{"id":32680,"date":"2020-09-19T07:07:07","date_gmt":"2020-09-19T07:07:07","guid":{"rendered":"https:\/\/encartesantropologicos.mx\/?p=32680"},"modified":"2024-04-24T13:46:32","modified_gmt":"2024-04-24T19:46:32","slug":"duran-resena-territorios-encarnados","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/encartes.mx\/pt\/duran-resena-territorios-encarnados\/","title":{"rendered":"Desafiando as territorialidades neoliberais: vidas, corpos e terras em disputa"},"content":{"rendered":"<p class=\"no-indent\"><span class=\"dropcap\">E<\/span>os \u00faltimos 30 anos, testemunhamos como a governan\u00e7a neoliberal acentua as diferen\u00e7as a fim de controlar e mercantilizar a vida e a natureza, tornando-as produtivas para o capitalismo global. Embora testemunhemos uma intensifica\u00e7\u00e3o dos tempos e espa\u00e7os de domina\u00e7\u00e3o, desapropria\u00e7\u00e3o e explora\u00e7\u00e3o, estamos lidando com uma renova\u00e7\u00e3o das formas coloniais de opress\u00e3o e acumula\u00e7\u00e3o sustentadas pelo racismo e pelo sexismo cont\u00ednuos e ressurgentes. Dessa forma, vivemos em uma batalha constante pelo controle e apropria\u00e7\u00e3o de vidas, corpos e territ\u00f3rios, onde observamos o entrela\u00e7amento dessas formas coloniais com a din\u00e2mica extrativista neoliberal. As mulheres ind\u00edgenas de baixa renda s\u00e3o, portanto, as que experimentam uma das faces mais cru\u00e9is desse sistema capitalista projetado na imagem da modernidade\/colonialidade. Entretanto, embora sofram cada vez mais viol\u00eancia, desapropria\u00e7\u00e3o, conflito e desigualdade, tamb\u00e9m observamos como elas n\u00e3o s\u00f3 conseguem sobreviver, mas tamb\u00e9m como algumas abrem novos espa\u00e7os de participa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica que desafiam as hierarquias \u00e9tnicas, de g\u00eanero e de classe e promovem <em>outros <\/em>formas de se relacionar com o territ\u00f3rio e a natureza. \u00c9 a\u00ed que reside a relev\u00e2ncia do trabalho de Ver\u00f3nica Vel\u00e1zquez.<\/p>\n\n\n\n<p>Seu livro <em>Territ\u00f3rios encarnados. Extrativismo, comunalismo e g\u00eanero no planalto de P'urh\u00e9pecha.<\/em>vencedora do Pr\u00eamio C\u00e1tedra Jorge Alonso 2019, a partir de uma perspectiva inspirada na antropologia, na geografia cr\u00edtica e no feminismo, nos mostra como o capitalismo afetou a vida cotidiana das mulheres P'urh\u00e9pecha em Zirosto e Cher\u00e1n (Michoac\u00e1n), favorecendo a viol\u00eancia e acentuando a precariedade dos corpos, das vidas e da terra. Por meio de uma etnografia comprometida e \u00e9tica, essa jovem antrop\u00f3loga compartilha suas experi\u00eancias e li\u00e7\u00f5es aprendidas ao trabalhar com elas nos campos de abacate de Zirosto, na regi\u00e3o de Cher\u00e1n. <em>bagas <\/em>em Los Reyes e no viveiro florestal de Cher\u00e1n. Com uma narra\u00e7\u00e3o detalhada, ela nos faz mergulhar no que significa viver e trabalhar como mulher nesses espa\u00e7os criados sob uma l\u00f3gica capitalista, racista e patriarcal. Seu trabalho mostra a criatividade e o comprometimento que devemos ter em nosso trabalho investigativo, ao mesmo tempo em que exp\u00f5e o medo, a viol\u00eancia e os riscos di\u00e1rios que vivenciamos em um M\u00e9xico cada vez mais dilacerado pela guerra \u00e0s drogas. Ao dizer isso, a autora nos aponta para algo que tem sido apontado nas discuss\u00f5es sobre extrativismo, que \u00e9 a estreita articula\u00e7\u00e3o na Am\u00e9rica Latina entre o tr\u00e1fico de drogas, a acumula\u00e7\u00e3o por desapropria\u00e7\u00e3o e o avan\u00e7o da viol\u00eancia. Aqui, n\u00e3o apenas as terras s\u00e3o disputadas entre diferentes sujeitos locais, nacionais e transnacionais, mas tamb\u00e9m as vidas e os corpos de mulheres como as do plat\u00f4 P'urh\u00e9pecha.<\/p>\n\n\n\n<p>Silvia Federici (2004) nos convida a n\u00e3o perder de vista a continuidade das formas pelas quais o capitalismo se desenvolveu e hoje se manifesta na viol\u00eancia aguda contra as mulheres. Nessa linha, Ver\u00f3nica aponta certos paralelos com modelos de desenvolvimento anteriores, ao mesmo tempo em que mostra como as opress\u00f5es sofridas historicamente aumentam a vulnerabilidade dos corpos das mulheres P'urh\u00e9pecha. O acesso \u00e0 terra, a posse da terra e a gest\u00e3o da terra, atividades \"masculinas\", marcam, portanto, a forma atual de integra\u00e7\u00e3o ou n\u00e3o das mulheres no mercado de trabalho e na vida comunit\u00e1ria. Para a autora, o que essas mulheres vivenciam \u00e9, seguindo Gladys Tzul Tzul (2016), uma inclus\u00e3o diferenciada no tecido comunit\u00e1rio, uma vez que o uso da terra \u00e9 transmitido patrilinearmente. Ao mesmo tempo, a <em>kaxumbekua<\/em> (honra), ela aponta, tem funcionado como um dispositivo de controle para manter a subordina\u00e7\u00e3o das mulheres \u00e0 l\u00f3gica patriarcal. Assim, a autora narra diferentes pr\u00e1ticas, como o roubo de noivas e a resid\u00eancia local patriarcal, como formas de manter inalterada a ordem de g\u00eanero e perpetuar a viol\u00eancia contra as mulheres. Da mesma forma, os homens, ao monopolizarem a gest\u00e3o da governan\u00e7a comunit\u00e1ria e dos espa\u00e7os p\u00fablicos, silenciaram as vozes das mulheres, mantendo o controle e a vigil\u00e2ncia de seus corpos e relegando-as ao espa\u00e7o privado\/dom\u00e9stico. Talvez, para mim, esse seja o ponto fraco do livro, pois ele nos deixa \u00e0 espera de uma an\u00e1lise mais profunda, enquadrada em discuss\u00f5es sobre o entrela\u00e7amento do moderno e do colonial.<\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, o trabalho de Ver\u00f3nica nos fornece insights importantes sobre as consequ\u00eancias das transforma\u00e7\u00f5es que est\u00e3o ocorrendo na regi\u00e3o. Uma das maiores mudan\u00e7as pode ser vista na forma como, seguindo a l\u00f3gica do mercado e as hierarquias de g\u00eanero, o sistema agr\u00edcola tradicional est\u00e1 sendo eliminado para dar lugar \u00e0 ind\u00fastria de agroexporta\u00e7\u00e3o. Isso aponta para o fato de que as corpora\u00e7\u00f5es transnacionais est\u00e3o ditando o que, como e para quem produzir. Isso levou a uma mudan\u00e7a nos ritmos de vida para seguir os tempos de produ\u00e7\u00e3o e os modos de vida que favorecem o capital estrangeiro. N\u00e3o apenas isso, mas, conforme analisado no trabalho de Judith Butler, os corpos das mulheres que agora s\u00e3o diaristas s\u00e3o precarizados, violados e descartados. Ela nos conta, por exemplo, como as doen\u00e7as em Zirosto surgiram devido \u00e0 contamina\u00e7\u00e3o de seus corpos na agroind\u00fastria do <em>bagas<\/em>. Para eles, c\u00e2ncer de pele, l\u00fapus e crian\u00e7as com malforma\u00e7\u00f5es cong\u00eanitas est\u00e3o se tornando ocorr\u00eancias di\u00e1rias. O que est\u00e1 acontecendo com eles n\u00e3o \u00e9 algo excepcional, mas, em todo o pa\u00eds, tornou-se evidente como alguns corpos n\u00e3o valem nada dentro desse sistema pol\u00edtico-econ\u00f4mico. Esse \u00e9 o caso das comunidades de Mezcala e San Pedro Itzic\u00e1n (Jalisco), onde a \u00e1gua contaminada foi identificada como a causa da morte de crian\u00e7as por insufici\u00eancia renal (Jacobo Contreras, 2018). No entanto, o governo preferiu desviar o olhar das ind\u00fastrias que descartam seus res\u00edduos na bacia hidrogr\u00e1fica de Lerma-Chapala-Santiago, pois h\u00e1 muitos interesses econ\u00f4micos e pol\u00edticos em jogo. O desenvolvimento acarreta custos e danos colaterais, e essas mortes s\u00f3 s\u00e3o consideradas nesses termos pelas redes de poder.<\/p>\n\n\n\n<p>Na mesma linha, Ver\u00f4nica, usando a perspectiva da interseccionalidade desenvolvida pelas feministas de cor, mostra como o agroneg\u00f3cio usa diferentes classifica\u00e7\u00f5es sociais para perpetuar as condi\u00e7\u00f5es prec\u00e1rias de emprego, ao mesmo tempo em que aumenta a viol\u00eancia e as inseguran\u00e7as na vida dessas mulheres. Ela usa a no\u00e7\u00e3o de \"corpo diferenciado\" para entender como as territorialidades neoliberais aumentam e cruzam as diferentes opress\u00f5es incorporadas nos corpos dessas diaristas, a fim de gerar mais lucros e favorecer determinados setores locais e internacionais. \u00c9 um mecanismo para perpetuar e acentuar a domina\u00e7\u00e3o em benef\u00edcio do capital transnacional que traz consigo a transforma\u00e7\u00e3o da economia local e das paisagens naturais, a dispers\u00e3o e a fragmenta\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o e a precariedade da vida das mulheres. O que est\u00e1 acontecendo com as mulheres P'urh\u00e9pecha n\u00e3o \u00e9 exclusivo; de fato, as mulheres ind\u00edgenas diaristas do vale de San Quint\u00edn apresentam uma situa\u00e7\u00e3o semelhante, em que a viol\u00eancia, a precariedade, os baixos sal\u00e1rios e a marginaliza\u00e7\u00e3o se tornaram parte de sua vida cotidiana (Ni\u00f1o Contreras, 2004). <em>et al<\/em>., 2016). Assim, o trabalho de Ver\u00f3nica nos ajuda a entender as consequ\u00eancias desse modelo extrativista em nosso pa\u00eds, que n\u00e3o s\u00e3o vistas apenas na esfera pessoal e profissional, mas tamb\u00e9m na comunidade, onde as tens\u00f5es e a estigmatiza\u00e7\u00e3o das mulheres est\u00e3o crescendo.<\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, o autor identifica que diferentes territorialidades convergem no plat\u00f4 de P'urh\u00e9pecha, ou seja, h\u00e1 diferentes respostas espaciais aos processos de desapropria\u00e7\u00e3o. Em Zirosto, por um lado, elas s\u00e3o inseridas no modelo agroexportador seguindo l\u00f3gicas espaciais neoliberais e de acumula\u00e7\u00e3o capitalista; por outro lado, em Cher\u00e1n, h\u00e1 uma busca pelo bem comum, pelo valor de uso em uma perspectiva etnoecol\u00f3gica. Sem perder de vista as contradi\u00e7\u00f5es, as ambiguidades e os problemas internos enfrentados por essas comunidades, ele aponta que est\u00e3o surgindo diferentes configura\u00e7\u00f5es de comunalismo, mas questiona se esses comunalismos emergentes s\u00e3o realmente uma alternativa \u00e0s geografias capitalistas. Aqui \u00e9 fundamental entender o papel que as mulheres desempenham em sua configura\u00e7\u00e3o. Sem d\u00favida, h\u00e1 diferentes maneiras de ser mulher no planalto de P'urh\u00e9pecha, mas \u00e9 importante observar os avan\u00e7os que algumas delas fazem na cria\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas comunit\u00e1rias mais inclusivas. Uma das grandes contribui\u00e7\u00f5es do livro \u00e9, nesse sentido, a esperan\u00e7a que ele tece por meio da vida de tr\u00eas mulheres l\u00edderes em Cher\u00e1n, que, de diferentes maneiras, est\u00e3o desafiando as hierarquias de g\u00eanero para entrar no espa\u00e7o p\u00fablico, ao mesmo tempo em que reivindicam sua etnia, seu conhecimento e suas pr\u00e1ticas ligadas \u00e0 defesa do territ\u00f3rio.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 gra\u00e7as a eles que Veronica percebe a cria\u00e7\u00e3o de uma territorialidade contra-hegem\u00f4nica em que a participa\u00e7\u00e3o p\u00fablica \u00e9 ampliada, as florestas comunit\u00e1rias s\u00e3o reconstitu\u00eddas, a sustentabilidade ambiental \u00e9 buscada, os la\u00e7os comunit\u00e1rios s\u00e3o fortalecidos, sentidos inclusivos e coletivos de vida e justi\u00e7a s\u00e3o proporcionados e uma territorialidade ancestral\/sagrada e \u00e9tnica \u00e9 recuperada juntamente com sua carga simb\u00f3lica-identit\u00e1ria. <em>Territ\u00f3rios encarnados<\/em>Dessa forma, ela contribui para uma conceitualiza\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o-territ\u00f3rio que vai al\u00e9m das vis\u00f5es masculinas e capitalistas. Para Ver\u00f4nica, h\u00e1 outras formas de se relacionar com o territ\u00f3rio, de <em>Sentipensarlo<\/em>como diria Arturo Escobar, onde o conhecimento local \u00e9 revalorizado e articulado com o cuidado da vida e da natureza. O extrativismo inscreveu nos territ\u00f3rios e nos corpos os ideais de um desenvolvimento neoliberal predat\u00f3rio que hoje amea\u00e7a as comunidades ind\u00edgenas com sua expans\u00e3o, por meio da implementa\u00e7\u00e3o de uma s\u00e9rie de megaprojetos; felizmente, trabalhos como o de Ver\u00f4nica, a partir das margens, alimentam nossa reflex\u00e3o e busca de alternativas coletivas para deter o \u00edmpeto das territorialidades neoliberais.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Bibliografia<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"bibliography\" data-no-auto-translation=\"\">Federici, Silvia (2004). <em>Caliban and the Witch. <\/em>Nueva York: Autonomedia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"bibliography\" data-no-auto-translation=\"\">Jacobo Contreras, Manuel Alejandro (2018). \u201cLa justicia simulada: persistencia de enfermos renales\u201d, en In\u00e9s Dur\u00e1n Matute y Roc\u00edo Moreno (ed.), <em>Voces del M\u00e9xico de abajo. Reflexiones en torno a la propuesta del cig. <\/em>Guadalajara: C\u00e1tedra Jorge Alonso, pp. 251-260<em>. Recuperado de <\/em>http:\/\/www.catedraalonso-ciesas.udg.mx\/sites\/default\/files\/voces_del_mexico.pdf, consultado el 16 de julio de 2020.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"bibliography\" data-no-auto-translation=\"\">Ni\u00f1o Contreras, Lya Margarita, Jos\u00e9 Moreno Mena y Amalia Tello Torralba (2016). \u201cLa Casa de la Mujer Ind\u00edgena en San Quint\u00edn: experiencia de creaci\u00f3n, obst\u00e1culos y retos\u201d, <em>Diario de Campo<\/em>, n\u00fam. 12, pp. 7-16. Recuperado de https:\/\/www.revistas.inah.gob.mx\/index.php\/diariodecampo\/article\/view\/9780\/0, consultado el 16 de julio de 2020.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"bibliography\" data-no-auto-translation=\"\">Tzul Tzul, Gladys (2016). <em>Sistemas de gobierno comunal ind\u00edgena: mujeres y tramas de parentesco en Chuimeq\u2019ena\u2019<\/em>. Guatemala: Editorial Maya Wuj.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n\n\n\n<p><em>In\u00e9s Dur\u00e1n Matute <\/em>\u00e9 PhD em Ci\u00eancias Sociais pela Universidade de Sydney, Austr\u00e1lia. Concluiu uma bolsa de p\u00f3s-doutorado no Centro de Investigaciones y Estudios Superiores en Antropolog\u00eda Social (ciesas), West Branch, e outra no Institute for Research on Labor and Employment, University of California Los Angeles (ucla). Atualmente, \u00e9 bolsista de p\u00f3s-doutorado no International Research Group on Authoritarianism and Counter-Strategies, Rosa Luxemburg Stiftung, Alemanha, e na Graduate School of Sociology, Institute of Social Sciences and Humanities, Benem\u00e9rita Universidad Aut\u00f3noma de Puebla. Ela trabalha a partir de uma postura ativista em apoio \u00e0 luta nacional dos povos ind\u00edgenas em defesa de seus territ\u00f3rios, identidade, hist\u00f3ria, direitos e modos de vida. Suas publica\u00e7\u00f5es recentes incluem <em>Povos ind\u00edgenas e geografias do poder. Narrativas de Mezcala sobre governan\u00e7a neoliberal.<\/em> (2019) e \"Indigeneity as a transnational battlefield: disputes over meanings, spaces and peoples\", Globalizations (2020). <span class=\"small-caps\">orcid<\/span>: 0000-0001-8430-6223.<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p class=\"translation-block\"><span class=\"dropcap\">D<\/span>De uma perspectiva inspirada na antropologia, na geografia cr\u00edtica e no feminismo, ela nos mostra como o capitalismo afetou a vida cotidiana das mulheres P'urh\u00e9pecha em Zirosto e Cher\u00e1n (Michoac\u00e1n), favorecendo a viol\u00eancia e acentuando a precariedade dos corpos, das vidas e da terra.<\/p>","protected":false},"author":4,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[10],"tags":[],"coauthors":[551],"class_list":["post-32680","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-10","personas-matute-duran-ines","numeros-627"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v22.2 - https:\/\/yoast.com\/wordpress\/plugins\/seo\/ -->\n<title>Desaf\u00edo a las territorialidades neoliberales &#8211; 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