{"id":31269,"date":"2019-09-23T13:54:53","date_gmt":"2019-09-23T13:54:53","guid":{"rendered":"https:\/\/encartesantropologicos.mx\/wordpress\/?p=31269"},"modified":"2023-11-17T18:50:41","modified_gmt":"2023-11-18T00:50:41","slug":"antagonismo-politizacion-social-america-latina","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/encartes.mx\/pt\/antagonismo-politizacion-social-america-latina\/","title":{"rendered":"O antagonismo das lutas em defesa da vida como um processo de repolitiza\u00e7\u00e3o do social na Am\u00e9rica Latina. Um di\u00e1logo com Juan Pablo P\u00e9rez S\u00e1inz"},"content":{"rendered":"<h2 class=\"wp-block-heading\">Sum\u00e1rio<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"abstract\">Neste texto, apresento um coment\u00e1rio sobre o ensaio \"Inequalities and the re-politicisation of the social in Latin America\", de Juan Pablo P\u00e9rez S\u00e1inz. Com base na abordagem cr\u00edtica que o autor prop\u00f5e aos processos de repolitiza\u00e7\u00e3o do social e de (des)empoderamento, provocados pelas profundas muta\u00e7\u00f5es da ordem (neo)liberal, realizo um exerc\u00edcio de di\u00e1logo, expans\u00e3o e retroalimenta\u00e7\u00e3o em termos de conflitos e respostas coletivas, com anseios e possibilidades transformadoras em contextos de conflito socioambiental. Em particular, apresento alguns tra\u00e7os do antagonismo social das lutas comunit\u00e1rias em defesa da vida diante da ofensiva extrativista sobre os territ\u00f3rios e os meios de subsist\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"abstract\">Palavras-chave: <a href=\"https:\/\/encartes.mx\/pt\/tag\/desempoderamiento\/\" rel=\"tag\">(Des)capacita\u00e7\u00e3o<\/a>, <a href=\"https:\/\/encartes.mx\/pt\/tag\/antagonismo-social\/\" rel=\"tag\">antagonismo social<\/a>, <a href=\"https:\/\/encartes.mx\/pt\/tag\/conflictividad-socioambiental\/\" rel=\"tag\">conflito socioambiental<\/a>, <a href=\"https:\/\/encartes.mx\/pt\/tag\/extractivismo\/\" rel=\"tag\">extrativismo<\/a>, <a href=\"https:\/\/encartes.mx\/pt\/tag\/luchas-en-defensa-de-la-vida\/\" rel=\"tag\">lutas em defesa da vida<\/a>, <a href=\"https:\/\/encartes.mx\/pt\/tag\/re-politizacion-de-lo-social\/\" rel=\"tag\">Repolitiza\u00e7\u00e3o do social<\/a><\/p>\n\n\n\n<p class=\"abstract\"><span class=\"small-caps\"><p class=\"en-title\">Antagonismos nas lutas pela defesa da vida como processos de repolitiza\u00e7\u00e3o social na Am\u00e9rica Latina: um di\u00e1logo com Juan Pablo P\u00e9rez S\u00e1inz<\/p><br><\/span><\/p>\n\n\n\n<p class=\"abstract en-text\">Meu ensaio apresenta um coment\u00e1rio sobre o estudo de Juan Pablo P\u00e9rez S\u00e1inz intitulado \"<em>Desigualdades e a re-politiza\u00e7\u00e3o das quest\u00f5es sociais na Am\u00e9rica Latina<\/em>\"(\"Inequalities and the Re-Politicization of the Social in Latin America\"). Usando uma abordagem cr\u00edtica que o autor prop\u00f5e para os processos de repolitiza\u00e7\u00e3o do social, bem como de (des)empoderamento, ambos provocados por mudan\u00e7as radicais na ordem (neo)liberal, fa\u00e7o um exerc\u00edcio de di\u00e1logo, expans\u00e3o e feedback com rela\u00e7\u00e3o a conflitos e respostas coletivas, anseios e possibilidades transformadoras em contextos de conflito socioambiental. Em particular, apresento esbo\u00e7os do antagonismo social das lutas comunit\u00e1rias que defendem a vida contra a agress\u00e3o extrativista que ataca territ\u00f3rios e meios de subsist\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"abstract en-text\">Palavras-chave: Repolitiza\u00e7\u00e3o do social, (des)capacita\u00e7\u00e3o, antagonismo social, lutas em defesa da vida, conflito socioambiental, extrativismo.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n\n\n\n<p class=\"abstract\"><span class=\"dropcap\">R<\/span>proposta do autor de apresentar uma abordagem cr\u00edtica e geral para entender os complexos processos de repolitiza\u00e7\u00e3o do social causados pelas diversas pol\u00edticas e din\u00e2micas da ordem (neo)liberal na Am\u00e9rica Latina \u00e9 extremamente interessante. Para atingir esse objetivo, ele se prop\u00f5e a seguir dois caminhos: por um lado, a partir das chaves do poder e do conflito (encoberto, latente, aberto), entender as desigualdades como processos de (des)empoderamento, que tornaram mais prec\u00e1rias as condi\u00e7\u00f5es de exist\u00eancia de grande parte da popula\u00e7\u00e3o. E, por outro lado, tra\u00e7ar as diferentes respostas dos setores afetados aos processos de desempoderamento por meio da viol\u00eancia, a sa\u00edda que se materializa na migra\u00e7\u00e3o, o caminho m\u00e1gico que busca ref\u00fagio na religiosidade e a a\u00e7\u00e3o coletiva que pode levar \u00e0 forma\u00e7\u00e3o de movimentos sociais.<\/p>\n\n\n\n<p>Neste texto, pretendo explorar uma das din\u00e2micas de extremo (des)empoderamento que o autor identifica, \u00e0 luz dos processos de controle territorial e exclus\u00e3o dos pequenos propriet\u00e1rios da globaliza\u00e7\u00e3o. Em outros trabalhos, identificamos esse fen\u00f4meno como parte de uma ofensiva extrativista (Composto e Navarro, 2014: 48), no \u00e2mbito do modo de acumula\u00e7\u00e3o capitalista que se intensificou nas duas \u00faltimas d\u00e9cadas e deixou um rastro de impactos socioambientais, a maioria deles irrevers\u00edveis, e o surgimento de um processo acirrado de conflitos, liderado principalmente por lutas comunit\u00e1rias, ind\u00edgenas e camponesas em defesa da vida.<a class=\"anota\" id=\"anota1\" data-footnote=\"1\">1<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Um ponto de partida inescap\u00e1vel na compreens\u00e3o cr\u00edtica dos conflitos socioambientais \u00e9 reconhecer que a desapropria\u00e7\u00e3o e a viol\u00eancia s\u00e3o constitutivas da l\u00f3gica da acumula\u00e7\u00e3o de capital, ou seja, que elas n\u00e3o s\u00e3o apenas o resultado da acumula\u00e7\u00e3o de capital, mas tamb\u00e9m da acumula\u00e7\u00e3o de capital,<br>n\u00e3o s\u00e3o mem\u00f3rias fixadas em um passado remoto e superadas quando a modernidade e suas promessas de abund\u00e2ncia foram alcan\u00e7adas, nem s\u00e3o uma condi\u00e7\u00e3o excepcional, an\u00f4mala, acidental ou, como aponta a economia neocl\u00e1ssica, alguma falha do mercado ou do Estado. Pelo contr\u00e1rio, o capitalismo tem respondido historicamente a uma din\u00e2mica de constante expans\u00e3o e apropria\u00e7\u00e3o da natureza humana e n\u00e3o humana, a fim de convert\u00ea-la em valor e garantir sua pr\u00f3pria reprodu\u00e7\u00e3o. Para isso, por meio da viol\u00eancia, gerou transforma\u00e7\u00f5es cada vez mais radicais no tecido da vida (Moore, 2015),<a class=\"anota\" id=\"anota2\" data-footnote=\"2\">2<\/a> A elimina\u00e7\u00e3o e a desarticula\u00e7\u00e3o de formas de vida humanas e n\u00e3o humanas organizadas em interdepend\u00eancia, como garantia da sustentabilidade da vida no planeta.<a class=\"anota\" id=\"anota3\" data-footnote=\"3\">3<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Sob o neoliberalismo, essas din\u00e2micas de desapropria\u00e7\u00e3o foram radicalizadas por meio do extrativismo, subsumindo as esferas da vida que n\u00e3o est\u00e3o totalmente incorporadas \u00e0 l\u00f3gica do valor e separando homens e mulheres de suas vidas. <em>meios de exist\u00eancia<\/em>,<a class=\"anota\" id=\"anota4\" data-footnote=\"4\">4<\/a> a fim de ter as condi\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias para sua explora\u00e7\u00e3o. Essa modalidade de acumula\u00e7\u00e3o opera a partir do que Santos (2001) chama de \"descoberta imperial\", na medida em que o descobridor, no \u00e2mbito de uma diferen\u00e7a convertida em uma rela\u00e7\u00e3o desigual de poder e conhecimento, imp\u00f5e sua capacidade de declarar o outro como descoberto. E nessa a\u00e7\u00e3o de controle e submiss\u00e3o, a inferioridade \u00e9 crucial para legitimar o car\u00e1ter sacrificial de territ\u00f3rios e mundos de vida n\u00e3o totalmente inseridos na l\u00f3gica do valor. Em conson\u00e2ncia com P\u00e9rez Sa\u00ednz, dir\u00edamos que nos tempos atuais, a partir das l\u00f3gicas de poder, as diferen\u00e7as continuam sendo processadas em termos de desigualdade via inferioriza\u00e7\u00e3o e assimila\u00e7\u00e3o imposta (P\u00e9rez S\u00e1inz, 2014, 2016).<\/p>\n\n\n\n<p>Independentemente do signo pol\u00edtico, em todos os governos latino-americanos essa l\u00f3gica imperial se torna operativa por meio do que em outros trabalhos chamamos de dispositivos expropriat\u00f3rios, ou seja, uma ampla gama de estrat\u00e9gias legais de coopta\u00e7\u00e3o, repress\u00e3o, criminaliza\u00e7\u00e3o, militariza\u00e7\u00e3o e at\u00e9 mesmo contra-insurg\u00eancia sobre comunidades e territ\u00f3rios em disputa, para garantir a qualquer custo a abertura de novos espa\u00e7os de explora\u00e7\u00e3o e mercantiliza\u00e7\u00e3o. Nessa ofensiva, atores ligados ao capital nacional e transnacional aparecem, de m\u00e3os dadas com governos em suas diferentes esferas e n\u00edveis, em uma rela\u00e7\u00e3o progressivamente mais vis\u00edvel com atores ligados a economias criminosas e delinquentes (Composto e Navarro, 2014: 57).<\/p>\n\n\n\n<p>Claramente, uma das consequ\u00eancias da implanta\u00e7\u00e3o desse conjunto de estrat\u00e9gias s\u00e3o os processos de desempoderamento, que, em minha experi\u00eancia, pude entender como processos de desapropria\u00e7\u00e3o tanto material quanto pol\u00edtica. A desapropria\u00e7\u00e3o do pol\u00edtico inclui a desestrutura\u00e7\u00e3o do tecido social, a eros\u00e3o e a captura dos regulamentos comunit\u00e1rios de autogoverno e a expropria\u00e7\u00e3o das capacidades pol\u00edticas para a tomada de decis\u00f5es e a autodetermina\u00e7\u00e3o (Navarro, 2015).<\/p>\n\n\n\n<p>Um exemplo disso s\u00e3o os programas sociais direcionados dos governos e as a\u00e7\u00f5es das empresas por meio da chamada Responsabilidade Social Corporativa (RSC).<span class=\"small-caps\">rse<\/span>)<a class=\"anota\" id=\"anota5\" data-footnote=\"5\">5<\/a>&gt; para conter as demandas sociais locais e gerar apoio e lealdade para sustentar o desenvolvimento de empreendimentos extrativistas. O soci\u00f3logo Claudio Garibay Orozco afirma que, no caso das empresas de minera\u00e7\u00e3o, tende a ser imposto um regime autocr\u00e1tico-clientelista, cujo \u00e1pice reside na administra\u00e7\u00e3o da empresa, de onde s\u00e3o distribu\u00eddos benef\u00edcios seletivos e subordinadas as autoridades locais, que, por sua vez, reproduzem essa l\u00f3gica sobre o restante da comunidade (Garibay, 2010: 175-176). A principal consequ\u00eancia desse dispositivo de coopta\u00e7\u00e3o e captura \u00e9 a divis\u00e3o social que ocorre dentro das comunidades afetadas e seu confronto, o que resulta no aprofundamento da subjuga\u00e7\u00e3o e das tens\u00f5es previamente existentes.<\/p>\n\n\n\n<p>Em outras palavras, a entrada e a implementa\u00e7\u00e3o de megaprojetos envolvem um processo de desconstru\u00e7\u00e3o da comunidade e das capacidades dos produtores para a determina\u00e7\u00e3o aut\u00f4noma de seus meios de exist\u00eancia. Em termos hist\u00f3ricos, vemos que, sob os ditames do capital, a socializa\u00e7\u00e3o da comunidade foi gradualmente substitu\u00edda por uma socializa\u00e7\u00e3o baseada no mercado, na qual o indiv\u00edduo-cidad\u00e3o-consumidor \u00e9 apresentado como o prot\u00f3tipo e a unidade de funcionamento das sociedades modernas. Nesse contexto, o Estado tem desempenhado um papel fundamental na garantia de uma rela\u00e7\u00e3o de domina\u00e7\u00e3o, aparecendo como uma inst\u00e2ncia aparentemente estranha e externa \u00e0 sociedade, cujo objetivo \u00e9 cuidar do bem geral. Nessa l\u00f3gica, a representa\u00e7\u00e3o, como princ\u00edpio que organiza as rela\u00e7\u00f5es de separa\u00e7\u00e3o entre governantes e governados, expropria - em nome da soberania - a capacidade de decidir sobre o bem comum.<\/p>\n\n\n\n<p>Por sua vez, a l\u00f3gica da expropria\u00e7\u00e3o e da desapropria\u00e7\u00e3o pol\u00edtica corresponde a um processo de subjetiva\u00e7\u00e3o que busca moldar a percep\u00e7\u00e3o e o sentido do mundo das popula\u00e7\u00f5es que habitam um territ\u00f3rio em disputa, fragmentando o tecido da vida, encerrando a capacidade de imaginar, sentir e fazer a vida sob formas n\u00e3o ditadas pela hegemonia do capital. Assim, esses processos de subjetiva\u00e7\u00e3o t\u00eam como objetivo normalizar e naturalizar a desapropria\u00e7\u00e3o para, ao mesmo tempo, desativar qualquer insubordina\u00e7\u00e3o ou resist\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>Um dos n\u00edveis para conseguir isso \u00e9 a produ\u00e7\u00e3o de hegemonia que, nesses casos, geralmente \u00e9 alcan\u00e7ada por meio da dissemina\u00e7\u00e3o do \"progresso\", do \"desenvolvimento\" e da \"moderniza\u00e7\u00e3o\" como valores positivos de uma modernidade em andamento. A constru\u00e7\u00e3o de imagin\u00e1rios desenvolvimentistas em torno de megaprojetos, cuja \"miss\u00e3o\" \u00e9 disseminar seus benef\u00edcios entre as popula\u00e7\u00f5es que circundam sua \u00e1rea de influ\u00eancia, \u00e9 particularmente eficaz em localidades econ\u00f4mica e socialmente negligenciadas, onde o Estado n\u00e3o apareceu ou se retirou de seu papel de benfeitor e onde prevalece um sentimento de descompromisso (Navarro, 2015: 124). Dessa forma, a narrativa desenvolvimentista associada ao extrativismo busca gerar uma expectativa de inclus\u00e3o social, ocultando as consequ\u00eancias negativas desse tipo de perfil produtivo.<\/p>\n\n\n\n<p>O que \u00e9 certo \u00e9 que, apesar dos processos radicais de desapropria\u00e7\u00e3o e desempoderamento, concordo plenamente com P\u00e9rez S\u00e1inz quando diz que \"todo sujeito social, por mais desempoderado que seja, deve confrontar sua exist\u00eancia e lidar com ela. Isso implica compreender sua realidade, interpret\u00e1-la dando-lhe significados e desenvolvendo ferramentas para control\u00e1-la por meio da a\u00e7\u00e3o. Sem esses tr\u00eas mecanismos psicossociais b\u00e1sicos, n\u00e3o haveria a\u00e7\u00e3o social\" (P\u00e9rez Sa\u00ednz). Dessa forma, pode-se afirmar que a expropria\u00e7\u00e3o de sua ag\u00eancia nunca \u00e9 total, nem \u00e9 poss\u00edvel anular completamente a capacidade de resist\u00eancia dos sujeitos afetados.<\/p>\n\n\n\n<p>Um exemplo de mecanismos psicossociais s\u00e3o as milhares de lutas e resist\u00eancias, lideradas principalmente por comunidades ind\u00edgenas e camponesas, e segmentos da popula\u00e7\u00e3o urbana, que em toda a Am\u00e9rica Latina est\u00e3o se organizando para defender seus territ\u00f3rios e, em alguns casos, empreender a\u00e7\u00f5es para reconstituir a vida comunit\u00e1ria.<\/p>\n\n\n\n<p>Seguindo algumas pesquisas (Navarro, 2015; Composto e Navarro, 2014; Linsalata, 2016), vimos que a chegada de um projeto de desapropria\u00e7\u00e3o em uma comunidade \u00e9 vivenciada como um momento de perigo,<a class=\"anota\" id=\"anota6\" data-footnote=\"6\">6<\/a> Isso tende a desencadear a rearticula\u00e7\u00e3o de um tecido comunit\u00e1rio na luta pela defesa dos meios de subsist\u00eancia. Isso implica, ao mesmo tempo, um processo de recomposi\u00e7\u00e3o de la\u00e7os e v\u00ednculos sociais que, muitas vezes, s\u00e3o enfraquecidos ou desfeitos pela implanta\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica de rela\u00e7\u00f5es sociais capitalistas, patriarcais e coloniais e pela imposi\u00e7\u00e3o dos c\u00f3digos de socializa\u00e7\u00e3o individualista e mercantil nesses territ\u00f3rios.<\/p>\n\n\n\n<p>Na densidade hist\u00f3rica de muitas dessas lutas, a defesa da vida n\u00e3o pode ser explicada apenas como o surgimento de uma nova sensibilidade pol\u00edtica, mas como a atualiza\u00e7\u00e3o de uma forma de administrar o pol\u00edtico para organizar a pr\u00f3pria exist\u00eancia em interdepend\u00eancia com os outros, colocando a reprodu\u00e7\u00e3o da vida humana e n\u00e3o humana no centro. Isso se expressa em uma diversidade de processos para a reconstitui\u00e7\u00e3o da comunidade, que v\u00e3o desde o fortalecimento das institui\u00e7\u00f5es comunit\u00e1rias e formas de autogoverno, a reconstru\u00e7\u00e3o do tecido social, o aprofundamento do v\u00ednculo com a terra por meio, por exemplo, da implementa\u00e7\u00e3o de projetos produtivos que fortalecem a autonomia material, o reconhecimento e a prote\u00e7\u00e3o da biodiversidade do territ\u00f3rio, o projeto e a implementa\u00e7\u00e3o de regulamentos internos para a prote\u00e7\u00e3o do territ\u00f3rio, como no caso das declara\u00e7\u00f5es de territ\u00f3rios proibidos e livres de minera\u00e7\u00e3o, o trabalho com crian\u00e7as e jovens para sua inclus\u00e3o e substitui\u00e7\u00e3o geracional nas estruturas de governo, a recupera\u00e7\u00e3o e reafirma\u00e7\u00e3o da ancestralidade e da espiritualidade e as pr\u00e1ticas relacionadas \u00e0 presta\u00e7\u00e3o de justi\u00e7a comunit\u00e1ria.<\/p>\n\n\n\n<p>Entre os casos mais representativos dessa defesa territorial no M\u00e9xico est\u00e1 a experi\u00eancia do Coordenador Regional de Autoridades Comunit\u00e1rias-Pol\u00edcia Comunit\u00e1ria, que desde 1995 promove um sistema de seguran\u00e7a e justi\u00e7a comunit\u00e1ria na Costa Chica e na Monta\u00f1a de Guerrero para lidar com a inseguran\u00e7a na regi\u00e3o, enfrentando nos \u00faltimos anos a amea\u00e7a de um projeto de megaminera\u00e7\u00e3o administrado por empresas brit\u00e2nicas e canadenses.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 tamb\u00e9m a experi\u00eancia do povo Purh\u00e9pecha de Cher\u00e1n, em Michoac\u00e1n, que, desde 2011, conseguiu se estabelecer como um munic\u00edpio governado por usos e costumes e recuperou e implementou um conjunto de disposi\u00e7\u00f5es para a tomada de decis\u00f5es e organiza\u00e7\u00e3o coletivas, como o Consejo Mayor, o Consejo Operativo e a Ronda Comunitaria para a prote\u00e7\u00e3o de seu territ\u00f3rio, o que lhes deu maior capacidade de cuidar de sua floresta e se defender de madeireiros ligados a grupos do crime organizado.<\/p>\n\n\n\n<p>E o que dizer das comunidades zapatistas que se consolidaram como refer\u00eancia fundamental em escala global na constru\u00e7\u00e3o da autonomia a partir de intensos processos comunit\u00e1rios de autogoverno e gest\u00e3o da vida, expressos nos munic\u00edpios aut\u00f4nomos, nos Caracoles e nos Conselhos de Bom Governo Zapatista, bem como em in\u00fameros projetos de sa\u00fade, trabalho, comunica\u00e7\u00e3o, educa\u00e7\u00e3o, alimenta\u00e7\u00e3o, abastecimento, produ\u00e7\u00e3o e administra\u00e7\u00e3o da justi\u00e7a e defesa do territ\u00f3rio contra os chamados \"projetos de morte\", como o anunciado Trem Maia no sudeste mexicano.<\/p>\n\n\n\n<p>Para concluir, podemos dizer que, nos processos de repolitiza\u00e7\u00e3o e conflito social das \u00faltimas d\u00e9cadas, um eixo de antagonismo social cada vez mais vis\u00edvel e contundente \u00e9, sem d\u00favida, o das lutas em defesa da vida contra todos os tipos de pol\u00edticas e empreendimentos extrativistas. Essas lutas, juntamente com outros atores do mundo acad\u00eamico e do ativismo, v\u00eam articulando m\u00faltiplos conhecimentos parciais para compor uma cr\u00edtica ao modo de produ\u00e7\u00e3o e reprodu\u00e7\u00e3o de nossas vidas sob o capitalismo, tornando vis\u00edvel e compreens\u00edvel o conjunto de calamidades em territ\u00f3rios e modos de vida que foram sacrificados em nome do progresso e do desenvolvimento. Ao mesmo tempo, surgiram debates sobre a necessidade de prefigurar cen\u00e1rios p\u00f3s-extrativistas e transi\u00e7\u00f5es civilizacionais que coloquem a reprodu\u00e7\u00e3o da vida no centro, em vez da l\u00f3gica cada vez mais destrutiva do lucro e da acumula\u00e7\u00e3o de capital.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Bibliografia<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"bibliography\" data-no-auto-translation=\"\"><span class=\"small-caps\">afp<\/span> (2017). \u201cEl mundo est\u00e1 ya ante&nbsp;la sexta extinci\u00f3n masiva, advierten expertos\u201d, en <em>La Jornada<\/em>, 12 de julio 2017. Disponible en: http:\/\/www.jornada.unam.mx\/2017\/07\/12\/ciencias\/a02n1cie<\/p>\n\n\n\n<p class=\"bibliography\" data-no-auto-translation=\"\">Benjamin, Walter (2007). <em>Sobre el concepto de Historia. Tesis y fragmentos<\/em>. Buenos Aires: Piedras de Papel.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"bibliography\" data-no-auto-translation=\"\">Composto, Claudia y Mina Lorena Navarro (comp.) (2014). <em>Territorios en disputa: despojo capitalista, luchas en defensa de los bienes comunes naturales y alternativas emancipatorias para Am\u00e9rica Latina<\/em>. M\u00e9xico: Bajo Tierra.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"bibliography\" data-no-auto-translation=\"\">De Angelis, Massimo (2012). \u201cMarx y la acumulaci\u00f3n primitiva: el car\u00e1cter continuo de los \u2018cercamientos\u2019 capitalistas\u201d, en <em>Theomai<\/em>, n\u00fam. 26, julio-diciembre.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"bibliography\" data-no-auto-translation=\"\">Garibay, Claudio (2010). \u201cPaisajes de acumulaci\u00f3n minera por desposesi\u00f3n campesina en M\u00e9xico actual\u201d, en Gian Carlo Delgado Ramos (coord.), <em>Ecolog\u00eda pol\u00edtica de la miner\u00eda en Am\u00e9rica Latina. Aspectos socioecon\u00f3micos, legales y ambientales de la mega miner\u00eda<\/em>. 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Mercados y b\u00e1rbaros. La persistencia de las desigualdades de excedente en Am\u00e9rica Latina. San Jos\u00e9: <span class=\"small-caps\">flacso<\/span>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"bibliography\" data-no-auto-translation=\"\">____________________ (2016). Una historia de la desigualdad en Am\u00e9rica Latina. La barbarie de los mercados, desde el siglo XIX hasta hoy. Buenos Aires: Siglo <span class=\"small-caps\">xxi<\/span>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"bibliography\" data-no-auto-translation=\"\">Santos, Boaventura de Sousa (2001).&nbsp;\u201cEl fin de los descubrimientos imperiales\u201d, en <em>Chiapas<\/em>, n\u00fam. 11. M\u00e9xico: Era \/ Instituto de Investigaciones Econ\u00f3micas <span class=\"small-caps\">unam<\/span>, pp. 17-28. Disponible en:&nbsp;http:\/\/revistachiapas.org\/No11\/ch11desousa.html<\/p>\n\n\n\n<p class=\"bibliography\" data-no-auto-translation=\"\">Wedekind, Jonah y Felipe Milanez (2017). \u201cEntrevista a Jason Moore: Del Capitaloceno a una nueva pol\u00edtica ontol\u00f3gica\u201d, en <em>Ecolog\u00eda Pol\u00edtica. Cuadernos de debate internacional<\/em>, n\u00fam. 53, pp. 108-110. Disponible en: &nbsp;<a href=\"http:\/\/www.ecologiapolitica.info\/?p=9795\">http:\/\/www.ecologiapolitica.info\/?p=9795<\/a>.<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Neste texto, apresento um coment\u00e1rio sobre o ensaio \"Inequalities and the re-politicisation of the social in Latin America\", de Juan Pablo P\u00e9rez S\u00e1inz. 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