{"id":35791,"date":"2022-03-21T20:38:57","date_gmt":"2022-03-21T20:38:57","guid":{"rendered":"https:\/\/encartes.mx\/?p=35791"},"modified":"2024-04-23T19:13:59","modified_gmt":"2024-04-24T01:13:59","slug":"sierra-resena-morales-genero-etnicidad-raramuri-chihuahua","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/encartes.mx\/pt\/sierra-resena-morales-genero-etnicidad-raramuri-chihuahua\/","title":{"rendered":"Mulheres Rar\u00e1muri urbanas. Reconfigura\u00e7\u00f5es de g\u00eanero a partir da etnia."},"content":{"rendered":"<p class=\"has-drop-cap no-indent translation-block\">O livro <em>G\u00eanero e etnia Rar\u00e1muri na cidade de Chihuahua. Organizaci\u00f3n y participaci\u00f3n de las mujeres en asentamientos congregados<\/em> analisa as transforma\u00e7\u00f5es socioculturais e de g\u00eanero vivenciadas por homens e mulheres ind\u00edgenas Rar\u00e1muri que se estabeleceram na cidade de Chihuahua em busca de meios de subsist\u00eancia alternativos. A partir de uma perspectiva etnogr\u00e1fica e culturalmente situada, a autora oferece uma vis\u00e3o abrangente das rela\u00e7\u00f5es de g\u00eanero que s\u00e3o redefinidas no contexto urbano como parte de processos fortemente ligados \u00e0 etnia, \u00e0 desigualdade e \u00e0 subalternidade. \u00c9 um livro esperan\u00e7oso que coloca no centro as respostas criativas das mulheres e dos homens Rar\u00e1muri para reconfigurar suas vidas em espa\u00e7os muito diferentes daqueles que tradicionalmente ocupavam na Serra Tarahumara e explica sua enorme capacidade de reproduzir suas identidades e o controle cultural de suas institui\u00e7\u00f5es (Bonfil, 1987), apesar da desigualdade, das exclus\u00f5es e do racismo sist\u00eamico que caracterizam sua rela\u00e7\u00e3o com a sociedade mais ampla e o Estado. O foco da an\u00e1lise s\u00e3o as pr\u00e1ticas e representa\u00e7\u00f5es culturais e materiais das mulheres Rar\u00e1muri nas diferentes esferas que marcam seu cotidiano e sua vida coletiva na cidade, destacando seu papel de lideran\u00e7a no enfrentamento de desafios e na assun\u00e7\u00e3o de novos pap\u00e9is no espa\u00e7o p\u00fablico, ao mesmo tempo em que afirmam sua identidade \u00e9tnica. Neste livro, Marco Morales combina uma perspectiva de economia pol\u00edtica, que enfatiza as transforma\u00e7\u00f5es materiais como base para a reprodu\u00e7\u00e3o social dos Rar\u00e1muris na cidade, com uma abordagem de significados culturais no estilo de Pierre Bourdieu (1980), para destacar a maneira como essas transforma\u00e7\u00f5es sociais os for\u00e7am a redefinir o significado pr\u00e1tico da vida a partir de esquemas de representa\u00e7\u00e3o e a\u00e7\u00e3o que se adaptam \u00e0s novas circunst\u00e2ncias, entre os quais se destaca a reordena\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es de g\u00eanero. Ao se mudarem para a cidade por diversas raz\u00f5es, os homens e as mulheres Rar\u00e1muri enfrentam contextos radicalmente diferentes de seus modos de vida tradicionais na Serra Tarahumara, e em seus novos espa\u00e7os de habitat - os assentamentos urbanos congregados - redefinem suas formas de organiza\u00e7\u00e3o para garantir sua sobreviv\u00eancia material, e o fazem a partir de suas pr\u00f3prias gram\u00e1ticas culturais, ou seja, de seu pr\u00f3prio <em>habitus<\/em>. A novidade \u00e9, sem d\u00favida, a for\u00e7a de identidade que lhes permite reproduzir-se como Rar\u00e1muris urbanos, nos quais sua cosmovis\u00e3o e modelos culturais desempenham um papel fundamental. A partir dessas gram\u00e1ticas, elas constroem novos pap\u00e9is de g\u00eanero e os significados de ser uma mulher Rar\u00e1muri na cidade.<\/p>\n\n\n\n<p>O trabalho de Marco Vinicio Morales contribui para uma linha muito prol\u00edfica de estudos sobre mulheres ind\u00edgenas urbanas no M\u00e9xico e na Am\u00e9rica Latina, trabalhos que tornaram vis\u00edvel o ac\u00famulo de viol\u00eancia e discrimina\u00e7\u00e3o que elas enfrentam nas cidades e suas estrat\u00e9gias de adapta\u00e7\u00e3o. Esses estudos destacaram a politiza\u00e7\u00e3o de identidades como mulheres ind\u00edgenas e o uso de uma linguagem de direitos que fortalece sua ag\u00eancia. Em contraste com esses estudos, de acordo com a autora, no caso dos Rar\u00e1muri, as mudan\u00e7as nas ordens de g\u00eanero que colocam as mulheres em novos pap\u00e9is n\u00e3o podem ser dissociadas da etnia. O trabalho meticuloso de Marco Morales nos convida a olhar com cautela para a transforma\u00e7\u00e3o das ordens de g\u00eanero, a fim de compreend\u00ea-las dentro de suas l\u00f3gicas culturais e, a partir da\u00ed, analisar seus efeitos na vida das mulheres e dos grupos dom\u00e9sticos.<\/p>\n\n\n\n<p>O livro \u00e9 o resultado de um estudo de longo prazo realizado pelo autor na Sierra Tarahumara, produto de mais de quinze anos de pesquisa comprometida com os povos ind\u00edgenas do norte do pa\u00eds, que serve de base para estabelecer os contrastes necess\u00e1rios para entender a reconfigura\u00e7\u00e3o das ordens de g\u00eanero Rar\u00e1muri na cidade. O estudo mostra o poder da etnografia para abordar o ponto de vista dos atores a partir de seu contexto e para documentar processos altamente complexos de transforma\u00e7\u00e3o social. Uma outra contribui\u00e7\u00e3o do livro s\u00e3o as fotografias tiradas pelo autor que ilustram os temas e revelam a riqueza e a distin\u00e7\u00e3o cultural da vida Rar\u00e1muri na cidade.<\/p>\n\n\n\n<p>A seguir, destaco o que considero ser a contribui\u00e7\u00e3o substantiva do livro e as partes que o estruturam para finalmente colocar seu trabalho em perspectiva.<\/p>\n\n\n\n<p>O autor afirma que a organiza\u00e7\u00e3o social Rar\u00e1muri \u00e9 caracterizada por uma tend\u00eancia \u00e0 horizontalidade nas rela\u00e7\u00f5es de g\u00eanero, por um princ\u00edpio de complementaridade e relativa autonomia e igualdade entre seus membros, especialmente quando comparada a outros grupos ind\u00edgenas do centro e do sul do M\u00e9xico. Ele tamb\u00e9m ressalta que essa horizontalidade n\u00e3o escapa ao modelo masculino hegem\u00f4nico, o que significa certos privil\u00e9gios para os homens. As mudan\u00e7as sociais est\u00e3o motivando o reajuste dos pap\u00e9is de g\u00eanero nos espa\u00e7os urbanos, colocando as mulheres na vanguarda, o que significa que elas ganharam poder e prest\u00edgio; no entanto, isso n\u00e3o significa confrontar as hierarquias, nem significa que elas estejam comprometidas com a justi\u00e7a de g\u00eanero. Essa interpreta\u00e7\u00e3o est\u00e1 em tens\u00e3o com as perspectivas feministas liberais que relacionam a ag\u00eancia das mulheres ind\u00edgenas ao questionamento da domina\u00e7\u00e3o patriarcal e ao avan\u00e7o de um discurso de direitos. As mulheres Rar\u00e1muri s\u00e3o agentes de transforma\u00e7\u00e3o ou n\u00e3o; em que sentido elas est\u00e3o contribuindo ou n\u00e3o para questionar a autoridade masculina ou renegociar seu lugar como mulheres?<\/p>\n\n\n\n<p class=\" translation-block\">Para contribuir com a abordagem de Marco Morales, retomo as reflex\u00f5es de Jane Collier e Sabba Mahmood sobre as opress\u00f5es de g\u00eanero em sociedades n\u00e3o liberais, que nos convidam a analisar criticamente a ag\u00eancia das mulheres e a situ\u00e1-las em seus contextos. Jane Collier, em seu livro <em>From Duty to Desire. Recreating families in an Andalusian village<\/em> (2009), questiona as interpreta\u00e7\u00f5es evolucionistas ligadas ao liberalismo sobre o conceito de pessoalidade, que promoveu a ideia de que a modernidade significa avan\u00e7ar em dire\u00e7\u00e3o a rela\u00e7\u00f5es de g\u00eanero mais igualit\u00e1rias diante de costumes considerados retr\u00f3grados em sociedades n\u00e3o liberais e sujeitos ao dever ser. Por meio de densos estudos etnogr\u00e1ficos em sociedades rurais da Espanha e do M\u00e9xico, Collier ressalta que as subjetividades modernas implicam novas subordina\u00e7\u00f5es de g\u00eanero sob o manto dos direitos e do discurso da igualdade, raz\u00e3o pela qual ela apela para um olhar cr\u00edtico sobre a agenda feminista liberal aplicada como par\u00e2metro. De forma semelhante, Saba Mahmood, em sua pesquisa sobre mulheres mu\u00e7ulmanas no Cairo, considera que as abordagens feministas liberais para discutir a autonomia das mulheres n\u00e3o conseguem enxergar as maneiras pelas quais as tradi\u00e7\u00f5es n\u00e3o liberais moldaram os desejos, os afetos e a organiza\u00e7\u00e3o da vida de muitas mulheres; e \u00e9 a partir dessa linguagem e desses contextos que as mudan\u00e7as operadas pelas pr\u00f3prias mulheres devem ser compreendidas. Assim, ela sugere considerar \"a ag\u00eancia social n\u00e3o como sin\u00f4nimo de resist\u00eancia \u00e0s rela\u00e7\u00f5es de domina\u00e7\u00e3o, mas como uma capacidade de a\u00e7\u00e3o que \u00e9 possibilitada e recriada em rela\u00e7\u00f5es de subordina\u00e7\u00e3o historicamente espec\u00edficas\" (Mahmood, 2008: 168).<\/p>\n\n\n\n<p>Essas estruturas anal\u00edticas me parecem sugestivas e complementares para analisar o tipo de subjetividade constru\u00edda pelas mulheres Rar\u00e1muri urbanas e o conceito de pessoalidade envolvido em seus tecidos sociais, na medida em que ajudam a enfatizar os significados contextuais e os horizontes de vida ligados \u00e0s pr\u00e1ticas sociais, em vez de defini\u00e7\u00f5es pr\u00e9vias referentes a um dever-ser de g\u00eanero e sua transforma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Com base nessas refer\u00eancias, a seguir retomo a abordagem de Marco Morales desenvolvida nesse livro. Especificamente, o autor analisa as estrat\u00e9gias de reprodu\u00e7\u00e3o material e sociocultural de grupos dom\u00e9sticos em assentamentos urbanos na cidade de Chihuahua, concentrando-se nas respostas diferenciadas de mulheres e homens Rar\u00e1muri \u00e0s novas realidades que enfrentam na cidade. Por meio de um denso trabalho etnogr\u00e1fico, ela documenta o processo de mudan\u00e7a e continuidade entre os Rar\u00e1muri e destaca as maneiras pelas quais as identidades \u00e9tnicas e de g\u00eanero s\u00e3o reconfiguradas, ao mesmo tempo em que considera as teias cotidianas de poder em seu relacionamento com a sociedade mais ampla e o Estado. Refiro-me abaixo a algumas dessas particularidades retratadas por Marco Morales ao longo dos quatro cap\u00edtulos que comp\u00f5em seu livro.<\/p>\n\n\n\n<p>Assentamentos urbanos e a reconfigura\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o social de g\u00eanero: o que os assentamentos urbanos significam para a organiza\u00e7\u00e3o sociocultural dos Rar\u00e1muri e para as rela\u00e7\u00f5es de g\u00eanero? Os assentamentos s\u00e3o espa\u00e7os habitacionais dos Rar\u00e1muri localizados na periferia da cidade de Chihuahua, constru\u00eddos expressamente por agentes estatais para sua melhor governan\u00e7a; s\u00e3o o resultado de pol\u00edticas de bem-estar que respondem a l\u00f3gicas de segrega\u00e7\u00e3o, concentra\u00e7\u00e3o e marginaliza\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o Rar\u00e1muri. A distribui\u00e7\u00e3o espacial, a arquitetura das casas e as regras de funcionamento dos assentamentos foram definidas pelo Estado; no entanto, os Raramuri conseguiram se apropriar desses espa\u00e7os a partir de suas pr\u00f3prias gram\u00e1ticas culturais para adapt\u00e1-los a seus modos de vida. Atualmente, h\u00e1 17 assentamentos na cidade de Chihuahua, entre eles o Oasis, o primeiro criado em 1957, onde Marco realizou sua pesquisa prioritariamente. A partir desses espa\u00e7os, ele analisa como os grupos dom\u00e9sticos operam, suas estrat\u00e9gias de subsist\u00eancia e a maneira como reconstroem suas identidades \u00e9tnicas e de g\u00eanero. Em particular, ele destaca tr\u00eas campos de a\u00e7\u00e3o que refletem as l\u00f3gicas de complementaridade e horizontalidade que estruturam as rela\u00e7\u00f5es de g\u00eanero e suas transforma\u00e7\u00f5es: o campo de trabalho, a organiza\u00e7\u00e3o sociopol\u00edtica dos assentamentos e a dimens\u00e3o ritual e festiva dos Rar\u00e1muri na cidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\" translation-block\">1. O campo do trabalho \u00e9 uma \u00e1rea fundamental para analisar as estrat\u00e9gias de reprodu\u00e7\u00e3o social do grupo dom\u00e9stico no espa\u00e7o urbano e as mudan\u00e7as que isso implica em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 vida na serra: Assim, os homens ganham a vida trabalhando em alvenaria, como oper\u00e1rios em fazendas de gado e na semeadura, entre outras atividades - o que \u00e0s vezes significa ficar longe de suas fam\u00edlias por meses -, enquanto as mulheres tendem a se dedicar ao trabalho dom\u00e9stico, vendendo artesanato ou buscando <em>korima<\/em> - um pedido de ajuda - nas ruas de Chihuahua, junto com seus filhos. Aqui podemos ver uma primeira diferencia\u00e7\u00e3o de trabalho marcada pelo g\u00eanero, que contrasta com as atividades realizadas pelo grupo dom\u00e9stico na serra, em que homens e mulheres compartilham as diferentes tarefas de agricultura, cuidados com os animais, cuidados com o espa\u00e7o dom\u00e9stico etc. Agora, as mulheres s\u00e3o obrigadas a garantir a subsist\u00eancia di\u00e1ria de suas fam\u00edlias e a enfrentar os riscos do trabalho nas ruas. Ao acompanhar as atividades produtivas de homens e mulheres, Marco mostra n\u00e3o apenas como eles obt\u00eam sua renda, mas tamb\u00e9m o peso do estigma de ser Rar\u00e1muri em suas rela\u00e7\u00f5es com os mesti\u00e7os, o que \u00e9 vivenciado especialmente pelas mulheres. Ele tamb\u00e9m analisa a distribui\u00e7\u00e3o das tarefas dom\u00e9sticas nos assentamentos a partir de uma l\u00f3gica de subsist\u00eancia e mostra o aumento das tarefas e responsabilidades assumidas pelas mulheres, que veem sua carga de trabalho aumentar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\" translation-block\">2. Outros espa\u00e7os fundamentais s\u00e3o a organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e aqueles ligados \u00e0 vida festiva e ritual, que constituem espa\u00e7os na vida dos Rar\u00e1muri onde as mulheres assumem um papel mais protagonista do que o tradicionalmente atribu\u00eddo a elas nas comunidades serranas, em grande parte devido \u00e0 aus\u00eancia dos homens e a uma certa passividade ou falta de interesse em participar da esfera p\u00fablica. Marco documenta o aumento da presen\u00e7a das mulheres nas tarefas do assentamento, respondendo \u00e0s demandas dos funcion\u00e1rios do Estado que exigem sua participa\u00e7\u00e3o na escola, na \u00e1rea da sa\u00fade e nos diferentes programas sociais; s\u00e3o elas que v\u00e3o \u00e0s reuni\u00f5es, cuidam da limpeza das salas de aula e dos espa\u00e7os de reuni\u00e3o e atendem \u00e0s necessidades das escolas, entre outras atividades. Isso abriu novos espa\u00e7os e conhecimentos para elas como gestoras dos assentamentos e ampliou suas compet\u00eancias. Mas as mulheres est\u00e3o notoriamente assumindo fun\u00e7\u00f5es p\u00fablicas de autoridade, ocupando os principais cargos de <em>Siriame<\/em>\/ Governadora - a figura tradicional do governo Rar\u00e1muri - nos assentamentos, desempenhando um papel central em sua administra\u00e7\u00e3o, na resolu\u00e7\u00e3o de conflitos entre vizinhos e no atendimento a diversas necessidades. Por meio de testemunhos v\u00edvidos, observa\u00e7\u00f5es e entrevistas, Marco transmite o que isso significou para as mulheres e como elas tiveram que assumir essas responsabilidades. Esse \u00e9, por exemplo, o testemunho de Juana, a primeira governadora do assentamento El Oasis:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"verse translation-block\">Pedi para ser a segunda colocada porque sou mulher, porque na cultura Tarahumara o homem sempre vem em primeiro lugar e eu n\u00e3o quero ser a primeira governadora. Pedi para ser a segunda, por causa da cultura mesmo, porque sempre damos mais import\u00e2ncia aos homens. Ent\u00e3o, foi por isso que pedi para ser o segundo. Antes de me tornar governador, nunca pensei que um dia seria um, que teria esse t\u00edtulo; n\u00e3o me sinto como um governador, simplesmente me sinto como um servidor da comunidade. E <em>pus<\/em> aqui talvez eu seja o que se move mais do que o homem, \"mas eu fa\u00e7o isso para ajud\u00e1-lo\", eu digo a ele. Ele depende de mim, ele n\u00e3o decide nada a menos que v\u00e1 me consultar.<\/p>\n\n\n\n<p>Em seu depoimento, Juana revela sua disposi\u00e7\u00e3o e compromisso de assumir tarefas para o bem coletivo sem substituir a autoridade masculina, pela qual ela expressa respeito. Esses processos de transforma\u00e7\u00e3o, sem d\u00favida, afetam as hierarquias de g\u00eanero, especialmente se as mulheres s\u00e3o mais confi\u00e1veis do que os homens para assumir posi\u00e7\u00f5es de autoridade, mas n\u00e3o parecem gerar uma oposi\u00e7\u00e3o masculina conflituosa ou se os homens se sentem amea\u00e7ados. Os significados de autoridade nos assentamentos e nas terras altas apelam para princ\u00edpios semelhantes: \"uma pessoa que sabe dar conselhos, que sabe falar\", entre outros crit\u00e9rios sens\u00edveis que as mulheres devem seguir, aos quais se somam outros requisitos impostos pela vida urbana, como o pr\u00f3prio fato de mediar a rela\u00e7\u00e3o com os funcion\u00e1rios do Estado e ser gerente. De qualquer forma, os cargos n\u00e3o parecem ser um foco de disputa de g\u00eanero entre os Rar\u00e1muri nos assentamentos, o que contrasta fortemente com o que foi registrado por estudos em outros contextos em que as mulheres ind\u00edgenas disputam o acesso a cargos, o que tende a gerar tens\u00f5es, amea\u00e7as e viol\u00eancia, especialmente quando se trata de cargos de representa\u00e7\u00e3o e autoridade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\" translation-block\">Mas, al\u00e9m dos cargos p\u00fablicos como governadores ou membros de comit\u00eas, as mulheres entraram em espa\u00e7os que tradicionalmente n\u00e3o ocupavam na serra, referindo-se a pr\u00e1ticas rituais e festivas que s\u00e3o fundamentais para a vis\u00e3o de mundo e a identidade dos Rar\u00e1muri. Isso \u00e9 especialmente verdadeiro nas celebra\u00e7\u00f5es da Semana Santa e nas festividades religiosas de inverno. Assim, as mulheres participam das dan\u00e7as que elas mesmas organizam e financiam, como \u00e9 o caso da dan\u00e7a das matachinas nas celebra\u00e7\u00f5es de inverno, uma dan\u00e7a de grande for\u00e7a simb\u00f3lica que agora tamb\u00e9m est\u00e1 sob a organiza\u00e7\u00e3o e a responsabilidade das mulheres; algo semelhante acontece com as corridas de arco e bola, caracter\u00edsticas dos Rar\u00e1muris, na cidade, onde as mulheres tamb\u00e9m t\u00eam uma participa\u00e7\u00e3o not\u00e1vel. Isso as leva a assumir novos pap\u00e9is e um importante protagonismo com consequ\u00eancias econ\u00f4micas, de ac\u00famulo de prest\u00edgio e, principalmente, de organiza\u00e7\u00e3o e divers\u00e3o pessoal. Com densos relatos etnogr\u00e1ficos e testemunhos, Marco Morales nos mostra o papel das mulheres em espa\u00e7os centrais para a reprodu\u00e7\u00e3o sociocultural de suas vidas como Rar\u00e1muris na cidade e o que significa para elas assumir esses pap\u00e9is. Ele mostra, por exemplo, que, ao organizar as corridas de arco e bola, as mulheres tamb\u00e9m s\u00e3o respons\u00e1veis pelas apostas, baseadas em saias multicoloridas que s\u00e3o dispostas em um espa\u00e7o como trof\u00e9us, assim como na serra, e assumem o compromisso de garantir que as corridas transcorram em boas condi\u00e7\u00f5es; elas se tornaram, assim, <em>cho'k\u00e9ame<\/em>, que aconselham os participantes e t\u00eam a responsabilidade de cuidar da ritualidade das corridas e de ficar atentas a conflitos.<\/p>\n\n\n\n<p>Notavelmente, esses processos destacam a ag\u00eancia das mulheres Rar\u00e1muri, sua maior visibilidade no espa\u00e7o p\u00fablico, bem como seu controle dos processos e pr\u00e1ticas rituais. Essas s\u00e3o mudan\u00e7as importantes que est\u00e3o redefinindo as rela\u00e7\u00f5es de g\u00eanero nas gram\u00e1ticas culturais. O que se percebe \u00e9 que, ao assumirem novos pap\u00e9is, as mulheres est\u00e3o atualizando as l\u00f3gicas de complementaridade entre os g\u00eaneros, tornando-as vis\u00edveis sem confrontar os homens, ao mesmo tempo em que reproduzem v\u00ednculos coletivos. Sua contribui\u00e7\u00e3o em tarefas t\u00e3o importantes para a reprodu\u00e7\u00e3o social e cultural dos Rar\u00e1muri se torna vis\u00edvel; entretanto, como j\u00e1 assinalei, esse maior protagonismo das mulheres n\u00e3o parece gerar tens\u00f5es com seus parceiros, que n\u00e3o disputam espa\u00e7os de poder tradicionalmente masculinos e parecem aceitar que sejam as mulheres que assumam essas tarefas. Isso n\u00e3o quer dizer que as mulheres Rar\u00e1muri n\u00e3o enfrentem conflitos e viol\u00eancia de g\u00eanero por parte de seus parceiros, especialmente no \u00e2mbito familiar e, em geral, ligados ao consumo de \u00e1lcool, como bem aponta a autora.<\/p>\n\n\n\n<p>Os novos pap\u00e9is de g\u00eanero assumidos pelas mulheres est\u00e3o provocando mudan\u00e7as importantes e posicionando-as em espa\u00e7os coletivos de tomada de decis\u00f5es e grupos dom\u00e9sticos em rela\u00e7\u00e3o aos homens e, nessa medida, est\u00e3o gerando novas subjetividades como mulheres que tomam decis\u00f5es e agem para o bem comum. \u00c9 de se esperar que isso acabe por desestabilizar a hegemonia masculina e, assim, redefinir as l\u00f3gicas de complementaridade na pr\u00e1tica, sem necessariamente confrontar explicitamente a autoridade masculina. Devemos ser cautelosos com interpreta\u00e7\u00f5es r\u00e1pidas que n\u00e3o mostrem a complexidade dos contextos e das intera\u00e7\u00f5es sociais para chegar a conclus\u00f5es que podem ser esquem\u00e1ticas e n\u00e3o fazer justi\u00e7a \u00e0s importantes conquistas das mulheres Rar\u00e1muri em seus espa\u00e7os de vida, e nisso o fato de serem mulheres \u00e9 fundamental, o que n\u00e3o pode ser separado do fato de serem Rar\u00e1muri, como Marco Morales corretamente aponta.<\/p>\n\n\n\n<p>Em suma, vemos em opera\u00e7\u00e3o l\u00f3gicas e pr\u00e1ticas materiais que transformam as rela\u00e7\u00f5es de g\u00eanero a partir de contextos marcados pela desigualdade, exclus\u00e3o e racismo, combinadas com poderosas gram\u00e1ticas de identidade que oferecem a linguagem para traduzir modos de vida alternativos. Os assentamentos urbanos n\u00e3o impediram a reprodu\u00e7\u00e3o da vida Rar\u00e1muri, apesar da viol\u00eancia sist\u00eamica e estrutural que esses grupos enfrentam em sua rela\u00e7\u00e3o com a sociedade majorit\u00e1ria e o Estado. O livro de Marco Vinicio Morales Mu\u00f1oz oferece uma etnografia densa para observar processos carregados de inova\u00e7\u00e3o social, nos quais as mulheres ind\u00edgenas s\u00e3o os principais atores, mesmo que seus horizontes n\u00e3o incluam a contesta\u00e7\u00e3o da autoridade masculina. Algo semelhante parece acontecer com os homens, que tamb\u00e9m n\u00e3o se op\u00f5em \u00e0s mulheres, mas permitem que elas avancem em suas tarefas e compromissos. Em termos de contraste, destacam-se as matrizes culturais que os Rar\u00e1muris ativam e que basicamente lhes permitem reproduzir suas vidas e manter o controle de suas institui\u00e7\u00f5es de forma semiaut\u00f4noma. Mesmo em sua condi\u00e7\u00e3o de subalternidade e marginaliza\u00e7\u00e3o, as mulheres Rar\u00e1muri assumem um papel de lideran\u00e7a, continuando a ativar sua cultura e a reproduzir sua organiza\u00e7\u00e3o social.<\/p>\n\n\n\n<p>Provavelmente haver\u00e1 mudan\u00e7as com as novas gera\u00e7\u00f5es de jovens Rar\u00e1muri nascidos na cidade e, em especial, as mulheres ver\u00e3o na linguagem dos direitos humanos outra forma de sintetizar suas identidades coletivas e de g\u00eanero a partir de suas vis\u00f5es de mundo e diante das m\u00faltiplas formas de viol\u00eancia que enfrentam diariamente.<\/p>\n\n\n\n<p>Concluo convidando os leitores a lerem o livro de Marco Vinicio Morales, que \u00e9, sem d\u00favida, uma refer\u00eancia para a compreens\u00e3o desses processos complexos de mudan\u00e7a e reprodu\u00e7\u00e3o social e de g\u00eanero dos povos ind\u00edgenas urbanos e para o avan\u00e7o dos debates contempor\u00e2neos sobre g\u00eanero e etnia.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Bibliografia<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"bibliography\" data-no-auto-translation=\"\">Bonfil, Guillermo (1987). <em>M\u00e9xico profundo. Una civilizaci\u00f3n negada.<\/em> M\u00e9xico: Grijalbo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"bibliography\" data-no-auto-translation=\"\">Bourdieu, Pierre (1980). <em>Le sens pratique<\/em>. Par\u00eds: Les \u00c9ditions de Minuit.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"bibliography\" data-no-auto-translation=\"\">Collier, Jane (2009). <em>Del deber al deseo. Recreando familias en un pueblo andaluz.<\/em> M\u00e9xico: <span class=\"small-caps\">ciesas<\/span>, <span class=\"small-caps\">uam<\/span> e Ibero.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"bibliography\" data-no-auto-translation=\"\">Mahmood, Saba (2008). \u201cTeor\u00eda feminista y el agente social d\u00f3cil. Algunas reflexiones sobre el renacimiento isl\u00e1mico en Egipto\u201d, en Liliana Su\u00e1rez-Navaz y R. A\u00edda Hern\u00e1ndez (ed.), <em>Descolonizando el feminismo. Teor\u00eda y pr\u00e1cticas desde los m\u00e1rgenes. <\/em>Valencia: C\u00e1tedra, pp: 165-221.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n\n\n\n<p class=\"no-indent translation-block\"><em>Mar\u00eda Teresa Sierra Camacho<\/em> \u00e9 professora-pesquisadora titular da <span class=\"small-caps\"><span class=\"small-caps\">ciesas<\/span><\/span><\/span><\/span>-Cidade do M\u00e9xico. Membro do <span class=\"small-caps\"><span class=\"small-caps\"><span class=\"small-caps\">&lt;sni<\/span><\/span><\/span> n\u00edvel 3. Especialista no campo da antropologia jur\u00eddica e pol\u00edtica, justi\u00e7a de g\u00eanero e pluralismo jur\u00eddico. Fundadora da Rede Latino-Americana de Antropologia Jur\u00eddica (<span class=\"small-caps\"><span class=\"small-caps\">relaju<\/span><\/span><\/span>). Membro de redes nacionais e internacionais de defesa dos direitos humanos dos povos ind\u00edgenas, antirracismo e contra a viol\u00eancia de g\u00eanero. Coordenou v\u00e1rios projetos de pesquisa coletiva sobre quest\u00f5es relacionadas ao estudo dos direitos ind\u00edgenas, justi\u00e7a de g\u00eanero e multiculturaliza\u00e7\u00e3o do Estado. Suas publica\u00e7\u00f5es mais recentes s\u00e3o <em>Nuevos retos del pluralismo jur\u00eddico en Am\u00e9rica Latina<\/em> (coordena\u00e7\u00e3o, edi\u00e7\u00e3o especial da revista <em>Cahiers des Ameriques Latines<\/em> 94, juntamente com Rebecca Igreja), <em>La justicia penal ind\u00edgena<\/em> (coord. juntamente com H\u00e9ctor Manuel Guzm\u00e1n e Jeannette Vel\u00e1zquez), <span class=\"small-caps\"><span class=\"small-caps\">ubijus<\/span><\/span><\/span><\/span>, 2019, e <em>Indigenous Peoples and the State in Mexico<\/em>. <em>La disputa por la justicia y los derechos<\/em>, <span class=\"small-caps\"><span class=\"small-caps\">ciesas<\/span><\/span><\/span>, 2017, juntamente com Santiago Bastos.<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O livro G\u00e9nero y etnicidad rar\u00e1muri en la ciudad de Chihuahua. 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A partir de uma perspectiva etnogr\u00e1fica e culturalmente situada, a autora oferece uma vis\u00e3o abrangente das rela\u00e7\u00f5es de g\u00eanero que s\u00e3o redefinidas no contexto urbano como parte de processos fortemente ligados \u00e0 etnia, \u00e0 desigualdade e \u00e0 subalternidade.<\/p>","protected":false},"author":8,"featured_media":35793,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[10],"tags":[948,485,947,946],"coauthors":[704],"class_list":["post-35791","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-10","tag-chihuahua","tag-mujeres-indigenas","tag-raramuris","tag-sierra-tarahumara","personas-maria-teresa-sierra-camacho","numeros-888"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v22.2 - https:\/\/yoast.com\/wordpress\/plugins\/seo\/ -->\n<title>Mujeres rar\u00e1muris urbanas. 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