> Guatemala\/<span class=\"small-caps\">cirma<\/span>\/Cholsamaj.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"bibliography\" data-no-auto-translation=\"\">\u2014 (2010). \u201cLa pol\u00edtica maya en la Guatemala post conflicto\u201c, en Santiago Bastos y Roddy Brett (comps.).<em> El movimiento maya en la d\u00e9cada despu\u00e9s de la paz<\/em>, <em>1997-2007<\/em>. Guatemala: FyG Editores.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"bibliography\" data-no-auto-translation=\"\">\u2014 (2019). \u201cIntroducci\u00f3n. Desigualdad y diferencia en el neoliberalismo global: la etnicidad recreada\u201d, en Santiago Bastos Amigo (coord.). <em>La etnicidad recreada: desigualdad, diferencia y movilidad en la Am\u00e9rica Latina global<\/em>. M\u00e9xico: Publicaciones de la Casa Chata, <span class=\"small-caps\">ciesas<\/span>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"bibliography\" data-no-auto-translation=\"\">\u2014 (2021). <em>Mezcala, comunidad coca. Rearticulaci\u00f3n comunitaria y recreaci\u00f3n \u00e9tnica ante el despojo<\/em>. M\u00e9xico: Publicaciones de la Casa Chata, <span class=\"small-caps\">ciesas<\/span>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"bibliography\" data-no-auto-translation=\"\">\u2014 (2022). \u201cEl Gobierno Ancestral Plurinacional Q\u2019anjob\u2019al en Guatemala: Reconstituci\u00f3n de pueblos ind\u00edgenas en contextos de despojo\u201d, <em>European Review of Latin American and Caribbean Studies. Revista Europea de Estudios Latinoamericanos y del Caribe \u2013 <span class=\"small-caps\">erlacs<\/span><\/em>, n\u00fam. 113, enero-junio, pp. 19-41.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"bibliography\" data-no-auto-translation=\"\">\u2014 y Manuela Camus (1993).<em> Quebrando el silencio. Organizaciones del pueblo maya y sus demandas (1986-1992).<\/em> Guatemala: <span class=\"small-caps\">flacso<\/span>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"bibliography\" data-no-auto-translation=\"\">\u2014 (2003). <em>Entre el mecapal y el cielo. Desarrollo del movimiento maya en Guatemala. <\/em>Guatemala: <span class=\"small-caps\">flacso<\/span>\/Cholsamaj.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"bibliography\" data-no-auto-translation=\"\">\u2014 y Mar\u00eda Teresa Sierra (coords.) (2017). <em>Pueblos ind\u00edgenas y Estado en M\u00e9xico. La disputa por la justicia y los derechos<\/em>. M\u00e9xico: <span class=\"small-caps\">ciesas<\/span>, Col. M\u00e9xico.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"bibliography\" data-no-auto-translation=\"\">Bonfil Batalla, Guillermo (1972). \u201cEl concepto de indio en Am\u00e9rica: una categor\u00eda de la situaci\u00f3n colonial\u201d. <em>Anales de Antropolog\u00eda, <\/em>vol. 9, pp. 105-124.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"bibliography\" data-no-auto-translation=\"\">Burguete, Araceli (2010). \u201cAutonom\u00eda: la emergencia de un nuevo paradigma en las luchas por la descolonizaci\u00f3n en Am\u00e9rica Latina\u201d, en Miguel Gonz\u00e1lez, Araceli Burguete y Pablo Ortiz (coords.). <em>La autonom\u00eda a debate. Autogobierno ind\u00edgena y Estado plurinacional en Am\u00e9rica Latina<\/em>. Quito: <span class=\"small-caps\">flacso<\/span>\/<span class=\"small-caps\">gtz\/iwgia\/ciesas\/unich<\/span>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"bibliography\" data-no-auto-translation=\"\">Carrithers, Michael (1995). <em>\u00bfPor qu\u00e9 los humanos tenemos culturas? Una aproximaci\u00f3n a la antropolog\u00eda y la diversidad social<\/em>. Madrid: Alianza.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"bibliography\" data-no-auto-translation=\"\"><span class=\"small-caps\">codeca<\/span> (2016). <em>Vamos por un proceso de Asamblea Constituyente Popular y Plurinacional<\/em>. Guatemala: Comit\u00e9 de Desarrollo Campesino.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"bibliography\" data-no-auto-translation=\"\">Comaroff, John y Jean Comaroff (1992). \u201cOn Ethnicity and Totemism\u201d, en <em>Theory, Ethnography, Historiography<\/em>. Boulder: Westview Press, <br>pp. 49-67.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"bibliography\" data-no-auto-translation=\"\"><span class=\"small-caps\">cpo<\/span> (2012). \u201cProyecto pol\u00edtico\u201d. Guatemala: Consejo de los Pueblos de Occidente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"bibliography\" data-no-auto-translation=\"\">De la Garza, Enrique (coord.) (2021). <em>Cr\u00edtica de la raz\u00f3n neocolonial<\/em>. Buenos Aires: <span class=\"small-caps\">clacso\/ceil\/conicet<\/span>; M\u00e9xico: Universidad Aut\u00f3noma Metropolitana; Quer\u00e9taro: Universidad Aut\u00f3noma de Quer\u00e9taro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"bibliography\" data-no-auto-translation=\"\">Gonz\u00e1lez Casanova, Pablo (1963). <em>Sociedad plural, colonialismo interno y desarrollo<\/em>. M\u00e9xico: <span class=\"small-caps\">unesco<\/span>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"bibliography\" data-no-auto-translation=\"\">\u2014 (2003). <em>Colonialismo interno (una redefinici\u00f3n)<\/em>. M\u00e9xico: Instituto de Investigaciones Sociales, Universidad Nacional Aut\u00f3noma de M\u00e9xico.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"bibliography\" data-no-auto-translation=\"\">Gros, Christian (1999). \u201cSer diferente por (para) ser moderno, o las paradojas de la identidad: Algunas reflexiones sobre la construcci\u00f3n de una nueva frontera \u00e9tnica en Am\u00e9rica Latina\u201d,&nbsp;<em>An\u00e1lisis Pol\u00edtico<\/em>, (36), pp. 3\u201320. Recuperado de https:\/\/revistas.unal.edu.co\/index.php\/anpol\/article\/view\/79005<\/p>\n\n\n\n<p class=\"bibliography\" data-no-auto-translation=\"\">Guti\u00e9rrez, Raquel (2015). <em>Horizonte comunitario-popular. Antagonismo y producci\u00f3n de lo com\u00fan en Am\u00e9rica Latina<\/em>. M\u00e9xico: <span class=\"small-caps\">ics\/hbuap<\/span>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"bibliography\" data-no-auto-translation=\"\">Haraway, Donna (1995). <em>Ciencia, cyborgs y mujeres<\/em>. Madrid: C\u00e1tedra.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"bibliography\" data-no-auto-translation=\"\">Kymlicka, Will (1996). <em>Ciudadan\u00eda multicultural<\/em>. Madrid: Paid\u00f3s<\/p>\n\n\n\n<p class=\"bibliography\" data-no-auto-translation=\"\">Lehmann, David (2022). <em>After the Decolonial. Ethnicity, Gender and Social Justice in Latin America<\/em>. Cambridge: Polity Press.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"bibliography\" data-no-auto-translation=\"\">\u2014 (2023). \u201cM\u00e1s all\u00e1 de la decolonialidad: discusi\u00f3n de algunos conceptos claves\u201d.<em> Encartes,<\/em> 6 (12). https:\/\/doi.org\/10.29340\/en.v6n11.332<\/p>\n\n\n\n<p class=\"bibliography\" data-no-auto-translation=\"\">Marim\u00e1n, Pablo (2014). \u201cSituaci\u00f3n hist\u00f3rica y contempor\u00e1nea del Ngulumapu\u201d, en Fabiola Esc\u00e1rzaga <em>et al<\/em>. (coords.). <em>Movimiento ind\u00edgena en Am\u00e9rica Latina: resistencia y transformaci\u00f3n social,<\/em> vol. <span class=\"small-caps\">iii<\/span>. M\u00e9xico: <span class=\"small-caps\">uam<\/span> Xochimilco\/Instituto de Ciencias Sociales y Humanidades \u201cAlfonso V\u00e9lez Pliego\u201d, <span class=\"small-caps\">buap\/ciesas<\/span>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"bibliography\" data-no-auto-translation=\"\">Melucci, Alberto (1999).&nbsp;<em>Acci\u00f3n colectiva, vida cotidiana y democracia<\/em>. M\u00e9xico: El Colegio de M\u00e9xico.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"bibliography\" data-no-auto-translation=\"\">Mignolo, Walter (2007). <em>La idea de Am\u00e9rica Latina. La herida colonial y la opci\u00f3n decolonial<\/em>. Barcelona: Gedisa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"bibliography\" data-no-auto-translation=\"\">Nahuelpan, H\u00e9ctor (2023). \u201cFormaci\u00f3n colonial del Estado y despojo en Ngulumapu\u201d, en Santiago Bastos Amigo y Edgars Mart\u00ednez Navarrete (eds.). <em>Colonialismo, comunidad y capital. Pensar el despojo, pensar Am\u00e9rica Latina.<\/em> Quito: Religaci\u00f3n Press\/ Tiempo Robado Editoras\/Bajo Tierra Editoras\/C\u00e1tedra Jorge Alonso, <span class=\"small-caps\">ciesas\/udg.<\/span><\/p>\n\n\n\n<p class=\"bibliography\" data-no-auto-translation=\"\">Ni\u00f1o, Susana Melissa (2023). <em>La ra\u00edz y el pulso del n\u00e1huatl: resignificaciones y resistencia ling\u00fc\u00edstica de los nahuas urbanos de Guadalajara y Puerto Vallarta, Jalisco<\/em>. Guadalajara: tesis para el Doctorado en Ciencias Sociales, <span class=\"small-caps\">ciesas<\/span>-Occidente<\/p>\n\n\n\n<p class=\"bibliography\" data-no-auto-translation=\"\">Quijano, An\u00edbal (2000). \u201cColonialidad del poder, eurocentrismo y Am\u00e9rica Latina\u201d, en Edgardo Lander (comp.).<em> La colonialidad del saber: eurocentrismo y ciencias sociales<\/em>. Buenos Aires: Perspectivas Latinoamericanas, <span class=\"small-caps\">clacso<\/span>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"bibliography\" data-no-auto-translation=\"\">Rivera Cusicanqui, Silvia (2010). <em>Ch\u2019ixinakax utxiwa: una reflexi\u00f3n sobre pr\u00e1cticas y discursos descolonizadores<\/em>. Buenos Aires: Tinta Lim\u00f3n.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"bibliography\" data-no-auto-translation=\"\">Rufer, Mario (2022). <em>La colonialidad y sus nombres: conceptos clave<\/em>. M\u00e9xico: Siglo <span class=\"small-caps\">xxi<\/span>\/<span class=\"small-caps\">clacso.<\/span><\/p>\n\n\n\n<p class=\"bibliography\" data-no-auto-translation=\"\">Santos, Boaventura de Sousa (2007). <em>Conocer desde el Sur: para una cultura pol\u00edtica emancipatoria.<\/em> La Paz: Plural.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"bibliography\" data-no-auto-translation=\"\">\u2014 (2010). <em>Refundaci\u00f3n del Estado en Am\u00e9rica Latina. Perspectivas desde una epistemolog\u00eda del Sur<\/em>. M\u00e9xico: Siglo <span class=\"small-caps\">xxi<\/span>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"bibliography\" data-no-auto-translation=\"\">Sieder, Rachel (2002). <em>Multiculturalism in Latin America. Indigenous Rights, Diversity and Democracy<\/em>. Nueva York: Palgrave Macmillan.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"bibliography\" data-no-auto-translation=\"\">Sieder, Rachel, Ainhoa Montoya y Yacotzin Bravo-Espinosa (coords.) (2022). \u201cExtractivismo minero en Am\u00e9rica Latina: la juridificaci\u00f3n de los conflictos socioambientales\u201d, <em>\u00cdconos: Revista de Ciencias Sociales<\/em>, n\u00fam. 72, vol. <span class=\"small-caps\">xxvi<\/span> (1er. cuatrimestre).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"bibliography\" data-no-auto-translation=\"\">Smith, Carol (1990). \u201cOrigins of the National Question in Guatemala: A Hypothesis\u201d, en Carol Smith (ed.). <em>Guatemalan Indians and the State, 1540 to 1988.<\/em> Austin: University of Texas Press.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"bibliography\" data-no-auto-translation=\"\">Sosa, Mario (2022). \u201cAproximaci\u00f3n al sujeto pol\u00edtico y la propuesta del Estado plurinacional en Guatemala\u201d, <em>Revista Eutop\u00eda,<\/em> n\u00fam. 8, julio de 2019-diciembre de 2022, pp. 33-63.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"bibliography\" data-no-auto-translation=\"\">Spivak, Gayerti (2003). \u201c\u00bfPuede hablar el subalterno?\u201d, <em>Revista Colombiana de Antropolog\u00eda<\/em>, vol. 39, Bogot\u00e1, pp. 297-364.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"bibliography\" data-no-auto-translation=\"\">Stavenhagen, Rodolfo (1963). \u201cClases, colonialismo y aculturaci\u00f3n\u201d, <em>Am\u00e9rica Latina: Revista del Centro Latinoamericano de Investigaciones en Ciencias Sociales.<\/em>&nbsp;R\u00edo de Janeiro, vol. <span class=\"small-caps\">i,<\/span> n\u00fam. 4.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"bibliography\" data-no-auto-translation=\"\">\u2014 (2007). <em>Informe del Relator Especial sobre la situaci\u00f3n de los derechos humanos y las libertades fundamentales de los ind\u00edgenas<\/em>. Asamblea General de las Naciones Unidas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"bibliography\" data-no-auto-translation=\"\">Svampa, Maristella (2019). <em>Las fronteras del neoextractivismo en Am\u00e9rica Latina. Conflictos socioambientales, giro ecoterritorial y nuevas dependencias<\/em>. M\u00e9xico: Calas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"bibliography\" data-no-auto-translation=\"\">Pineda, C\u00e9sar Enrique (2023). \u201cApertura: Debates sobre colonialismo, comunidad y despojo\u201d, en Santiago Bastos Amigo y Edgars Mart\u00ednez Navarrete (eds). <em>Colonialismo, comunidad y capital. Pensar el despojo, pensar Am\u00e9rica Latina.<\/em> Quito: Religaci\u00f3n Press\/Tiempo Robado Editoras\/Bajo Tierra Editoras\/C\u00e1tedra Jorge Alonso, <span class=\"small-caps\">ciesas\/udeg.<\/span><\/p>\n\n\n\n<p class=\"bibliography\" data-no-auto-translation=\"\">Taracena, Arturo (1997). <em>Invenci\u00f3n criolla, sue\u00f1o ladino, pesadilla ind\u00edgena. Los Altos en Guatemala: de regi\u00f3n a Estado, 1740-1850<\/em>. San Jos\u00e9: <span class=\"small-caps\">cirma<\/span>\/Cooperaci\u00f3n Francesa\/Porvenir.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"bibliography\" data-no-auto-translation=\"\">\u2014 Gisella Gellert, Enrique Gordillo, Tania Sagastume y Knut Walter (2003). <em>Etnicidad, Estado y naci\u00f3n en Guatemala 1808-1944<\/em>, vol. <span class=\"small-caps\">i<\/span>. Guatemala: Centro de Investigaciones Regionales de Mesoam\u00e9rica, col. \u201c\u00bfPor qu\u00e9 estamos como estamos?\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"bibliography\" data-no-auto-translation=\"\">Taylor, Charles (1993). <em>El multiculturalismo y \u201cla pol\u00edtica del reconocimiento\u201d<\/em>. M\u00e9xico: <span class=\"small-caps\">fce<\/span>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"bibliography\" data-no-auto-translation=\"\">Van Cott, Donna (ed.) (1995). <em>Indigenous Peoples and Democracy in Latin America<\/em>. Nueva York: St. Martin Press\/The Inter-American Dialogue.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"bibliography\" data-no-auto-translation=\"\">Waqib\u2019 Kej (2021). <em>Ri qab\u2019e rech jun Utzilaj K\u2019aslemal. Nuestro camino hacia un Estado Plurinacional para el Buen Vivir. Una propuesta de las Naciones Originarias de Iximulew<\/em>. Guatemala: Coordinaci\u00f3n y Convergencia Nacional Maya Waqib\u2019 Kej.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"bibliography\" data-no-auto-translation=\"\">Xon Riquiac, Mar\u00eda Jacinta (2022). <em>Entre la exotizaci\u00f3n y el may\u00e1metro. Din\u00e1micas contempor\u00e1neas del colonialismo<\/em>. Guatemala: Catafixia Editorial<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator is-style-dots\"\/>\n\n\n\n<p class=\"abstract\"><em>Santiago Bastos<\/em> \u00e9 formado em Hist\u00f3ria Contempor\u00e2nea pela Universidade Aut\u00f4noma de Madri e tem doutorado em Antropologia Social pela Universidade de Madri. <span class=\"small-caps\">ciesas<\/span>. Ele era um pesquisador da <span class=\"small-caps\">flacso<\/span>-Guatemala de 1988 a 2008. Ele \u00e9 professor de pesquisa na <span class=\"small-caps\">ciesas <\/span>Southeast, enquanto na Guatemala ela faz parte da Equipe de Comunica\u00e7\u00e3o e An\u00e1lise El Colibr\u00ed Zurdo. Sua pesquisa agora se concentra nos efeitos que a din\u00e2mica da globaliza\u00e7\u00e3o est\u00e1 tendo sobre as comunidades ind\u00edgenas na Guatemala e no M\u00e9xico. Suas publica\u00e7\u00f5es mais recentes incluem a compila\u00e7\u00e3o <em>Etnicidade recriada. Diferen\u00e7a, desigualdade e mobilidade na Am\u00e9rica Latina global.<\/em> (2019) e a monografia <em>Mezcala, comunidad coca. Rearticulaci\u00f3n comunitaria y recreaci\u00f3n \u00e9tnica ante el despojo<\/em> (2021), ambos publicados pelo CIESAS.<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Com base em v\u00e1rias das ideias contidas em \"Beyond Decoloniality: A Discussion of Some Key Concepts\" (2023), de David Lehmann, proponho neste artigo uma maneira diferente de entender a rela\u00e7\u00e3o entre a mobiliza\u00e7\u00e3o ind\u00edgena nas \u00faltimas d\u00e9cadas na Am\u00e9rica Latina, os estudos decoloniais e outras formas do que chamo de \"moldura colonial\". O argumento central se desenvolve em torno da mobiliza\u00e7\u00e3o ind\u00edgena, que vejo como mut\u00e1vel e em um processo de complexifica\u00e7\u00e3o, no qual as rela\u00e7\u00f5es com as ideias de descoloniza\u00e7\u00e3o s\u00e3o evidentes, mas n\u00e3o s\u00e3o as \u00fanicas que informam sua a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Ao levar em conta esses dois elementos, a rela\u00e7\u00e3o entre mobiliza\u00e7\u00e3o, descoloniza\u00e7\u00e3o e democracia \u00e9 entendida de uma maneira diferente e com consequ\u00eancias diferentes das de Lehmann.<\/p>","protected":false},"author":4,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[34],"tags":[1127,1126,1128,1125],"coauthors":[551],"class_list":["post-37332","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-34","tag-descolonizacion","tag-giro-decolonial","tag-movilizacion-indigena","tag-pueblos-indigenas","personas-bastos-amigo-santiago","numeros-1094"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v22.2 - https:\/\/yoast.com\/wordpress\/plugins\/seo\/ -->\n<title>La movilizaci\u00f3n ind\u00edgena y la descolonizaci\u00f3n en Am\u00e9rica Latina<\/title>\n<meta name=\"description\" content=\"En este escrito propongo una forma diferente de entender la movilizaci\u00f3n ind\u00edgena de las \u00faltimas d\u00e9cadas en Latinoam\u00e9rica.\" \/>\n<meta name=\"robots\" content=\"index, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<link rel=\"canonical\" href=\"https:\/\/encartes.mx\/pt\/bastos-descolonizacion-movilizacion-indigenas-america-latina\/\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_BR\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"La movilizaci\u00f3n ind\u00edgena y la descolonizaci\u00f3n en Am\u00e9rica Latina\" \/>\n<meta property=\"og:description\" content=\"En este escrito propongo una forma diferente de entender la movilizaci\u00f3n ind\u00edgena de las \u00faltimas d\u00e9cadas en Latinoam\u00e9rica.\" \/>\n<meta property=\"og:url\" content=\"https:\/\/encartes.mx\/pt\/bastos-descolonizacion-movilizacion-indigenas-america-latina\/\" \/>\n<meta property=\"og:site_name\" content=\"Encartes\" \/>\n<meta property=\"article:published_time\" content=\"2023-09-21T11:00:00+00:00\" \/>\n<meta property=\"article:modified_time\" content=\"2023-11-16T23:26:27+00:00\" \/>\n<meta name=\"author\" content=\"Arthur Ventura\" \/>\n<meta name=\"twitter:card\" content=\"summary_large_image\" \/>\n<meta name=\"twitter:label1\" content=\"Escrito por\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data1\" content=\"Arthur Ventura\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:label2\" content=\"Est. tempo de leitura\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data2\" content=\"37 minutos\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:label3\" content=\"Written by\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data3\" content=\"Arthur Ventura\" \/>\n<script type=\"application\/ld+json\" class=\"yoast-schema-graph\">{\"@context\":\"https:\/\/schema.org\",\"@graph\":[{\"@type\":\"Article\",\"@id\":\"https:\/\/encartes.mx\/bastos-descolonizacion-movilizacion-indigenas-america-latina\/#article\",\"isPartOf\":{\"@id\":\"https:\/\/encartes.mx\/bastos-descolonizacion-movilizacion-indigenas-america-latina\/\"},\"author\":{\"name\":\"Arthur Ventura\",\"@id\":\"https:\/\/encartes.mx\/#\/schema\/person\/97215bba1729028a4169cab07f8e58ef\"},\"headline\":\"La movilizaci\u00f3n ind\u00edgena y la descolonizaci\u00f3n en Am\u00e9rica Latina: algunas ideas para la discusi\u00f3n\",\"datePublished\":\"2023-09-21T11:00:00+00:00\",\"dateModified\":\"2023-11-16T23:26:27+00:00\",\"mainEntityOfPage\":{\"@id\":\"https:\/\/encartes.mx\/bastos-descolonizacion-movilizacion-indigenas-america-latina\/\"},\"wordCount\":9213,\"commentCount\":0,\"publisher\":{\"@id\":\"https:\/\/encartes.mx\/#organization\"},\"keywords\":[\"descolonizaci\u00f3n\",\"giro decolonial\",\"movilizaci\u00f3n ind\u00edgena\",\"pueblos ind\u00edgenas\"],\"articleSection\":[\"Comentarios\"],\"inLanguage\":\"pt-BR\",\"potentialAction\":[{\"@type\":\"CommentAction\",\"name\":\"Comment\",\"target\":[\"https:\/\/encartes.mx\/bastos-descolonizacion-movilizacion-indigenas-america-latina\/#respond\"]}]},{\"@type\":\"WebPage\",\"@id\":\"https:\/\/encartes.mx\/bastos-descolonizacion-movilizacion-indigenas-america-latina\/\",\"url\":\"https:\/\/encartes.mx\/bastos-descolonizacion-movilizacion-indigenas-america-latina\/\",\"name\":\"La movilizaci\u00f3n ind\u00edgena y la descolonizaci\u00f3n en Am\u00e9rica Latina\",\"isPartOf\":{\"@id\":\"https:\/\/encartes.mx\/#website\"},\"datePublished\":\"2023-09-21T11:00:00+00:00\",\"dateModified\":\"2023-11-16T23:26:27+00:00\",\"description\":\"En este escrito propongo una forma diferente de entender la movilizaci\u00f3n ind\u00edgena de las \u00faltimas d\u00e9cadas en Latinoam\u00e9rica.\",\"breadcrumb\":{\"@id\":\"https:\/\/encartes.mx\/bastos-descolonizacion-movilizacion-indigenas-america-latina\/#breadcrumb\"},\"inLanguage\":\"pt-BR\",\"potentialAction\":[{\"@type\":\"ReadAction\",\"target\":[\"https:\/\/encartes.mx\/bastos-descolonizacion-movilizacion-indigenas-america-latina\/\"]}]},{\"@type\":\"BreadcrumbList\",\"@id\":\"https:\/\/encartes.mx\/bastos-descolonizacion-movilizacion-indigenas-america-latina\/#breadcrumb\",\"itemListElement\":[{\"@type\":\"ListItem\",\"position\":1,\"name\":\"Home\",\"item\":\"https:\/\/encartes.mx\/\"},{\"@type\":\"ListItem\",\"position\":2,\"name\":\"La movilizaci\u00f3n ind\u00edgena y la descolonizaci\u00f3n en Am\u00e9rica Latina: algunas ideas para la discusi\u00f3n\"}]},{\"@type\":\"WebSite\",\"@id\":\"https:\/\/encartes.mx\/#website\",\"url\":\"https:\/\/encartes.mx\/\",\"name\":\"Encartes\",\"description\":\"Revista digital multimedia\",\"publisher\":{\"@id\":\"https:\/\/encartes.mx\/#organization\"},\"potentialAction\":[{\"@type\":\"SearchAction\",\"target\":{\"@type\":\"EntryPoint\",\"urlTemplate\":\"https:\/\/encartes.mx\/?s={search_term_string}\"},\"query-input\":\"required name=search_term_string\"}],\"inLanguage\":\"pt-BR\"},{\"@type\":\"Organization\",\"@id\":\"https:\/\/encartes.mx\/#organization\",\"name\":\"Encartes Antropol\u00f3gicos\",\"url\":\"https:\/\/encartes.mx\/\",\"logo\":{\"@type\":\"ImageObject\",\"inLanguage\":\"pt-BR\",\"@id\":\"https:\/\/encartes.mx\/#\/schema\/logo\/image\/\",\"url\":\"https:\/\/encartes.mx\/wp-content\/uploads\/2017\/04\/Logo-04.png\",\"contentUrl\":\"https:\/\/encartes.mx\/wp-content\/uploads\/2017\/04\/Logo-04.png\",\"width\":338,\"height\":306,\"caption\":\"Encartes Antropol\u00f3gicos\"},\"image\":{\"@id\":\"https:\/\/encartes.mx\/#\/schema\/logo\/image\/\"}},{\"@type\":\"Person\",\"@id\":\"https:\/\/encartes.mx\/#\/schema\/person\/97215bba1729028a4169cab07f8e58ef\",\"name\":\"Arthur Ventura\",\"image\":{\"@type\":\"ImageObject\",\"inLanguage\":\"pt-BR\",\"@id\":\"https:\/\/encartes.mx\/#\/schema\/person\/image\/8a45818ea77a67a00c058d294424a6f6\",\"url\":\"https:\/\/secure.gravatar.com\/avatar\/e8ff614b2fa0d91ff6c65f328a272c53?s=96&d=identicon&r=g\",\"contentUrl\":\"https:\/\/secure.gravatar.com\/avatar\/e8ff614b2fa0d91ff6c65f328a272c53?s=96&d=identicon&r=g\",\"caption\":\"Arthur Ventura\"}}]}<\/script>\n<!-- \/ Yoast SEO plugin. -->","yoast_head_json":{"title":"La movilizaci\u00f3n ind\u00edgena y la descolonizaci\u00f3n en Am\u00e9rica Latina","description":"En este escrito propongo una forma diferente de entender la movilizaci\u00f3n ind\u00edgena de las \u00faltimas d\u00e9cadas en Latinoam\u00e9rica.","robots":{"index":"index","follow":"follow","max-snippet":"max-snippet:-1","max-image-preview":"max-image-preview:large","max-video-preview":"max-video-preview:-1"},"canonical":"https:\/\/encartes.mx\/pt\/bastos-descolonizacion-movilizacion-indigenas-america-latina\/","og_locale":"pt_BR","og_type":"article","og_title":"La movilizaci\u00f3n ind\u00edgena y la descolonizaci\u00f3n en Am\u00e9rica Latina","og_description":"En este escrito propongo una forma diferente de entender la movilizaci\u00f3n ind\u00edgena de las \u00faltimas d\u00e9cadas en Latinoam\u00e9rica.","og_url":"https:\/\/encartes.mx\/pt\/bastos-descolonizacion-movilizacion-indigenas-america-latina\/","og_site_name":"Encartes","article_published_time":"2023-09-21T11:00:00+00:00","article_modified_time":"2023-11-16T23:26:27+00:00","author":"Arthur Ventura","twitter_card":"summary_large_image","twitter_misc":{"Escrito por":"Arthur Ventura","Est. tempo de leitura":"37 minutos","Written by":"Arthur Ventura"},"schema":{"@context":"https:\/\/schema.org","@graph":[{"@type":"Article","@id":"https:\/\/encartes.mx\/bastos-descolonizacion-movilizacion-indigenas-america-latina\/#article","isPartOf":{"@id":"https:\/\/encartes.mx\/bastos-descolonizacion-movilizacion-indigenas-america-latina\/"},"author":{"name":"Arthur Ventura","@id":"https:\/\/encartes.mx\/#\/schema\/person\/97215bba1729028a4169cab07f8e58ef"},"headline":"La movilizaci\u00f3n ind\u00edgena y la descolonizaci\u00f3n en Am\u00e9rica Latina: algunas ideas para la discusi\u00f3n","datePublished":"2023-09-21T11:00:00+00:00","dateModified":"2023-11-16T23:26:27+00:00","mainEntityOfPage":{"@id":"https:\/\/encartes.mx\/bastos-descolonizacion-movilizacion-indigenas-america-latina\/"},"wordCount":9213,"commentCount":0,"publisher":{"@id":"https:\/\/encartes.mx\/#organization"},"keywords":["descolonizaci\u00f3n","giro decolonial","movilizaci\u00f3n ind\u00edgena","pueblos ind\u00edgenas"],"articleSection":["Comentarios"],"inLanguage":"pt-BR","potentialAction":[{"@type":"CommentAction","name":"Comment","target":["https:\/\/encartes.mx\/bastos-descolonizacion-movilizacion-indigenas-america-latina\/#respond"]}]},{"@type":"WebPage","@id":"https:\/\/encartes.mx\/bastos-descolonizacion-movilizacion-indigenas-america-latina\/","url":"https:\/\/encartes.mx\/bastos-descolonizacion-movilizacion-indigenas-america-latina\/","name":"La movilizaci\u00f3n ind\u00edgena y la descolonizaci\u00f3n en Am\u00e9rica Latina","isPartOf":{"@id":"https:\/\/encartes.mx\/#website"},"datePublished":"2023-09-21T11:00:00+00:00","dateModified":"2023-11-16T23:26:27+00:00","description":"En este escrito propongo una forma diferente de entender la movilizaci\u00f3n ind\u00edgena de las \u00faltimas d\u00e9cadas en Latinoam\u00e9rica.","breadcrumb":{"@id":"https:\/\/encartes.mx\/bastos-descolonizacion-movilizacion-indigenas-america-latina\/#breadcrumb"},"inLanguage":"pt-BR","potentialAction":[{"@type":"ReadAction","target":["https:\/\/encartes.mx\/bastos-descolonizacion-movilizacion-indigenas-america-latina\/"]}]},{"@type":"BreadcrumbList","@id":"https:\/\/encartes.mx\/bastos-descolonizacion-movilizacion-indigenas-america-latina\/#breadcrumb","itemListElement":[{"@type":"ListItem","position":1,"name":"Home","item":"https:\/\/encartes.mx\/"},{"@type":"ListItem","position":2,"name":"La movilizaci\u00f3n ind\u00edgena y la descolonizaci\u00f3n en Am\u00e9rica Latina: algunas ideas para la discusi\u00f3n"}]},{"@type":"WebSite","@id":"https:\/\/encartes.mx\/#website","url":"https:\/\/encartes.mx\/","name":"Encartes","description":"Revista digital multimedia","publisher":{"@id":"https:\/\/encartes.mx\/#organization"},"potentialAction":[{"@type":"SearchAction","target":{"@type":"EntryPoint","urlTemplate":"https:\/\/encartes.mx\/?s={search_term_string}"},"query-input":"required name=search_term_string"}],"inLanguage":"pt-BR"},{"@type":"Organization","@id":"https:\/\/encartes.mx\/#organization","name":"Encartes Antropol\u00f3gicos","url":"https:\/\/encartes.mx\/","logo":{"@type":"ImageObject","inLanguage":"pt-BR","@id":"https:\/\/encartes.mx\/#\/schema\/logo\/image\/","url":"https:\/\/encartes.mx\/wp-content\/uploads\/2017\/04\/Logo-04.png","contentUrl":"https:\/\/encartes.mx\/wp-content\/uploads\/2017\/04\/Logo-04.png","width":338,"height":306,"caption":"Encartes Antropol\u00f3gicos"},"image":{"@id":"https:\/\/encartes.mx\/#\/schema\/logo\/image\/"}},{"@type":"Person","@id":"https:\/\/encartes.mx\/#\/schema\/person\/97215bba1729028a4169cab07f8e58ef","name":"Arthur Ventura","image":{"@type":"ImageObject","inLanguage":"pt-BR","@id":"https:\/\/encartes.mx\/#\/schema\/person\/image\/8a45818ea77a67a00c058d294424a6f6","url":"https:\/\/secure.gravatar.com\/avatar\/e8ff614b2fa0d91ff6c65f328a272c53?s=96&d=identicon&r=g","contentUrl":"https:\/\/secure.gravatar.com\/avatar\/e8ff614b2fa0d91ff6c65f328a272c53?s=96&d=identicon&r=g","caption":"Arthur Ventura"}}]}},"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/encartes.mx\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/37332","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/encartes.mx\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/encartes.mx\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/encartes.mx\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/encartes.mx\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=37332"}],"version-history":[{"count":33,"href":"https:\/\/encartes.mx\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/37332\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":37870,"href":"https:\/\/encartes.mx\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/37332\/revisions\/37870"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/encartes.mx\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=37332"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/encartes.mx\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=37332"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/encartes.mx\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=37332"},{"taxonomy":"author","embeddable":true,"href":"https:\/\/encartes.mx\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/coauthors?post=37332"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}