{"id":35731,"date":"2022-03-21T20:41:36","date_gmt":"2022-03-21T20:41:36","guid":{"rendered":"https:\/\/encartes.mx\/?p=35731"},"modified":"2023-11-17T18:00:31","modified_gmt":"2023-11-18T00:00:31","slug":"sandoval-economia-bazar-puente-papa-monterrey","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/encartes.mx\/pt\/sandoval-economia-bazar-puente-papa-monterrey\/","title":{"rendered":"A economia do bazar na Ponte do Papa. Monterrey"},"content":{"rendered":"<h2 class=\"wp-block-heading\">Sum\u00e1rio<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"abstract\">O objetivo deste ensaio \u00e9 mostrar a coparticipa\u00e7\u00e3o dos comerciantes e das mercadorias na reprodu\u00e7\u00e3o de formas espec\u00edficas de fazer e ser no contexto mais amplo da realidade urbana. O ensaio consiste em uma reflex\u00e3o e em fotografias tiradas nos pontos de venda desses comerciantes. Ao caracterizar esse com\u00e9rcio como uma economia de bazar, o olhar \u00e9 direcionado para as mercadorias, seus tipos, caracter\u00edsticas e arranjos, incluindo os dos comerciantes. A centralidade geogr\u00e1fica do local dessa atividade \u00e9 contrastada com sua marginalidade em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 economia e aos discursos hegem\u00f4nicos da cidade. Assim como as mercadorias aqui encontram uma segunda ou terceira vida, os comerciantes parecem fazer o mesmo, conseguindo permanecer apesar de j\u00e1 terem sido descartados pelo mercado de trabalho e por outras circunst\u00e2ncias da vida. O ensaio \u00e9 composto de fotografias tiradas como parte de um projeto de trabalho de campo que visava entender a din\u00e2mica do com\u00e9rcio informal em Monterrey. Dentro dessa estrutura, esses comerciantes aparecem como o exemplo mais simples e claro da economia de bazar, que se repete, em alguns aspectos, nas centenas de tianguis da cidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"abstract\">Palavras-chave: <a href=\"https:\/\/encartes.mx\/pt\/tag\/chacharas\/\" rel=\"tag\">conversa<\/a>, <a href=\"https:\/\/encartes.mx\/pt\/tag\/comercio-de-desechos\/\" rel=\"tag\">com\u00e9rcio de res\u00edduos<\/a>, <a href=\"https:\/\/encartes.mx\/pt\/tag\/cultura-material\/\" rel=\"tag\">cultura material<\/a>, <a href=\"https:\/\/encartes.mx\/pt\/tag\/economia-del-bazar\/\" rel=\"tag\">economia de bazar<\/a>, <a href=\"https:\/\/encartes.mx\/pt\/tag\/mercancias-usadas\/\" rel=\"tag\">bens usados<\/a><\/p>\n\n\n\n<p class=\"en-title\"><span class=\"small-caps\">economia de bazar na puente del papa (ponte do papa). monterrey<\/span><\/p>\n\n\n\n<p class=\"abstract en-text\">O objetivo deste ensaio \u00e9 mostrar a coparticipa\u00e7\u00e3o de vendedores e mercadorias na reprodu\u00e7\u00e3o de formas espec\u00edficas de fazer e ser no contexto mais amplo da realidade urbana. O ensaio consiste em uma reflex\u00e3o e em fotografias tiradas no local em que os vendedores vendem suas mercadorias. Caracterizando essa forma de com\u00e9rcio como uma economia de bazar, o foco est\u00e1 nas mercadorias, em seu tipo, caracter\u00edsticas e disposi\u00e7\u00e3o, bem como nas dos vendedores. A centralidade geogr\u00e1fica da localiza\u00e7\u00e3o dessa atividade comercial contrasta com sua marginalidade em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 economia e aos discursos hegem\u00f4nicos da cidade. Da mesma forma que as mercadorias encontram uma segunda ou terceira vida aqui, os vendedores parecem conseguir o mesmo, permanecendo aqui apesar de terem sido descartados pelo mercado de trabalho e por outras circunst\u00e2ncias da vida. O ensaio \u00e9 composto de fotografias tiradas como parte de um trabalho de campo com o objetivo de conhecer a din\u00e2mica do com\u00e9rcio informal em Monterrey. Nesse contexto, esses vendedores s\u00e3o o exemplo mais simples e claro da economia de bazar que \u00e9 reproduzida, em certos aspectos, nas centenas de mercados espalhados pela cidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"abstract en-text\">Palavras-chave: economia de bazar, com\u00e9rcio de res\u00edduos, lixo, mercadorias usadas, cultura material.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Introdu\u00e7\u00e3o<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"has-drop-cap abstract\">A ponte do Papa<a class=\"anota\" id=\"anota1\" data-footnote=\"1\">1<\/a> atravessa o rio Santa Catarina<a class=\"anota\" id=\"anota2\" data-footnote=\"2\">2<\/a> e conecta a col\u00f4nia Independ\u00eancia<a class=\"anota\" id=\"anota3\" data-footnote=\"3\">3<\/a> (sul) com o centro de Monterrey (norte) e um de seus eixos mais importantes, a Avenida Ju\u00e1rez. O contraste entre os dois lados do rio \u00e9 evidente. Ao sul, uma \u00e1rea residencial populosa, ao norte, edif\u00edcios altos e modernos.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/archive.org\/download\/vol5num9-multimedia\/sandoval-economia-bazar-puente-papa-monterrey-image3.jpeg\" alt=\"\"\/><figcaption><a href=\"https:\/\/encartes.mx\/pt\/ensayos-fotograficos\/sandoval-economia-bazar-puente-papa-monterrey\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Clique para acessar o ensaio fotogr\u00e1fico.<\/a><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Desde suas origens (s\u00e9culo <span class=\"small-caps\">xix<\/span>), a ponte, originalmente chamada de San Luisito, serviu como um local de com\u00e9rcio (Morado, 1994; Sandoval Hern\u00e1ndez e Escamilla, 2010). At\u00e9 2010, embaixo da ponte ficava o maior mercado da cidade para a venda de objetos usados, \"la pulga del Puente del Papa\". Hoje, os comerciantes que se juntaram ao turbilh\u00e3o comercial de \"la pulga\" continuam a se instalar todos os fins de semana, e outros o fazem permanentemente em pequenas instala\u00e7\u00f5es prec\u00e1rias localizadas aos p\u00e9s da ponte. Esses comerciantes s\u00e3o um vest\u00edgio do lend\u00e1rio e prec\u00e1rio com\u00e9rcio que sempre ocorreu nessa \u00e1rea da cidade; eles tamb\u00e9m representam uma maneira muito peculiar de fazer neg\u00f3cios, \u00e0 qual este ensaio \u00e9 dedicado.<\/p>\n\n\n\n<p>O objetivo deste documento \u00e9 mostrar a coparticipa\u00e7\u00e3o (Gell, 1998).<a class=\"anota\" id=\"anota4\" data-footnote=\"4\">4<\/a> de comerciantes e mercadorias na reprodu\u00e7\u00e3o de formas particulares de fazer e ser no contexto mais amplo da realidade urbana. Isso significa que os comerciantes e os objetos (mercadorias) juntos representam um modo de fazer e de ser que n\u00e3o pode ser entendido separadamente. O tipo de mercadoria e a maneira como ela \u00e9 descartada, valorizada e comercializada expressam a maneira como esses mesmos comerciantes criam um lugar para si na cidade ou, em outras palavras, a descri\u00e7\u00e3o do tipo de comerciante pressup\u00f5e o tipo de mercadoria que ele comercializa, e a descri\u00e7\u00e3o das mercadorias tamb\u00e9m pressup\u00f5e um certo tipo de comerciante. Isso justifica a import\u00e2ncia de mostrar esse modo de ser por meio de imagens que mostram a disposi\u00e7\u00e3o e a variedade das mercadorias, mas tamb\u00e9m a posi\u00e7\u00e3o dos comerciantes diante delas e no pr\u00f3prio espa\u00e7o de vendas. Juntos, a mercadoria e os comerciantes manifestam um lugar e um modo de ser na sociedade.<\/p>\n\n\n\n<p>Os comerciantes, as mercadorias e as formas de ser e estar na economia da Puente del Papa fazem parte do social e, portanto, do que se \u00e9 em uma sociedade. Esses comerciantes, longe de representarem a cultura generalizada do esfor\u00e7o em Monterrey, s\u00e3o parte do social e, portanto, do que se \u00e9 em uma sociedade,<a class=\"anota\" id=\"anota5\" data-footnote=\"5\">5<\/a> permanecem marginais, minorit\u00e1rias e \u00e0 margem, embora estejam localizadas em um dos pontos geogr\u00e1ficos mais centrais da cidade para suas vendas,<a class=\"anota\" id=\"anota6\" data-footnote=\"6\">6<\/a> Mas eles fazem isso de forma improvisada, desordenada e prec\u00e1ria, e sua perman\u00eancia no ponto de venda j\u00e1 \u00e9 um esfor\u00e7o para permanecer no turbilh\u00e3o da cidade.<\/p>\n\n\n\n<p>As circunst\u00e2ncias dos comerciantes e das mercadorias da Ponte do Papa e, acima de tudo, a atividade comercial que realizam, trazem \u00e0 mente a ideia de Clifford Geertz (1979) sobre a economia de bazar. Para ele, a economia de bazar refere-se a um sistema de rela\u00e7\u00f5es sociais centrado no com\u00e9rcio, em que o mercado \u00e9 uma institui\u00e7\u00e3o e um espa\u00e7o relacional no qual, mais do que balan\u00e7os econ\u00f4micos ou ac\u00famulo de lucros, o que importa \u00e9 \"a possibilidade de permanecer\" dentro do \"complexo sistema de rela\u00e7\u00f5es\".<\/p>\n\n\n\n<p>No espa\u00e7o do bazar, longe das l\u00f3gicas comerciais de tipo capitalista, os comerciantes, em vez de buscarem reconhecimento econ\u00f4mico ou social, buscam perman\u00eancia, como se, assim como as mercadorias que vendem, estivessem procurando \"vidas suplementares\" (Peraldi, 2001: 9). Assim, no bazar, as mercadorias podem ser vendidas por pe\u00e7a ou por centenas, a um pre\u00e7o diferente dependendo de quem quiser compr\u00e1-las, e elas podem \"retornar quase indefinidamente, em diferentes est\u00e1gios de sua vida\" (Peraldi, 2001: 19). Portanto, em vez de ser uma economia, o bazar \u00e9 um modo de vida, com uma <em>ethos<\/em> que se baseia em uma certa moralidade e valoriza\u00e7\u00e3o do trabalho, da aventura, das viagens e da estabilidade, diferente da <em>ethos <\/em>industrialismo que privilegia o pragmatismo ou \"o abandono de si mesmo no trabalho\" (Peraldi, 2007: 10). Entendendo isso <em>ethos <\/em>nos permite entender a sujeira, a desordem, a quebra, a incompletude, a instabilidade, a fragilidade e a precariedade das pr\u00f3prias mercadorias, dos pr\u00f3prios comerciantes e de uma forma de fazer neg\u00f3cios; e nos permite pensar na atividade de vender na Ponte do Papa como um lugar atribu\u00eddo a n\u00f3s pela for\u00e7a de sermos descartados pelo mercado de trabalho ou por outras restri\u00e7\u00f5es sociais, e como uma oportunidade de ser ou continuar sendo dentro da sociedade.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">\"Colheita\" na ponte do Papa<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"abstract\">Na cidade de Monterrey, na esquina leste da Rua Quer\u00e9taro com a Avenida Ignacio Morones Prieto, no que pode ser considerada uma das portas de entrada para o popular bairro Independencia, um grupo de comerciantes, em sua maioria idosos, vende produtos usados. Em geral, s\u00e3o m\u00e1quinas, v\u00e1rias ferramentas e pe\u00e7as sobressalentes de encanamento e el\u00e9tricas, de parafusos a furadeiras, de uma junta a uma m\u00e1quina de polir. Al\u00e9m disso, eles vendem carregadores de celular, fitas cassete, molduras, videocassetes, sapatos, chap\u00e9us, enfeites de porcelana, brinquedos, moedas, acess\u00f3rios pessoais, roupas, controles remotos, aparelhos el\u00e9tricos, eletrodom\u00e9sticos, artesanato em lata, b\u00fassolas, patins, discos e outros itens. <span class=\"small-caps\">lp<\/span>A lista seria muito longa e sempre imprecisa. Todos os objetos s\u00e3o usados e antigos, a maioria deles tem algum defeito, foi reconstru\u00edda, est\u00e1 incompleta, suja ou prestes a perder seu valor de uso. A desordem reina nas instala\u00e7\u00f5es. V\u00e1rias delas merecem ser descritas como pocilgas. Do lado de fora, os lojistas ficam boa parte do dia sentados em uma cadeira de balan\u00e7o ou banco velho, conversando ou simplesmente esperando o tempo passar. Os clientes s\u00e3o escassos.<\/p>\n\n\n\n<p>No mesmo cruzamento, mas no lado oeste, est\u00e1 o mercado D\u00edaz Ordaz. Fundado em 1979 (Sandoval Hern\u00e1ndez e Escamilla, 2010: 169), ele abriga v\u00e1rias lojas que vendem alimentos, alguns peleiros, sal\u00f5es de beleza, um conhecido vendedor de discos antigos e uma pequena loja que vende uma grande variedade de alimentos. <span class=\"small-caps\">lp<\/span>. Muitas das lojas est\u00e3o abandonadas. Embora seja chamado de mercado, frutas e legumes s\u00e3o escassos aqui. A partir daqui, voc\u00ea pode acessar a extremidade sul da Ponte do Papa. Nesse local, conhecido por qualquer habitante da cidade, h\u00e1 v\u00e1rios vendedores que, seja em uma t\u00e1bua, uma caixa, uma mala, um pano, um pequeno dem\u00f4nio ou diretamente no ch\u00e3o, colocam suas mercadorias. Fazem isso somente nesse trecho da ponte porque h\u00e1 v\u00e1rias d\u00e9cadas as administra\u00e7\u00f5es municipais t\u00eam aplicado o crit\u00e9rio de impedir o com\u00e9rcio na ponte, sob o argumento de obstruir a passagem de pedestres na via p\u00fablica. Essa pol\u00edtica, que nesse caso \u00e9 aplicada a uma ponte de pedestres emblem\u00e1tica da cidade e localizada em duas das principais avenidas, obedece a uma moral que julga a atividade do com\u00e9rcio informal como algo negativo.<a class=\"anota\" id=\"anota7\" data-footnote=\"7\">7<\/a> Assim como seus colegas descritos no primeiro par\u00e1grafo, praticamente tudo o que \u00e9 vendido pelos comerciantes na extremidade sul da ponte s\u00e3o produtos de segunda m\u00e3o, exceto que aqui os itens predominantes s\u00e3o t\u00eanis, sapatos, camisetas, camisas, rel\u00f3gios, an\u00e9is, fitas cassete, filmes piratas ou em formato original. <span class=\"small-caps\">cd<\/span>, Beta ou <span class=\"small-caps\">vhs<\/span>Os vendedores desses itens foram encontrados no lixo, encontrados por acaso, trocados por outros itens ou roubados em algum momento. Aqueles que os vendem os recuperaram de um dep\u00f3sito de lixo, encontraram-nos por acaso, trocaram-nos por outros objetos ou os roubaram em algum momento. S\u00e3o itens que, gra\u00e7as a esses vendedores, parecem se agarrar a uma segunda, terceira ou quarta vida (Appadurai, 1991; Anstett e Ortar, 2015).<\/p>\n\n\n\n<p>Nenhum desses comerciantes oferece expressamente seus produtos aos vendedores. Aqui n\u00e3o se ouvem os gritos de \"bara, bara, bara\" ou \"ll\u00e9velo, ll\u00e9velo, ll\u00e9velo\", t\u00e3o comuns nos tianguis de Monterrey; em vez disso, eles permanecem sentados ou em p\u00e9 ao lado dos itens que trouxeram para vender. Eventualmente, eles movem sua barraca para seguir a sombra dos suportes da ponte. O sil\u00eancio e a solid\u00e3o predominam nesse cen\u00e1rio de vendas em particular.<\/p>\n\n\n\n<p>Nos finais de semana, outros comerciantes se juntam ao contingente e montam suas lojas na mesma \u00e1rea ou no p\u00e9 da escada na extremidade norte da ponte, na esquina leste das avenidas Ju\u00e1rez e Constituci\u00f3n. Esses cerca de trinta homens desafiam o <em>status quo<\/em>Eles ousam se envolver em com\u00e9rcio informal e vender produtos de segunda m\u00e3o praticamente na porta da luxuosa loja de Liverpool, dentro da qual, em uma atmosfera climatizada, limpa e musical, os produtos s\u00e3o oferecidos de forma organizada, muitos deles com marcas de empresas mundialmente famosas; l\u00e1 os clientes s\u00e3o atendidos por funcion\u00e1rios uniformizados com ternos de alfaiate.<\/p>\n\n\n\n<p>O edif\u00edcio Pabell\u00f3n M ergue-se majestosamente do outro lado da rua: 50 andares, um heliporto, centro de conven\u00e7\u00f5es, hotel, escrit\u00f3rios, shopping center, audit\u00f3rio e outras instala\u00e7\u00f5es comp\u00f5em a oferta do complexo. Ele \u00e9 anunciado em seu site <em>web <\/em>como \"o novo centro urbano de Monterrey\", sob o slogan \"Aqui come\u00e7a o futuro\".<a class=\"anota\" id=\"anota8\" data-footnote=\"8\">8<\/a> Essa novidade e esse futuro parecem saudar seus vizinhos de fim de semana, os comerciantes de coisas usadas, res\u00edduos ou sobras (Debary e Gabel, 2010). Eles, e esses, n\u00e3o representam o futuro, a modernidade, a limpeza, a legalidade, a formalidade, a burocratiza\u00e7\u00e3o, a ordem, a conectividade, a adaptabilidade, a mudan\u00e7a e a efici\u00eancia do mundo \"moderno\" e de \"sua\" economia. Em vez disso, eles parecem sua ant\u00edtese na forma de uma exist\u00eancia \"an\u00e1loga\" (Leonard, 2009) que representa algo que foi. O contraste \u00e9 \u00f3bvio. Assim, as mercadorias, a maneira como s\u00e3o exibidas e a pr\u00f3pria presen\u00e7a dos comerciantes se apresentam visualmente como uma \"desordem local\" (Peraldi, 2001: 13) em meio \u00e0 qual, ou por meio da qual, \u00e9 poss\u00edvel encontrar itens \"\u00fanicos\" e \"maravilhosos\" (Debary e Gabel, 2010: 123), muito espec\u00edficos, antigos, descontinuados ou que podem ser modificados para que tenham um novo uso. Aqui, encanadores, eletricistas e pedreiros aut\u00f4nomos encontram partes de uma ferramenta que desejam consertar, ou peda\u00e7os e pe\u00e7as para reconstruir um dispositivo descontinuado, mas tamb\u00e9m colecionadores e curiosos descobrem com admira\u00e7\u00e3o um item perdido ou a mem\u00f3ria de um passado que n\u00e3o est\u00e1 mais contida em um objeto materialmente vazio ou inutiliz\u00e1vel (Debary e Gabel, 2010).<\/p>\n\n\n\n<p>Os objetos transformados em mercadorias, assim como aqueles que os vendem, se apegam a uma exist\u00eancia. A venda aqui, mais do que uma forma de acumular lucro, \u00e9 mais uma maneira de ser, no sentido de ocupar um lugar. A venda de itens descartados, reconstru\u00eddos, recuperados, roubados ou usados atribui um lugar e oferece a oportunidade de estar dentro da sociedade.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Conclus\u00e3o<\/h2>\n\n\n\n<p>No contexto de uma sociedade que \u00e0s vezes parece empenhada em transformar certas exist\u00eancias em lixo (Tironi, 2019), o ato de vender dos comerciantes da Puente del Papa aparece como uma forma de se agarrar \u00e0 sua exist\u00eancia social e individual. N\u00e3o \u00e9 coincid\u00eancia o fato de que, quase exclusivamente nesse caso, s\u00e3o os idosos, aposentados ou ex-trabalhadores de algum of\u00edcio ou emprego que comercializam ali. Esse modo de ser \u00e9 objetivado nos restos de mercadorias, tecidos, lonas, caixotes, diabinhos, grampos, cordas e outros utens\u00edlios usados para montar o local de venda. Juntos, os comerciantes, as mercadorias e os utens\u00edlios manifestam um \"regime diferencial de alteridades\" (Peraldi, 2001) em um mundo dominado por rela\u00e7\u00f5es mercantilizadas. As alteridades que entram em rela\u00e7\u00e3o aqui s\u00e3o m\u00faltiplas, mas ao mesmo tempo s\u00e3o apenas uma, aquela que relaciona os econ\u00f4mica e socialmente desiguais e que se manifesta na fragilidade, eventualidade e marginalidade do espa\u00e7o de vendas do comerciante, em contraste com a majestade arquitet\u00f4nica de um pr\u00e9dio de 50 andares ou o conforto de uma loja de varejo com ar-condicionado.<\/p>\n\n\n\n<p>Os comerciantes da Pope's Bridge s\u00e3o a melhor e mais clara express\u00e3o da ess\u00eancia da economia do bazar. A perman\u00eancia de suas mercadorias em um peda\u00e7o de pano, uma lona, uma t\u00e1bua ou diretamente no ch\u00e3o; as caracter\u00edsticas das mercadorias (usadas, defeituosas, incompletas, sujas ou novas, mas baratas e quase descart\u00e1veis) e a possibilidade quase inexistente de sucesso comercial resumem um modo de ser, estar e permanecer que merece ser destacado apenas por si mesmo, sem qualificadores, porque a realiza\u00e7\u00e3o, o sucesso ou a acumula\u00e7\u00e3o nada mais s\u00e3o do que constru\u00e7\u00f5es arbitr\u00e1rias do que foi socialmente designado como o que se deve ser ou fingir ser em um mundo mercantilizado. A pessoa do comerciante e a qualidade do objeto das mercadorias que ele vende, em vez de serem tratadas como uma categoria dentro de uma estrutura legal, s\u00e3o o que deve direcionar o olhar do observador genu\u00edno.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Bibliografia<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"bibliography\" data-no-auto-translation=\"\">Anstett, \u00c9lisabeth y Nathalie Ortar (2015). \u201cIntroduction. Qu\u2019est-ce que r\u00e9cup\u00e9rer?\u201d, en \u00c9lisabeth Anstett y Nathalie Ortar (dir.), <em>La deuxi\u00e8me vie des objets. Recyclage et r\u00e9cup\u00e9ration dans les soci\u00e9t\u00e9s contemporaines<\/em>. Par\u00eds: \u00c9ditions <span class=\"small-caps\">petra<\/span>, pp. 7-12. https:\/\/doi.org\/10.7228\/manchester\/9780719097560.003.0011<\/p>\n\n\n\n<p class=\"bibliography\" data-no-auto-translation=\"\">Appadurai, Arjum (1991). \u201cIntroducci\u00f3n. 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M\u00e9xico: Anthropos \/ Universidad Aut\u00f3noma Metropolitana, pp. 171-186.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"bibliography\" data-no-auto-translation=\"\">Debary, Octave y Philippe Gabel (2010). \u201cSeconde main et deuxi\u00e8me vie\u201d. <em>M\u00e9langes de la Casa de Vel\u00e1zquez<\/em>, vol. 40, n\u00fam. 1, pp. 123-142. https:\/\/doi.org\/10.4000\/mcv.3343<\/p>\n\n\n\n<p class=\"bibliography\" data-no-auto-translation=\"\">Gallegos Cant\u00fa, Luz Ver\u00f3nica (2021, 11 de enero). \u201c\u00bfLobo, lobito, est\u00e1s ah\u00ed? La interconexi\u00f3n como tema de campa\u00f1a\u201d. <em>Academicxs de Monterrey 43<\/em> [sitio web]. 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Recuperado de https:\/\/www.museoreinasofia.es\/coleccion\/obra\/analogue-analogico, consultado el 11 de noviembre de 2021.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"bibliography\" data-no-auto-translation=\"\">Morado M., C\u00e9sar (1994). \u201cSan Luisito\u2026 un barrio, puente y mercado (1887-1992)\u201d, en Celso Garza Guajardo (comp.), <em>Historias de nuestros barrios<\/em>. Monterrey: Gobierno del Estado de Nuevo Le\u00f3n, pp. 306-322.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"bibliography\" data-no-auto-translation=\"\">Palacios Hern\u00e1ndez, Lylia (2020, 21 de enero). \u201cLa Loma Larga y el extractivismo urbano\u201d. <em>Acad\u00e9mic@s de Monterrey 43<\/em> [sitio web]. Recuperado de https:\/\/academicxsmty43.blog\/2019\/01\/21\/la-loma-larga-y-el-extractivismo-urbano-lylia-palacios\/, consultado el 12 de noviembre de 2021.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"bibliography\" data-no-auto-translation=\"\">\u2014 (2007). \u201cDe la cultura del trabajo a la cultura de la competitividad\u201d, en <em>Nuevo Le\u00f3n en el siglo <span class=\"small-caps\">xx<\/span>. Apertura y globalizaci\u00f3n, de la crisis de 1982 al fin de siglo<\/em>, t. <span class=\"small-caps\">iii<\/span>. Monterrey: Fondo Editorial Nuevo Le\u00f3n, pp. 163-196.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"bibliography\" data-no-auto-translation=\"\">Peraldi, Michel (2001). \u201cIntroduction\u201d, en Michel Peraldi (dir.), <em>Cabas et containers. Activit\u00e9s marchandes informelles et r\u00e9seaux migrants transfrontaliers.<\/em> Par\u00eds: Maisonneuve &amp; Larose y <span class=\"small-caps\">mmsh<\/span>, pp. 7-32.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"bibliography\" data-no-auto-translation=\"\">\u2014 (2007). \u201cAventuriers du nouveau capitalisme marchand. Essai d\u2019anthropologie de l\u2019\u00e9thique mercantile\u201d. <em>Ramses, working papers series<\/em>, pp. 3-23. Recuperado de https:\/\/www.academia.edu\/413168\/Michel_Peraldi_Aventuriers_du_nouveau_capitalisme_marchand._Essai_d_anthropologie_de_l_%C3%A9thique_mercantile, consultado 12 de noviembre de 2021.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"bibliography\" data-no-auto-translation=\"\">P\u00e9rez Daniels, Gustavo H. (2011). \u201cLa ciudad de Monterrey y los discursos locales de modernizacion: reconstruyendo la esfera p\u00fablica en 1933\u201d. <em>Estudios de Historia Moderna y Contemporanea de M\u00e9xico<\/em>, n\u00fam. 42, pp. 75-108. https:\/\/doi.org\/10.22201\/iih.24485004e.2011.42.30390<\/p>\n\n\n\n<p class=\"bibliography\" data-no-auto-translation=\"\">Ram\u00edrez, Eduardo (2009). <em>El triunfo de la cultura. Uso pol\u00edtico y econ\u00f3mico de la cultura en Monterrey.<\/em> Monterrey: Fondo Editorial Nuevo Le\u00f3n \/ Universidad Aut\u00f3noma de Nuevo Le\u00f3n.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"bibliography\" data-no-auto-translation=\"\">Sandoval Hern\u00e1ndez, Efr\u00e9n y Rodrigo Escamilla (2010). \u201cLa historia de una colonia, un puente y un mercado. La Pulga del Puente del Papa en Monterrey\u201d. <em>Estudios Fronterizos, <\/em>vol. 11, n\u00fam. 22, pp. 157-184. https:\/\/doi.org\/10.21670\/ref.2010.22.a06<\/p>\n\n\n\n<p class=\"bibliography\" data-no-auto-translation=\"\">Smith, Cintia, Nancy J. Garc\u00eda y Jes\u00fas D. P\u00e9rez (2008). \u201cAn\u00e1lisis de la ideolog\u00eda empresarial regiomontana. Un acercamiento a partir del peri\u00f3dico <em>El Norte<\/em>\u201d. <em><span class=\"small-caps\">con<\/span>fines<\/em>, n\u00fam. 4, vol. 7, pp. 11-25.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"bibliography\" data-no-auto-translation=\"\">Tironi, Mart\u00edn (2019). \u201cVidas desechables. Aprender a habitar el mundo\u201d, en <em>Revista Universitaria<\/em>, n\u00fam. 156, pp. 42-47. Recuperado de https:\/\/issuu.com\/visionuniversitaria\/docs\/ru156, consultado el 12 de noviembre de 2021.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"bibliography\" data-no-auto-translation=\"\">Veloquio Gonz\u00e1lez, Francisco (1988). \u201cIntroducci\u00f3n\u201d, en Sandra Arenal, <em>En Monterrey no s\u00f3lo hay ricos.<\/em> M\u00e9xico: Nuestro Tiempo, pp. 7-8. https:\/\/doi.org\/10.2307\/j.ctvhn096j.4<\/p>\n\n\n\n<p class=\"bibliography\" data-no-auto-translation=\"\">Z\u00fa\u00f1iga, V\u00edctor y \u00d3scar Contreras (1998). \u201cLa pobreza en Monterrey\u201d, en Luis Lauro Garza (coord.), <em>Nuevo Le\u00f3n hoy.<\/em> M\u00e9xico: La Jornada Ediciones \/ Universidad Aut\u00f3noma de Nuevo Le\u00f3n, pp. 65 \u2013 83.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n\n\n\n<p class=\"abstract\"><em>Efren Sandoval Hernandez<\/em> \u00e9 professor pesquisador na sede nordestina da Universidade de S\u00e3o Paulo. <span class=\"small-caps\">ciesas<\/span> (Monterrey). Ele \u00e9 membro do Sistema Nacional de Pesquisadores n\u00edvel 1. Seu trabalho trata de \"economias de fronteira\" na regi\u00e3o do nordeste do M\u00e9xico e do sul do Texas. Sua publica\u00e7\u00e3o mais recente \u00e9 (2020) \"Why do people buy fayuca in Monterrey's tianguis? <em>Alteridades<\/em>Em 2019, ele coordenou (junto com Martin Rosenfeld e Michel Peraldi) o livro <em>A fripe do norte ou do sul. Produ\u00e7\u00e3o global, com\u00e9rcio transfrontal e mercados informais de roupas usadas<\/em>\u00e9<em>s <\/em>(Paris: \u00c9ditions P\u00e9tra \/ <span class=\"small-caps\">imera<\/span> \/ <span class=\"small-caps\">ehess<\/span>). Ele lecionou em v\u00e1rias institui\u00e7\u00f5es nacionais e recebeu financiamento para sua pesquisa de institui\u00e7\u00f5es nacionais e internacionais.<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O objetivo deste ensaio \u00e9 mostrar a coparticipa\u00e7\u00e3o dos comerciantes e das mercadorias na reprodu\u00e7\u00e3o de formas espec\u00edficas de fazer e ser no contexto mais amplo da realidade urbana. O ensaio consiste em uma reflex\u00e3o e em fotografias tiradas nos pontos de venda desses comerciantes. Ao caracterizar esse com\u00e9rcio como uma economia de bazar, o olhar \u00e9 direcionado para as mercadorias, seus tipos, caracter\u00edsticas e arranjos, incluindo os dos comerciantes. A centralidade geogr\u00e1fica do local dessa atividade \u00e9 contrastada com sua marginalidade em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 economia e aos discursos hegem\u00f4nicos da cidade. Assim como as mercadorias aqui encontram uma segunda ou terceira vida, os comerciantes parecem fazer o mesmo, conseguindo permanecer apesar de j\u00e1 terem sido descartados pelo mercado de trabalho e por outras circunst\u00e2ncias da vida. O ensaio \u00e9 composto de fotografias tiradas como parte de um projeto de trabalho de campo que visava entender a din\u00e2mica do com\u00e9rcio informal em Monterrey. Dentro dessa estrutura, esses comerciantes aparecem como o exemplo mais simples e claro da economia de bazar, que se repete, em alguns aspectos, nas centenas de tianguis da cidade.<\/p>","protected":false},"author":8,"featured_media":35406,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[11],"tags":[934,933,936,932,935],"coauthors":[704],"class_list":["post-35731","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-11","tag-chacharas","tag-comercio-de-desechos","tag-cultura-material","tag-economia-del-bazar","tag-mercancias-usadas","personas-sandoval-hernandez-efren","numeros-888"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v22.2 - https:\/\/yoast.com\/wordpress\/plugins\/seo\/ -->\n<title>Econom\u00eda del bazar en el Puente del Papa. 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