{"id":30904,"date":"2019-03-21T15:15:41","date_gmt":"2019-03-21T15:15:41","guid":{"rendered":"https:\/\/encartesantropologicos.mx\/wordpress\/?p=30904"},"modified":"2023-11-17T18:57:19","modified_gmt":"2023-11-18T00:57:19","slug":"exhumacion-fosas-comunes-mexico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/encartes.mx\/pt\/exhumacion-fosas-comunes-mexico\/","title":{"rendered":"Combinando a hist\u00f3ria contra a corrente: reflex\u00f5es sobre a busca e a exuma\u00e7\u00e3o de valas comuns no M\u00e9xico"},"content":{"rendered":"<h2 class=\"wp-block-heading\">Sum\u00e1rio<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"abstract\">Este artigo se prop\u00f5e a refletir sobre a multiplica\u00e7\u00e3o de enterros ilegais de restos humanos no M\u00e9xico no in\u00edcio do s\u00e9culo XXI, com base em seu poder coercitivo como mecanismo de terror, mas tamb\u00e9m em sua capacidade de incentivar a a\u00e7\u00e3o coletiva, desafiar a verdade oficial e atuar como uma aut\u00f3psia do regime pol\u00edtico-social de precariedade e desigualdade neoliberal. Com base nas experi\u00eancias dos parentes de pessoas desaparecidas em busca da verdade, o artigo levanta as tens\u00f5es ainda n\u00e3o resolvidas em torno do direito \u00e0 verdade diante da expans\u00e3o da crueldade exposta pelo enterro irregular dos mortos e nos convida a pensar sobre os desafios epistemol\u00f3gicos e \u00e9ticos enfrentados pelas testemunhas-investigadoras nesses cen\u00e1rios de guerra.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"abstract\">Palavras-chave: <a href=\"https:\/\/encartes.mx\/pt\/tag\/desaparicion-forzada\/\" rel=\"tag\">desaparecimento for\u00e7ado<\/a>, <a href=\"https:\/\/encartes.mx\/pt\/tag\/exhumaciones\/\" rel=\"tag\">exuma\u00e7\u00f5es<\/a>, <a href=\"https:\/\/encartes.mx\/pt\/tag\/fosas-comunes\/\" rel=\"tag\">valas comuns<\/a>, <a href=\"https:\/\/encartes.mx\/pt\/tag\/verdad\/\" rel=\"tag\">verdade<\/a><\/p>\n\n\n<p class=\"en-title\">Combinando a hist\u00f3ria \"da maneira errada\". Reflex\u00f5es sobre a busca e a exuma\u00e7\u00e3o das valas comuns do M\u00e9xico.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"abstract en-text\">Uma reflex\u00e3o sobre a multiplica\u00e7\u00e3o de enterros ilegais de restos mortais no M\u00e9xico no in\u00edcio do s\u00e9culo XXI, com base em seu poder coercitivo como mecanismos de terror e em sua capacidade de propiciar a a\u00e7\u00e3o coletiva, desafia as verdades oficiais e atua como uma aut\u00f3psia do regime pol\u00edtico-social ao qual a precariedade e a desigualdade neoliberais d\u00e3o origem. Por meio de experi\u00eancias de familiares que buscam os desaparecidos, s\u00e3o apresentadas tens\u00f5es n\u00e3o resolvidas em rela\u00e7\u00e3o ao direito \u00e0 verdade vis-\u00e0-vis a crueldade-expans\u00e3o que os enterros irregulares dos mortos exp\u00f5em; o autor convida os leitores a contemplar os desafios epistemol\u00f3gicos e \u00e9ticos que os pesquisadores e as testemunhas enfrentam nessas paisagens combativas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"abstract en-text\"><strong>Palavras-chave: <\/strong>Exuma\u00e7\u00e3o, valas comuns, desaparecimentos for\u00e7ados, verdade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"abstract\"><span class=\"dropcap\">L<\/span>a primeira vez, acompanhei um grupo de parentes de pessoas desaparecidas em uma busca por \"tesouros\".<a class=\"anota\" id=\"anota1\" data-footnote=\"1\">1<\/a> em Sinaloa, M\u00e9xico,<a class=\"anota\" id=\"anota2\" data-footnote=\"2\">2<\/a> Testemunhei a implementa\u00e7\u00e3o de pr\u00e1ticas e conceitos que at\u00e9 ent\u00e3o eram desconhecidos para mim. \"Pentear o terreno\" foi um deles. A frase faz parte de uma linguagem t\u00e9cnica produzida pela per\u00edcia dos familiares de pessoas desaparecidas e se refere \u00e0 a\u00e7\u00e3o de percorrer o local onde se presume a exist\u00eancia de um sepultamento, fazendo uma esp\u00e9cie de \"ancinho\" humano com o qual se pretende verificar cada cent\u00edmetro do local, previamente marcado, em busca de sinais que possam indicar a presen\u00e7a de uma sepultura com restos humanos.<\/p>\n\n\n\n<p>Esse procedimento, que se tornou t\u00e3o comum para centenas de parentes que se encarregaram de vasculhar a terra em busca de seus desaparecidos, evoca a imagem de Walter Benjamin (2008) quando ele fala de \"pentear a hist\u00f3ria a contrapelo\", como uma forma de resistir \u00e0 barb\u00e1rie da hist\u00f3ria. Em outras palavras, \"fazer uma cr\u00edtica \u00e0 ideologia do historicismo a fim de mostrar o outro lado da hist\u00f3ria: a hist\u00f3ria dos vencidos, de seu sofrimento e de sua resist\u00eancia\" (Villena Fiengo, 2003: 97).<\/p>\n\n\n\n<p>Visto dessa forma, vasculhar o terreno e vir\u00e1-lo de cabe\u00e7a para baixo para encontrar o paradeiro dessas filhas, filhos, pais, m\u00e3es, irm\u00e3os e irm\u00e3s desaparecidos \u00e9 virar a hist\u00f3ria dos vencedores de cabe\u00e7a para baixo e colocar em crise o regime de impunidade e n\u00e3o-verdade com o qual eles protegem seus projetos pol\u00edticos e econ\u00f4micos.<\/p>\n\n\n\n<p>Diferentemente do exerc\u00edcio cr\u00edtico de Benjamin, que visa voltar-se para o passado a fim de iluminar o presente e, assim, redimir o pr\u00f3prio passado, a busca e a exuma\u00e7\u00e3o de valas comuns n\u00e3o \u00e9 o mesmo que a busca e a exuma\u00e7\u00e3o do passado.<a class=\"anota\" id=\"anota3\" data-footnote=\"3\">3<\/a> no M\u00e9xico n\u00e3o se refere ao passado, j\u00e1 que ele n\u00e3o expirou. Esse presente se refere a um cen\u00e1rio de guerra contra a popula\u00e7\u00e3o, uma guerra sem fim, n\u00e3o convencional, mas cada vez mais comum.<a class=\"anota\" id=\"anota4\" data-footnote=\"4\">4<\/a> e naturalizado, cujo objetivo central \u00e9 estabelecer o modelo neoliberal de concentra\u00e7\u00e3o de poder por meio da desapropria\u00e7\u00e3o e elimina\u00e7\u00e3o de popula\u00e7\u00f5es inteiras.<a class=\"anota\" id=\"anota5\" data-footnote=\"5\">5<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Internacionalmente, as exuma\u00e7\u00f5es se tornaram ferramentas de verdade, justi\u00e7a e repara\u00e7\u00e3o, e transformaram radicalmente as formas de lidar com o passado traum\u00e1tico gra\u00e7as, entre outros fen\u00f4menos, ao fortalecimento da ci\u00eancia forense e seu envolvimento no campo dos direitos humanos (Rosenblatt, 2015) e \u00e0 implementa\u00e7\u00e3o de mecanismos de justi\u00e7a transicional em per\u00edodos p\u00f3s-conflito e p\u00f3s-guerra (P\u00e9rez Sales e Navarro, 2007). Mas o que acontece no M\u00e9xico, o que \u00e9 aberto e o que \u00e9 fechado com a exuma\u00e7\u00e3o de sepulturas clandestinas, que mecanismos de verdade e repara\u00e7\u00e3o s\u00e3o acionados com esses processos e que significados esses conceitos adquirem com a experi\u00eancia dos familiares e o contexto do desaparecimento?<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m de tentar responder a essas perguntas \u00e0 luz de minha experi\u00eancia como \"testemunha\" (De Marinis, 2017) dos processos de busca e exuma\u00e7\u00e3o de sepulturas no M\u00e9xico, proponho algumas reflex\u00f5es sobre os desafios epistemol\u00f3gicos que esse processo implica n\u00e3o apenas para a antropologia, mas tamb\u00e9m para as ci\u00eancias sociais e forenses. Acima de tudo, no esp\u00edrito de entender como as sociedades lidam com os conceitos de justi\u00e7a, verdade e repara\u00e7\u00e3o a partir de seus pr\u00f3prios conhecimentos e pr\u00e1ticas e como administram o car\u00e1ter \"objetivo\" e \"universal\" da ci\u00eancia em torno da exuma\u00e7\u00e3o de restos humanos.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Paisagens de guerra: desaparecimento de corpos e administra\u00e7\u00e3o do sofrimento<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"abstract\">Embora os n\u00fameros continuem a ser um problema para reconhecer a dimens\u00e3o real do desaparecimento for\u00e7ado de pessoas no M\u00e9xico, por meio de estat\u00edsticas oficiais \u00e9 poss\u00edvel reconhecer que 37.436 pessoas desapareceram nos \u00faltimos 11 anos no territ\u00f3rio nacional.<a class=\"anota\" id=\"anota6\" data-footnote=\"6\">6<\/a> Os coletivos de familiares denunciam que esse n\u00famero est\u00e1 muito abaixo da realidade, levando em conta que muitas pessoas n\u00e3o ousaram denunciar por causa da desconfian\u00e7a nas institui\u00e7\u00f5es do Estado devido ao conluio comprovado com atores privados e por causa de sua responsabilidade direta nos desaparecimentos for\u00e7ados.<a class=\"anota\" id=\"anota7\" data-footnote=\"7\">7<\/a> Apesar das desvantagens de medir o problema, o M\u00e9xico foi identificado por diferentes organiza\u00e7\u00f5es nacionais e internacionais de direitos humanos como um pa\u00eds com um problema sistem\u00e1tico de desaparecimentos for\u00e7ados e outras viola\u00e7\u00f5es de direitos humanos (GIEI, 2015; 2016; IACHR, 2016; HRW, 2013; ONU, 2012). Esses relat\u00f3rios mostram que o caso mexicano \u00e9 extremamente complexo, pois n\u00e3o apenas vai al\u00e9m das categorias legais estabelecidas historicamente para explicar o fen\u00f4meno, mas tamb\u00e9m vai al\u00e9m das explica\u00e7\u00f5es tradicionais para explicar um crime hist\u00f3rico com contornos bastante bem definidos (Robledo, 2017).<\/p>\n\n\n\n<p>Durante minha participa\u00e7\u00e3o na Primeira Brigada Nacional de Busca de Pessoas Desaparecidas em Veracruz<a class=\"anota\" id=\"anota8\" data-footnote=\"8\">8<\/a> Tive a oportunidade de receber 29 parentes de pessoas desaparecidas, que procuraram a Universidade Aut\u00f4noma do Estado de Morelos para que fossem coletadas amostras gen\u00e9ticas deles para serem posteriormente comparadas com as dos achados resultantes das buscas. Dessas fam\u00edlias, 10 n\u00e3o haviam apresentado nenhum tipo de reclama\u00e7\u00e3o por medo de repres\u00e1lias:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"large-quote\">Como vou registrar uma queixa se o mesmo carro de patrulha da pol\u00edcia que levou minha filha faz rondas em frente \u00e0 minha casa e para na entrada da escola da minha outra filha para nos observar. J\u00e1 se passaram dois meses desde que minha filha desapareceu e eu n\u00e3o fui a nenhum escrit\u00f3rio do governo. Esta \u00e9 a primeira vez que conto isso a algu\u00e9m que n\u00e3o seja da minha fam\u00edlia (Elena),<a class=\"anota\" id=\"anota9\" data-footnote=\"9\">9<\/a> m\u00e3e de uma jovem que desapareceu em fevereiro de 2016 em C\u00f3rdoba, Veracruz).<\/p>\n\n\n\n<p>Essa \"descidadaniza\u00e7\u00e3o<a class=\"anota\" id=\"anota10\" data-footnote=\"10\">10<\/a> de sujeitos para os quais o Estado perdeu a m\u00e1scara, mostrando-se em toda a sua ilegitimidade, consolida-se gra\u00e7as a uma \"pol\u00edtica do medo\" (Calveiro, 2015) que beneficia o estabelecimento do poder sobre o territ\u00f3rio e os corpos e desestabiliza por completo o pacto social que pendia por um fio em regimes de despossess\u00e3o, pobreza e viol\u00eancia institucional sist\u00eamica.<a class=\"anota\" id=\"anota11\" data-footnote=\"11\">11<\/a> Nesse campo de rearranjo de poder acompanhado pelo ritmo do mercado, o M\u00e9xico testemunhou a amplifica\u00e7\u00e3o do espet\u00e1culo de sofrimento e crueldade, por meio da encena\u00e7\u00e3o de v\u00e1rias formas de viol\u00eancia extrema (Nahoum-Grappe, 2002).<\/p>\n\n\n\n<p>Desde a descoberta, em 2010, de um dep\u00f3sito com 72 corpos de migrantes em San Fernando, Tamaulipas, executados com sinais de tortura,<a class=\"anota\" id=\"anota12\" data-footnote=\"12\">12<\/a> Mas especialmente ap\u00f3s o desaparecimento dos 43 estudantes de Ayotzinapa, em Iguala-Guerrero, em setembro de 2014, a exist\u00eancia de sepulturas come\u00e7ou a formar um espet\u00e1culo midi\u00e1tico de crueldade, que com o tempo se tornou uma ocorr\u00eancia di\u00e1ria. Apenas um m\u00eas ap\u00f3s o desaparecimento dos 43 jovens, mais de cem corpos foram encontrados enterrados em covas em Iguala, Guerrero, gra\u00e7as \u00e0 busca feita pelos pr\u00f3prios familiares, acompanhados por homens e mulheres solid\u00e1rios das comunidades vizinhas. A descoberta desses restos mortais, que n\u00e3o correspondiam aos dos estudantes, revelou a exist\u00eancia de uma trag\u00e9dia que ultrapassou os limites da agenda da m\u00eddia. Das entranhas da terra, esses corpos come\u00e7aram a recuperar sua identidade, e das vilas e cidades, as pessoas come\u00e7aram a se organizar para \"recuperar esses tesouros\" e devolver-lhes seus nomes.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim, enquanto o discurso p\u00fablico e as demandas de grande parte das associa\u00e7\u00f5es civis se concentravam na trag\u00e9dia dos jovens estudantes de Ayotzinapa e na exig\u00eancia de sua apresenta\u00e7\u00e3o com vida, mais de 500 fam\u00edlias se organizaram no Comit\u00ea dos Outros Desaparecidos de Iguala, Guerrero, para recuperar n\u00e3o apenas os restos mortais encontrados at\u00e9 ent\u00e3o nas proximidades de Iguala, e cuja identidade n\u00e3o preocupava ningu\u00e9m, mas tamb\u00e9m para iniciar o que seria uma longa jornada de aprendizado sobre como procurar restos humanos, que ocorreria simultaneamente em v\u00e1rios estados da Rep\u00fablica Mexicana.<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar da relev\u00e2ncia que essas a\u00e7\u00f5es alcan\u00e7aram, especialmente desde 2015, a busca n\u00e3o \u00e9 um fen\u00f4meno recente. Em Tijuana, por exemplo, a primeira descoberta de sepulturas feita por familiares de pessoas desaparecidas ocorreu em 6 de abril de 2011. Em um terreno na periferia da cidade, foram encontrados restos mortais que haviam sido eliminados com a t\u00e9cnica desenvolvida por Santiago Mesa, vulgo \"El Pozolero\", que durante anos dissolveu corpos em soda c\u00e1ustica por ordem dos cart\u00e9is que operavam na cidade (Robledo, 2017).<a class=\"anota\" id=\"anota13\" data-footnote=\"13\">13<\/a> Tamb\u00e9m \u00e9 poss\u00edvel rastrear buscas de cidad\u00e3os em Sinaloa desde 2011, realizadas por moradores do norte do estado que, ao serem entrevistados por um jornalista local,<a class=\"anota\" id=\"anota14\" data-footnote=\"14\">14<\/a> relataram anonimamente, por medo de repres\u00e1lias, que a maioria das v\u00edtimas havia sido desaparecida pela pol\u00edcia municipal (Valdez, 2014).<\/p>\n\n\n\n<p>Em Veracruz, as buscas coletivas come\u00e7aram ap\u00f3s a chegada da Primeira Brigada Nacional de Busca de Pessoas Desaparecidas, que ocorreu entre 11 e 22 de abril de 2016 em Amatl\u00e1n, Veracruz. Essa brigada reuniu mais de trinta familiares de diferentes estados da rep\u00fablica para fazer buscas nas terras indicadas pelos vizinhos, que haviam testemunhado enterros sistem\u00e1ticos e em massa nessa \u00e1rea do estado. Essa estrat\u00e9gia de busca, que mais tarde seria repetida em duas ocasi\u00f5es (Paso del Macho, Veracruz, em julho de 2016, e Culiac\u00e1n, Sinaloa, em janeiro de 2017), possibilitou a gera\u00e7\u00e3o de um espa\u00e7o para o interc\u00e2mbio de conhecimentos e pr\u00e1ticas entre os pesquisadores, bem como o fortalecimento dos canais de comunica\u00e7\u00e3o e solidariedade entre os coletivos no campo da busca.<\/p>\n\n\n\n<p>Para Sinaloa, Guerrero e Veracruz<a class=\"anota\" id=\"anota15\" data-footnote=\"15\">15<\/a> As buscas por \"los Cascabeles\", membros do Grupo Vida de Coahuila, foram adicionadas,<a class=\"anota\" id=\"anota16\" data-footnote=\"16\">16<\/a> que, sob a lideran\u00e7a de Silvia Ortiz e seu marido \u00d3scar S\u00e1nchez Viesca, pais de Silvia Estefan\u00eda S\u00e1nchez, desaparecida em 2006, tornaram-se um grupo de especialistas na busca de pequenos fragmentos de ossos no meio do deserto. Somente em 2015, o grupo, com mais de 10 anos de experi\u00eancia na busca, conseguiu encontrar 40 valas comuns, cuja materialidade levou os Cascabeles a concluir que grupos criminosos \"cozinham\" suas v\u00edtimas em tambores com \u00e1cido e depois esmagam os ossos para que nunca possam ser identificados.<a class=\"anota\" id=\"anota17\" data-footnote=\"17\">17<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Outras t\u00e9cnicas de desaparecimento de corpos que chamaram a aten\u00e7\u00e3o do p\u00fablico nos \u00faltimos anos incluem crema\u00e7\u00f5es em massa de restos humanos sob cust\u00f3dia do Estado pelas pr\u00f3prias promotorias, como no caso de Jalisco;<a class=\"anota\" id=\"anota18\" data-footnote=\"18\">18<\/a> aqueles realizados em pris\u00f5es por grupos armados ilegais com a autoriza\u00e7\u00e3o e participa\u00e7\u00e3o de agentes do Estado, como os perpetrados em Piedras Negras, Coahuila, por Los Zetas;<a class=\"anota\" id=\"anota19\" data-footnote=\"19\">19<\/a> o sepultamento de corpos em covas irregulares pelas promotorias p\u00fablicas encarregadas de fazer justi\u00e7a, como no caso de Tetelcingo, Morelos,<a class=\"anota\" id=\"anota20\" data-footnote=\"20\">20<\/a> e o sepultamento desordenado e irregular de corpos em cemit\u00e9rios custodiados pelo estado.<a class=\"anota\" id=\"anota21\" data-footnote=\"21\">21<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>O mapa do terror desses dispositivos n\u00e3o se limita \u00e0s modalidades mencionadas acima, como mostram os depoimentos dos pr\u00f3prios familiares:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"large-quote\">Tenho 211 desaparecidos na associa\u00e7\u00e3o. Encontrei 46 corpos, sei que tenho cerca de 30 na vala comum que temos que exumar. Portanto, ainda tenho mais de 100 corpos para encontrar, mas sei que h\u00e1 alguns que nunca encontrarei porque foram dados aos crocodilos. Durante anos, eles tiveram lagos com esses animais que alimentavam com corpos e s\u00f3 restavam os ossos. Depois, esses ossos eram esmagados e enterrados. Encontramos um enterro com muitos peda\u00e7os de ossos, mas os especialistas do Minist\u00e9rio P\u00fablico disseram que eram ossos de animais, ent\u00e3o eles os deixaram l\u00e1, sem test\u00e1-los para nada (Mirna Medina, l\u00edder do grupo \"Las Buscadoras de El Fuerte, Sinaloa, conversa pessoal, 12 de maio de 2016).<\/p>\n\n\n\n<p>Essa demonstra\u00e7\u00e3o de terror, que configura uma teia de sentidos de normalidade em torno da viol\u00eancia extrema (Blair, 2004), n\u00e3o se esgota nas paisagens descritas acima. Outros tipos de viol\u00eancia cotidiana e sist\u00eamica se somam ao exerc\u00edcio de crueldade que afeta n\u00e3o apenas os corpos dos desaparecidos, mas tamb\u00e9m os de seus familiares. De acordo com Ariadna Est\u00e9vez (2015), o calv\u00e1rio vivido pelos familiares de pessoas desaparecidas - e, em geral, por qualquer pessoa que deseje obter justi\u00e7a por meio do direito estatal - constitui outro tipo de dispositivo que \u00e9 imposto aos corpos e \u00e0s vidas daqueles que buscam ser reconhecidos como sujeitos de direitos. A partir do momento em que apresentam uma queixa, os familiares se veem submersos em um labirinto de papelada, procedimentos e formalidades que se perpetuam ao longo dos anos como uma forma de viol\u00eancia institucional que imp\u00f5e tempos e espa\u00e7os para confinar as a\u00e7\u00f5es dos indiv\u00edduos a um processo tortuoso que muito raramente culmina no acesso \u00e0 justi\u00e7a ou \u00e0 verdade (Est\u00e9vez, 2015).<\/p>\n\n\n\n<p>Diante desse mecanismo de controle da vida que perpetua a impunidade e o regime da n\u00e3o-verdade, muitos familiares de pessoas desaparecidas acabam assumindo a tarefa de investigar seus pr\u00f3prios casos. Para muitos, essa \u00e9 a \u00fanica sa\u00edda diante da indol\u00eancia das institui\u00e7\u00f5es que prejudicam diariamente sua condi\u00e7\u00e3o de sujeitos:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"large-quote\">Batemos em mil portas, em todas as portas que existem. Eu fiz a maior parte da pesquisa, eu sou a pessoa que fez a maior parte da investiga\u00e7\u00e3o. H\u00e1 uma maneira, ou ficamos em casa chorando e nos revitimizando ou sa\u00edmos todos os dias para procurar nosso filho (Mar\u00eda Guadalupe Fern\u00e1ndez, m\u00e3e de um jovem desaparecido em Jalisco).<\/p>\n\n\n\n<p>Esse cen\u00e1rio de viol\u00eancia extrema e viol\u00eancia cotidiana \u00e9 organizado em torno de regimes de impunidade e n\u00e3o verdade. O regime de impunidade tem a ver com a inexist\u00eancia de responsabilidade criminal por parte dos autores de crimes atrozes, bem como com a responsabilidade administrativa m\u00ednima pela incapacidade e omiss\u00e3o de funcion\u00e1rios p\u00fablicos que bloqueiam investiga\u00e7\u00f5es ou cometem a\u00e7\u00f5es que prejudicam as possibilidades de obten\u00e7\u00e3o de justi\u00e7a (Comiss\u00e3o de Direitos Humanos da ONU, 2005).<a class=\"anota\" id=\"anota22\" data-footnote=\"22\">22<\/a> Mas tamb\u00e9m se expressa na falta de estrat\u00e9gias que busquem reparar o insulto moral provocado pelo desaparecimento for\u00e7ado e crimes relacionados. O regime da n\u00e3o-verdade se manifesta na constru\u00e7\u00e3o de um discurso que justifica a guerra, classifica as popula\u00e7\u00f5es com base na constru\u00e7\u00e3o da ideia do inimigo e insiste no car\u00e1ter marginal da viol\u00eancia patrocinada pelo Estado, centralizando a imputa\u00e7\u00e3o de responsabilidade no chamado \"crime organizado\".<\/p>\n\n\n\n<p>Diante desse cen\u00e1rio de impunidade e n\u00e3o verdade, as sepulturas clandestinas se tornam uma estrat\u00e9gia de esquecimento imposta a comunidades inteiras que s\u00e3o proibidas de evocar o infort\u00fanio: \"A mistura intencional de corpos n\u00e3o identificados em sepulturas n\u00e3o marcadas injeta quantidades significativas de desordem, ansiedade e divis\u00e3o no tecido social\" (Ferr\u00e1ndiz, 2007: 50). No entanto, como o pr\u00f3prio Ferr\u00e1ndiz ressalta, \"o significado e o impacto social e pol\u00edtico desses restos mortais exumados dependem, por sua vez, do am\u00e1lgama de tramas de mem\u00f3ria que gradualmente se organizam (e muitas vezes competem) em torno deles\" (2007: 51). Assim, diante da moralidade universal dos direitos humanos (Rosenblatt, 2015) e da legitimidade da ci\u00eancia forense, que geralmente se apresentam como discursos hegem\u00f4nicos para a produ\u00e7\u00e3o de significados e verdades em torno dos restos humanos, s\u00e3o produzidas novas subjetividades, rela\u00e7\u00f5es, identidades e culturas que definem contornos diversos e at\u00e9 mesmo parciais em torno da verdade, da justi\u00e7a e da repara\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Sentidos e pr\u00e1ticas em torno da verdade<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"abstract\">A partir de uma abordagem socioantropol\u00f3gica, destaca-se que o aparecimento, a circula\u00e7\u00e3o e o consumo de imagens de cad\u00e1veres com sinais expl\u00edcitos de tortura e viol\u00eancia servem a um duplo prop\u00f3sito. Por um lado, semeia o terror ao expor a crueldade de corpos sem nome e, por outro, incentiva a mobiliza\u00e7\u00e3o que busca limitar o \"pacto de sil\u00eancio\" ao trazer \u00e0 luz a \"roupa suja\" que foi escondida (Ferr\u00e1ndiz, 2008). Esse car\u00e1ter duplo da forma como o terror das fossas clandestinas \u00e9 produzido e consumido est\u00e1 relacionado a uma profunda tens\u00e3o nos significados que a verdade adquire no campo do desaparecimento for\u00e7ado de pessoas, como tentarei demonstrar nesta se\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao se referir \u00e0 verdade, o campo te\u00f3rico do direito estabeleceu uma distin\u00e7\u00e3o fundamental entre a prova legal (verdade legal) e a verdade da atrocidade (verdade hist\u00f3rica) (Rojas-P\u00e9rez, 2017). O primeiro sentido refere-se ao conhecimento sobre o modo, o tempo e a forma do ato violento e, no caso de desaparecimentos, ao conhecimento do paradeiro da pessoa desaparecida; enquanto o segundo transcende o ato singular e est\u00e1 localizado no reconhecimento das atrocidades como atos cometidos contra um todo social.<\/p>\n\n\n\n<p>No campo do desaparecimento for\u00e7ado, a verdade implica o \"desejo de saber\" como uma \"necessidade humana b\u00e1sica\" (Naqvi, 2006: 14), com base na urg\u00eancia de evitar a tortura psicol\u00f3gica dos familiares de pessoas desaparecidas, mas tamb\u00e9m de reconhecer as formas de exterm\u00ednio que foram produzidas e toleradas como sociedade, com o objetivo de n\u00e3o repeti-las novamente.<a class=\"anota\" id=\"anota23\" data-footnote=\"23\">23<\/a> Portanto, a verdade, embora produzida na esfera p\u00fablica, tem um car\u00e1ter profundamente \u00edntimo e heterog\u00eaneo que desafia a obsess\u00e3o em produzir tecnologias universais para o gerenciamento de atrocidades.<\/p>\n\n\n\n<p>A busca da verdade em torno das exuma\u00e7\u00f5es pode ser atravessada por duas demandas, que n\u00e3o s\u00e3o necessariamente contradit\u00f3rias e exclusivas, mas podem estar em tens\u00e3o, como ocorre atualmente no M\u00e9xico. Por um lado, a daqueles que insistem em recuperar a verdade plena dos fatos expostos por meio do enterro ilegal de restos humanos em um marco de judicializa\u00e7\u00e3o; em outras palavras, um tipo de exuma\u00e7\u00e3o com valor pol\u00edtico e ideol\u00f3gico (Ferr\u00e1ndiz, 2014) ou uma busca judicial. Por outro lado, h\u00e1 aqueles que defendem a exuma\u00e7\u00e3o como um processo humanit\u00e1rio - e terap\u00eautico (Ferr\u00e1ndiz, 2014) - que atende \u00e0s necessidades individuais e familiares para recuperar a continuidade existencial interrompida pelo desaparecimento.<\/p>\n\n\n\n<p>A verdade no campo da exuma\u00e7\u00e3o de sepulturas clandestinas est\u00e1 relacionada a um complexo campo de poder no qual atuam os familiares de pessoas desaparecidas, funcion\u00e1rios p\u00fablicos, cientistas e outros atores envolvidos, cujas rela\u00e7\u00f5es -assim\u00e9tricas- produzem tecnologias de ser e saber que transcendem as limita\u00e7\u00f5es do campo jur\u00eddico (Rojas-P\u00e9rez, 2017). Esse campo expressa um pluralismo em tens\u00e3o com rela\u00e7\u00e3o \u00e0s trajet\u00f3rias de verdade e justi\u00e7a, que emanam da experi\u00eancia vivida pelos sobreviventes.<\/p>\n\n\n\n<p>Embora nos \u00faltimos anos tenha havido uma clara tend\u00eancia entre as organiza\u00e7\u00f5es de parentes de pessoas desaparecidas no M\u00e9xico em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 busca de restos humanos, nem todas compartilham o mesmo projeto. Alguns coletivos mant\u00eam o compromisso pol\u00edtico que responde ao slogan \"eles foram levados vivos, n\u00f3s os queremos vivos\",<a class=\"anota\" id=\"anota24\" data-footnote=\"24\">24<\/a> destacando a responsabilidade direta do Estado pelos desaparecimentos e rejeitando a busca por restos humanos, ao mesmo tempo em que exige que as autoridades devolvam com vida as pessoas por cujo desaparecimento s\u00e3o consideradas respons\u00e1veis.<\/p>\n\n\n\n<p>Outros setores da sociedade civil insistem na via institucional, por meio do monitoramento e da exig\u00eancia de investiga\u00e7\u00f5es efetivas que alcancem a justi\u00e7a, em um trabalho permanente de colabora\u00e7\u00e3o com as autoridades para transformar protocolos, leis e estruturas burocr\u00e1ticas que possam tornar mais efetiva a busca e a investiga\u00e7\u00e3o do desaparecimento for\u00e7ado de pessoas. Algumas dessas organiza\u00e7\u00f5es t\u00eam se posicionado a favor da exuma\u00e7\u00e3o de fossas clandestinas, mas defendendo o rigor cient\u00edfico e legal, para o que prop\u00f5em a guarda das fossas pelo tempo que for necess\u00e1rio, garantindo uma exuma\u00e7\u00e3o rigorosa, com o objetivo de promover uma verdade completa, que garanta n\u00e3o apenas a identifica\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m o poss\u00edvel conhecimento dos respons\u00e1veis e dos padr\u00f5es de viol\u00eancia. Por fim, h\u00e1 os familiares que buscam e localizam sepulturas clandestinas de forma aut\u00f4noma, contando com o governo para a identifica\u00e7\u00e3o dos restos mortais e cujas exuma\u00e7\u00f5es n\u00e3o est\u00e3o vinculadas a processos de verdade e justi\u00e7a estatal, pois s\u00e3o orientadas para o objetivo de identificar e restaurar restos mortais humanos com uma abordagem humanit\u00e1ria, sob o princ\u00edpio de que o \"enterro crist\u00e3o\" tem um car\u00e1ter restaurador em si mesmo:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"large-quote\">N\u00e3o estamos procurando por justi\u00e7a, paramos de procurar por isso h\u00e1 muito tempo, pois est\u00e1 muito longe, a \u00fanica coisa que estamos procurando s\u00e3o nossos desaparecidos. Queremos saber onde est\u00e3o nossos parentes, talvez na esperan\u00e7a de abra\u00e7\u00e1-los novamente, ou apenas para saber onde eles est\u00e3o, para que possamos colocar uma vela para a salva\u00e7\u00e3o de suas almas (Julio S\u00e1nchez Pasilla, do grupo Vida, Coahuila).<\/p>\n\n\n\n<p>Essa posi\u00e7\u00e3o promove, por um lado, uma mensagem de ilegitimidade do Estado para estabelecer pol\u00edticas de verdade e justi\u00e7a e, como consequ\u00eancia, a produ\u00e7\u00e3o de espa\u00e7os alternativos para alcan\u00e7ar esses objetivos. Por outro lado, \u00e9 uma demonstra\u00e7\u00e3o dos desafios impostos por um contexto de conflito permanente, no qual a busca por sepulturas \u00e9 realizada em meio a graves viola\u00e7\u00f5es de direitos humanos, persegui\u00e7\u00e3o, criminaliza\u00e7\u00e3o e precariedade exacerbada (exposi\u00e7\u00e3o a danos).<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse contexto, a Brigada Nacional de Busca, que n\u00e3o foi realizada apenas em Veracruz, mas tamb\u00e9m em Sinaloa e Guerrero, n\u00e3o procura culpados, garantindo assim a seguran\u00e7a dos pesquisadores em um territ\u00f3rio violento onde o Estado \u00e9 identificado como o principal autor dos crimes. No caso dos Searchers of Northern Sinaloa, \"n\u00e3o procurar culpados\" \u00e9 uma forma de garantir um tipo de colabora\u00e7\u00e3o com o governo estadual em aspectos t\u00e9cnicos relacionados ao achado de restos humanos, especialmente a identifica\u00e7\u00e3o:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"large-quote\">Se eu dissesse ao governo que estava procurando os respons\u00e1veis, eles n\u00e3o me dariam seus especialistas nem me emprestariam seus c\u00e3es. \u00c9 imposs\u00edvel para um governo entregar seus desaparecidos. O lema deles \u00e9 \"sem corpo, sem mortos, sem desaparecidos\". O governo n\u00e3o vai entregar os desaparecidos, n\u00e3o \u00e9 conveniente para eles (Mirna Medina, pesquisadores de El Fuerte, conversa pessoal, 10 de maio de 2016).<\/p>\n\n\n\n<p>Esse tipo de posicionamento \u00e9 controverso entre aqueles que insistem que o governo \u00e9 respons\u00e1vel pela busca e exuma\u00e7\u00e3o e que n\u00e3o renunciam a essa demanda. A verdade e a justi\u00e7a s\u00e3o categorias inacabadas e est\u00e3o constantemente sendo disputadas por coletivos de parentes de pessoas desaparecidas e organiza\u00e7\u00f5es civis que os acompanham. A presen\u00e7a desses discursos e pr\u00e1ticas gera rachaduras nas estruturas jur\u00eddicas hegem\u00f4nicas produzidas a partir de um centro ocidental; uma estrutura jur\u00eddica que foi ultrapassada pelas condi\u00e7\u00f5es espec\u00edficas daqueles que sofrem viol\u00eancia e impunidade.<\/p>\n\n\n\n<p>A Brigada Nacional de Buscas defendeu as buscas de cidad\u00e3os como uma \"guerra contra o governo\" (Jos\u00e9 D\u00edaz Navarro, Coletivo Chilapa, Guerrero), como uma forma de desobedi\u00eancia; est\u00e1 resistindo \u00e0 administra\u00e7\u00e3o do sofrimento pelas institui\u00e7\u00f5es: \"Quando vejo as coisas est\u00fapidas que as mesmas pessoas do governo fazem nas buscas, n\u00e3o vejo por que n\u00e3o posso faz\u00ea-las\" (Mario Vergara, Comit\u00ea Los Otros Desaparecidos de Iguala), \"esse \u00e9 um tipo de desobedi\u00eancia civil, mesmo que n\u00e3o digamos isso em nossos comunicados\" (Juan Carlos Trujillo, Enlaces Nacionales). \u00c9 a consci\u00eancia da morte do Estado: \"Estamos fazendo isso porque n\u00e3o h\u00e1 Estado, porque eles nos deixaram sozinhos\" (Juan Carlos, Enlaces Nacionales).<\/p>\n\n\n\n<p>A busca e a exuma\u00e7\u00e3o de sepulturas clandestinas atuam como um tipo de desobedi\u00eancia civil diante de um institucionalismo que perdeu o sentido de seu papel de coes\u00e3o na vida social; \u00e9 tamb\u00e9m um cen\u00e1rio para o reconhecimento da cidadania. E, ao mesmo tempo, \u00e9 um tipo de desobedi\u00eancia contra os discursos hegem\u00f4nicos que formalizam e monopolizam os procedimentos de exuma\u00e7\u00e3o ditados pelo trabalho cient\u00edfico e jur\u00eddico dos direitos humanos.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 um processo que corresponde ao ac\u00famulo de queixas ao longo do tempo e \u00e0 forma\u00e7\u00e3o de uma consci\u00eancia que aponta o Estado n\u00e3o apenas como incompetente, mas tamb\u00e9m como um Estado criminoso que nega todas as possibilidades de acesso \u00e0 justi\u00e7a e \u00e0 verdade. Mas tamb\u00e9m nos fala de novas maneiras pelas quais os parentes de pessoas desaparecidas est\u00e3o fazendo novas exig\u00eancias em rela\u00e7\u00e3o a uma tradi\u00e7\u00e3o de lutas que os precedeu.<\/p>\n\n\n\n<p>Esse conhecimento est\u00e1 presente no depoimento dos familiares quando eles evocam as barreiras que foram colocadas no caminho da puni\u00e7\u00e3o dos perpetradores, mesmo quando existem condi\u00e7\u00f5es para que isso seja poss\u00edvel. A maioria dos familiares conhece a identidade das pessoas respons\u00e1veis pelo desaparecimento, gra\u00e7as \u00e0s suas pr\u00f3prias investiga\u00e7\u00f5es. No entanto, apesar de todas as evid\u00eancias fornecidas ao Minist\u00e9rio P\u00fablico, durante anos houve neglig\u00eancia sistem\u00e1tica por parte das autoridades, aliada \u00e0 neglig\u00eancia grosseira e a pr\u00e1ticas corruptas que impedem que a justi\u00e7a seja alcan\u00e7ada:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"large-quote\">Eu sei quem levou meu marido. Ele era policial e foi de l\u00e1 que o levaram. \u00c9 claro que eles sabem quem foi, s\u00e3o os mesmos, ent\u00e3o nunca haver\u00e1 justi\u00e7a (Yolanda, esposa de um policial desaparecido em San Blas, Sinaloa, conversa pessoal, 12 de abril de 2016).<\/p>\n\n\n\n<p>Essa experi\u00eancia, repetida pela maioria dos membros da fam\u00edlia que tive a oportunidade de ouvir e conhecer durante anos de trabalho de campo, aponta n\u00e3o apenas para a anula\u00e7\u00e3o da possibilidade de justi\u00e7a no sistema local, mas tamb\u00e9m no sistema internacional. Por um lado, as fam\u00edlias sentem que a possibilidade de acessar os benef\u00edcios de um lit\u00edgio estrat\u00e9gico para levar seus casos a tribunais internacionais est\u00e1 distante, dada a escassez de recursos para facilitar o acesso a esses espa\u00e7os, a quantidade de requisitos exigidos para promov\u00ea-los e a efic\u00e1cia m\u00ednima desses processos; em termos da propor\u00e7\u00e3o entre casos denunciados e casos sancionados nesses tribunais e do cumprimento das recomenda\u00e7\u00f5es do Estado mexicano, os c\u00e1lculos de custo-benef\u00edcio n\u00e3o s\u00e3o muito favor\u00e1veis at\u00e9 o momento.<\/p>\n\n\n\n<p>Por outro lado, de acordo com o diagn\u00f3stico de P\u00e9rez-Sales e Navarro sobre a exuma\u00e7\u00e3o de valas comuns em 14 pa\u00edses latino-americanos (2007), os processos de busca e descoberta que foram acompanhados por organiza\u00e7\u00f5es internacionais n\u00e3o garantiram totalmente o acesso \u00e0 justi\u00e7a para os familiares de pessoas desaparecidas, sejam eles guiados por grupos independentes ou por autoridades governamentais. Apenas os casos do Chile e da Argentina parecem ter sido bem-sucedidos, pelo menos na puni\u00e7\u00e3o dos respons\u00e1veis, mas n\u00e3o na busca das pessoas desaparecidas, sem a qual a satisfa\u00e7\u00e3o do direito \u00e0 verdade ser\u00e1 sempre incompleta.<\/p>\n\n\n\n<p>A ren\u00fancia \u00e0 justi\u00e7a do Estado ou sua subordina\u00e7\u00e3o aos bastidores responde a uma consci\u00eancia de poder fazer algo aqui e agora: os parentes em busca reconhecem que n\u00e3o haver\u00e1 um futuro brilhante em que seus desaparecidos ser\u00e3o encontrados e preferem fazer algo enquanto podem, como uma forma de resist\u00eancia ativa e sobreviv\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>Embora a estrat\u00e9gia de n\u00e3o buscar os respons\u00e1veis possa ser lida por alguns grupos e especialistas como uma ren\u00fancia \u00e0 justi\u00e7a em termos formais e como uma forma de perpetuar a impunidade e permitir que os atos se repitam, a a\u00e7\u00e3o lida a partir de uma etnografia que busca significados localizados nos permite entender a capacidade de exercer um ato de restitui\u00e7\u00e3o e consci\u00eancia cr\u00edtica. Isso implica entender que a pr\u00e1tica dos direitos vai al\u00e9m da lei e est\u00e1 localizada nas formas cotidianas pelas quais os sujeitos d\u00e3o sentido e implementam o que \u00e9 justi\u00e7a para eles (Das e Poole, 2008). Para atender a essas pr\u00e1ticas cotidianas, \u00e9 necess\u00e1rio compreender a a\u00e7\u00e3o social a partir do \"interior\", ou seja, atendendo \u00e0 sua \"cor emocional\", o que a impulsiona, e n\u00e3o apenas \u00e0s estruturas preestabelecidas que racionalizam as pr\u00e1ticas humanas (Illouz, 2012) e as classificam em categorias moralmente predominantes. Essa abertura nos leva a considerar outros aspectos para entender quais significados a verdade adquire no campo espec\u00edfico do desaparecimento de pessoas no M\u00e9xico.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">A capacidade restauradora e desestabilizadora das exuma\u00e7\u00f5es<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"abstract\">A literatura sobre a exuma\u00e7\u00e3o de restos humanos tem insistido na capacidade restauradora desse ato, que \u00e9 assumido como uma \"resist\u00eancia ao esquecimento\" (P\u00e9rez-Sales e Navarro, 2007), raz\u00e3o pela qual \u00e9 um dos cen\u00e1rios mais relevantes entre as formas de cura das comunidades de v\u00edtimas (Berista\u00edn, 2000). No contexto das buscas de parentes que tive a oportunidade de acompanhar, a exuma\u00e7\u00e3o \u00e9 uma a\u00e7\u00e3o que gera rupturas pol\u00edticas e \u00e9ticas em pelo menos tr\u00eas aspectos: 1) permite que o parente se encarregue de sua pr\u00f3pria experi\u00eancia, como sujeito produtor de hist\u00f3ria e conhecimento; 2) devolve a humanidade a um corpo que foi despojado dessa condi\u00e7\u00e3o e 3) em alguns casos, permite a restitui\u00e7\u00e3o dos restos mortais da pessoa desaparecida a seus parentes.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m disso, as exuma\u00e7\u00f5es s\u00e3o atos desestabilizadores porque minam o medo imposto pelos atos de terror e corroem a experi\u00eancia privada do sofrimento, incentivando a a\u00e7\u00e3o coletiva; elas desafiam a verdade imposta pelo desaparecimento dos crimes e funcionam como uma aut\u00f3psia social que aponta para a exist\u00eancia de regimes de poder que atuam sobre a vida e a morte.<\/p>\n\n\n\n<p>Tentarei desenvolver esses aspectos nas se\u00e7\u00f5es a seguir, alertando que essas s\u00e3o propostas provis\u00f3rias para a compreens\u00e3o de um processo que ainda est\u00e1 em sua inf\u00e2ncia. Tentarei localizar o escopo e os limites desses processos coletivos em um campo de fortes tens\u00f5es e constante transforma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Capacidade de restaura\u00e7\u00e3o<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"abstract\">O \"posso fazer\" representa uma resist\u00eancia \u00e0s formas paralisantes de medo impostas pelo terror e pela administra\u00e7\u00e3o do sofrimento. Assim, a busca assume um car\u00e1ter de ag\u00eancia, na medida em que mobiliza indiv\u00edduos e grupos em torno de um interesse comum. Corpos aliados em movimento em busca de outros corpos:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"large-quote\">N\u00e3o me orgulho de ser um pesquisador ou de ter uma crian\u00e7a desaparecida, mas gosto de saber que podemos devolver uma crian\u00e7a \u00e0 m\u00e3e, um marido \u00e0 esposa. \u00c0s vezes, queremos que nossas m\u00e3os sejam garras, quando temos sinais de um corpo, queremos ter garras para cavar, queremos que n\u00e3o seja uma pessoa, queremos que seja um animal. Quando encontramos um corpo, podemos come\u00e7ar a chorar, mas quando percebemos que poderia ser um de n\u00f3s, oramos e agradecemos. Ningu\u00e9m tem o direito de lev\u00e1-los embora, de fazer isso com ningu\u00e9m (Mirna Miranda, Las Buscadoras de El Fuerte, conversa pessoal, 11 de maio de 2016).<\/p>\n\n\n\n<p>Essa a\u00e7\u00e3o n\u00e3o busca apenas interesses individuais, mas se configura como um tipo de solidariedade coletiva em que os pesquisadores n\u00e3o est\u00e3o apenas procurando por seus entes queridos, mas por todas as pessoas desaparecidas. \u00c9 uma a\u00e7\u00e3o que mobiliza emo\u00e7\u00f5es e afetos, colocando-os frente a frente com um tema pol\u00edtico que tem sido pouco abordado pelas ci\u00eancias sociais, que caracterizam as emo\u00e7\u00f5es como irrup\u00e7\u00f5es irracionais do estado de esp\u00edrito e a a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica como aquela produzida pela racionalidade dos agentes. Abordagens mais recentes, especialmente as feministas, tiraram as emo\u00e7\u00f5es do sil\u00eancio, removendo a exclusividade que a biologia e a psicologia tinham sobre elas, disciplinas que geralmente as colocam no campo individual e privado da vida. De acordo com essas abordagens, que poderiam ser enquadradas na chamada \"virada emocional\", as emo\u00e7\u00f5es n\u00e3o pertencem apenas \u00e0 esfera do \u00edntimo e do pr\u00e9-pol\u00edtico, mas s\u00e3o produzidas nas intera\u00e7\u00f5es sociais, sendo produzidas e produzindo o mundo social.<\/p>\n\n\n\n<p>Neste ponto, \u00e9 importante ressaltar que essa abordagem rompe com a dicotomia racionalidade\/emo\u00e7\u00e3o e pressup\u00f5e que as emo\u00e7\u00f5es, longe de interferir na tomada de decis\u00f5es racionais, podem, na verdade, incentiv\u00e1-la (Elster, 2002). Assim, ao nos concentrarmos na maneira como os atores \"sentem\" a participa\u00e7\u00e3o, estamos oferecendo uma oportunidade de encontrar indica\u00e7\u00f5es de como eles vivenciam a vida social (Otero, 2006).<\/p>\n\n\n\n<p>A busca impulsionada pelo amor, dor, indigna\u00e7\u00e3o, raiva e esperan\u00e7a produz zonas de intensifica\u00e7\u00e3o afetiva (Reguillo, 2017) nas quais a troca, a copresen\u00e7a e a conversa aumentam, articulando o que \u00e9 comum por meio da capacidade de afetar e ser afetado. A geografia da busca e da exuma\u00e7\u00e3o atua aqui como a zona onde as orienta\u00e7\u00f5es afetivas que conseguem transformar a experi\u00eancia emocional s\u00e3o condensadas: \"a vergonha se transforma em orgulho, medo e solid\u00e3o, em raiva e demanda; a tristeza, como uma paix\u00e3o triste, encontra a esperan\u00e7a de que outro mundo \u00e9 poss\u00edvel\" (Reguillo, 2017: 151).<\/p>\n\n\n\n<p>Essa condi\u00e7\u00e3o emocional da a\u00e7\u00e3o coletiva tamb\u00e9m revela o car\u00e1ter leg\u00edtimo da busca, entendendo a legitimidade como algo que vai al\u00e9m e at\u00e9 subverte o legal. A legitimidade \u00e9 dada pelo acionamento de um mecanismo \u00e9tico de solidariedade que se op\u00f5e \u00e0 indiferen\u00e7a e \u00e0 crueldade com que o sofrimento e a viol\u00eancia s\u00e3o administrados. Assim, a ag\u00eancia se baseia no ato coletivo de fazer algo que, embora possa ser ilegal, \u00e9 leg\u00edtimo por causa de suas consequ\u00eancias humanas e pol\u00edticas.<\/p>\n\n\n\n<p>A busca que re\u00fane as pessoas em torno de um interesse comum constitui um tipo de comunidade emocional, que surge em meio ao caos e \u00e0 desconfian\u00e7a, promovendo a possibilidade de a\u00e7\u00e3o coletiva e apoio moral. Essa experi\u00eancia leva \u00e0 constru\u00e7\u00e3o de la\u00e7os afetivos que ultrapassam as fronteiras locais. A troca de conhecimento e o apoio moral que as organiza\u00e7\u00f5es e os membros da fam\u00edlia oferecem a outras pessoas na mesma situa\u00e7\u00e3o s\u00e3o fundamentais nesse processo.<\/p>\n\n\n\n<p>Entretanto, a comunidade emocional n\u00e3o se limita necessariamente aos parentes de pessoas desaparecidas. No caso das buscas em Amatl\u00e1n, Veracruz, a Brigada Nacional estava sediada na igreja da cidade, onde o Padre Juli\u00e1n Ver\u00f3nica e sua comunidade de leigos comprometidos ofereceram abrigo, hospedagem, alimenta\u00e7\u00e3o e apoio espiritual durante a busca. Repetidamente, os membros da comunidade religiosa expressaram seu apoio e gratid\u00e3o aos parentes das pessoas desaparecidas por promoverem a busca em um local dizimado pelo sil\u00eancio e pelo medo. Da mesma forma, em Los Mochis, Sinaloa, as buscas s\u00e3o acompanhadas por homens e mulheres solid\u00e1rios que indicam sepulturas, apoiam o trabalho de divulga\u00e7\u00e3o ou doam materiais e alimentos para sustentar a a\u00e7\u00e3o dos pesquisadores.<\/p>\n\n\n\n<p>A exuma\u00e7\u00e3o de sepulturas clandestinas tamb\u00e9m \u00e9 restauradora porque possibilita a recupera\u00e7\u00e3o da condi\u00e7\u00e3o humana dos corpos amontoados na terra, queimados e cortados com o objetivo n\u00e3o apenas de acabar com a vida, mas, acima de tudo, com sua condi\u00e7\u00e3o de humanidade. Ela busca recuperar o v\u00ednculo perdido entre o corpo e seu nome. O ato de desenterrar e trazer esses corpos de volta ao mundo dos vivos para serem colocados em seu devido lugar restaura o valor dessas vidas. Esse objetivo, entretanto, \u00e9 um dos mais dif\u00edceis de alcan\u00e7ar devido \u00e0s condi\u00e7\u00f5es que impedem a identifica\u00e7\u00e3o efetiva:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"large-quote\">Estamos procurando em todos os lugares e n\u00e3o h\u00e1 como as autoridades progredirem na identifica\u00e7\u00e3o. H\u00e1 corpos e restos mortais empilhados nas promotorias e laborat\u00f3rios esperando para serem comparados com as amostras de DNA que eles t\u00eam. Precisamos de um sistema nacional de busca e identifica\u00e7\u00e3o forense. Do jeito que estamos agora, n\u00e3o adianta procurar se n\u00e3o identificarmos (Blanca Mart\u00ednez, Diretora do Centro Diocesano de Direitos Humanos Fray Juan de Larios, participa\u00e7\u00e3o na Mesa de Busca durante a reuni\u00e3o do MPNDM, 9 de maio de 2016).<\/p>\n\n\n\n<p>A aus\u00eancia de especialistas locais independentes est\u00e1 come\u00e7ando a criar um grande v\u00e1cuo no processo de exuma\u00e7\u00e3o no M\u00e9xico. Embora a busca tenha sido resolvida de forma autogerenciada, a identifica\u00e7\u00e3o continua nas m\u00e3os das autoridades estaduais e federais, que demonstraram sua incapacidade de lidar com o volume de restos mortais n\u00e3o identificados. Nesse contexto, algumas a\u00e7\u00f5es cidad\u00e3s, como a forma\u00e7\u00e3o da Equipe Mexicana de Antropologia Forense, a instala\u00e7\u00e3o de um laborat\u00f3rio de identifica\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica a servi\u00e7o dos familiares pela Universidade Aut\u00f4noma do Estado de Morelos e a iniciativa Ci\u00eancia Forense Cidad\u00e3, que prop\u00f4s a constru\u00e7\u00e3o de um biobanco de amostras gen\u00e9ticas sob a cust\u00f3dia da sociedade civil, s\u00e3o iniciativas encorajadoras, embora insuficientes diante de um cen\u00e1rio de grandes necessidades.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Capacidade de desestabiliza\u00e7\u00e3o<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"abstract\">Entre as consequ\u00eancias desestabilizadoras da exuma\u00e7\u00e3o de restos humanos por membros da fam\u00edlia est\u00e1 a altera\u00e7\u00e3o do estado de medo que mina a experi\u00eancia privada do sofrimento, incentivando assim a a\u00e7\u00e3o coletiva. No caso de Veracruz, foi poss\u00edvel identificar um estado de medo generalizado que impede as fam\u00edlias de se apresentarem para denunciar os fatos e se organizarem para a busca. A chegada dos brigadistas de outros estados a Amatl\u00e1n de los Reyes significou, de acordo com os habitantes locais, um incentivo para quebrar o sil\u00eancio, n\u00e3o apenas entre os parentes dos desaparecidos, muitos dos quais nem sequer ousaram denunciar, mas tamb\u00e9m entre a popula\u00e7\u00e3o que se apresentou para apontar poss\u00edveis locais de sepultamento clandestino e locais de exterm\u00ednio. Durante minha estada nessa comunidade, tive a oportunidade de receber duas fam\u00edlias que trouxeram informa\u00e7\u00f5es sobre locais de sepultamento localizados em Paso del Macho, uma cidade pr\u00f3xima, que tamb\u00e9m foram apontados por den\u00fancias an\u00f4nimas que chegaram \u00e0 igreja com pequenos mapas ou escritos an\u00f4nimos.<\/p>\n\n\n\n<p>O medo, no entanto, n\u00e3o \u00e9 um sentimento completamente eliminado. As condi\u00e7\u00f5es de seguran\u00e7a em que as exuma\u00e7\u00f5es s\u00e3o realizadas s\u00e3o um desafio para os pesquisadores. Muitos deles tiveram de enfrentar amea\u00e7as por causa de seu trabalho:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"large-quote\">Uma vez eu estava procurando na colina. Eu ia para as colinas \u00e0 procura de meu filho. \u00c0s vezes, eu chegava a uma fazenda como um fantasma e os trabalhadores me olhavam como se dissessem: \"De onde ela veio? Certa vez, encontrei um grupo de bandidos que parou o caminh\u00e3o ao meu lado e me perguntou para onde eu estava indo. N\u00e3o aguentei e comecei a chorar, disse a eles que estava procurando meu filho, que eles deveriam me deixar procur\u00e1-lo. Os bandidos me disseram que eu estava procurando meu filho e seguiram seu caminho\" (Chely, m\u00e3e de um jovem desaparecido em Piedras Negras, Tamaulipas).<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar dessa realidade, os parentes afirmam que \"eles mataram tudo, at\u00e9 o medo\". As m\u00faltiplas formas de viol\u00eancia que tiveram de enfrentar ao longo dos anos lhes permitem relativizar o risco e desenvolver um tipo de resist\u00eancia em que sua pr\u00f3pria integridade est\u00e1 em jogo:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"large-quote\">Foi gra\u00e7as ao trabalho de todas as fam\u00edlias que conseguimos dominar o medo, embora agora haja mais medo do que antes, todos n\u00f3s precisamos uns dos outros, porque os desaparecidos pertencem a todos n\u00f3s, e eles j\u00e1 nos colocaram nessa luta e para dar duro, como a av\u00f3 de Miguel Jim\u00e9nez Blanco costumava dizer \"a DIOS rogando y con el mazo dando\" TE BUSCAR\u00c9 hasta ENCONTRARTE alg\u00fan d\u00eda lo vamos a lograrlo (Mario Vergara, Comit\u00e9 Los Otros Desaparecidos de Iguala, comunica\u00e7\u00e3o por <em>O que \u00e9<\/em>A<em>pp<\/em>, 30 de novembro de 2015).<\/p>\n\n\n\n<p>A exuma\u00e7\u00e3o de sepulturas clandestinas tamb\u00e9m desafia o regime de n\u00e3o-verdade que foi imposto pelo desaparecimento dos crimes. A exuma\u00e7\u00e3o permite que a hist\u00f3ria seja vasculhada a contrapelo e, embora n\u00e3o atinja os ideais da verdade legal, promove a quebra da vers\u00e3o dominante, que consiste, acima de tudo, em negar a ocorr\u00eancia dos fatos e minimizar sua relev\u00e2ncia.<\/p>\n\n\n\n<p>Por fim, a exuma\u00e7\u00e3o de sepulturas clandestinas funciona como uma aut\u00f3psia social que aponta para a exist\u00eancia de um regime cujo n\u00facleo \u00e9 \"a instrumentaliza\u00e7\u00e3o generalizada da exist\u00eancia humana e a destrui\u00e7\u00e3o material de corpos e popula\u00e7\u00f5es\" (Mbembe, 2003), que se imp\u00f5e por meio da nega\u00e7\u00e3o da dignidade dos sujeitos. A exuma\u00e7\u00e3o revela essa expans\u00e3o da viol\u00eancia para setores at\u00e9 ent\u00e3o considerados seguros em termos de sua cidadania e que foram reconstitu\u00eddos como diferentes tipos de corpos (Das e Poole: 2008); corpos que n\u00e3o importam mais, corpos que incorporam o inimigo ou o sujeito desconfort\u00e1vel e dispens\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">O que \u00e9 aberto e o que \u00e9 fechado em uma exuma\u00e7\u00e3o?<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"abstract\">As formas de resist\u00eancia assumem trajet\u00f3rias incertas, n\u00e3o necessariamente opostas, mas sempre divergentes dos poderes institu\u00eddos. \"Elas tendem a operar a partir das esferas que lhes s\u00e3o atribu\u00eddas como espa\u00e7os de controle, revertendo-as. Movem-se em processos de longo prazo e envolvem uma mir\u00edade de estrat\u00e9gias em constante muta\u00e7\u00e3o, nas quais a mobilidade \u00e9 um aspecto decisivo\" (Calveiro, 2015). A luta espec\u00edfica dos familiares de pessoas desaparecidas no campo da busca de restos mortais guarda a mem\u00f3ria de antigas resist\u00eancias que eles \"atualizam\" nas circunst\u00e2ncias mut\u00e1veis do mundo global \"para ensaiar pr\u00e1ticas de luta e organiza\u00e7\u00e3o capazes de superar o medo e, paralelamente, as redes de poder que o instrumentalizam\" (Calveiro, 2015).<\/p>\n\n\n\n<p>Os parentes de pessoas desaparecidas que procuram seus entes queridos nos t\u00famulos se referem \u00e0 constru\u00e7\u00e3o de uma categoria de v\u00edtima \"emputecida\".<a class=\"anota\" id=\"anota25\" data-footnote=\"25\">25<\/a> (Castillejo, 2016), cansados e determinados a resistir \u00e0s formas impostas pela administra\u00e7\u00e3o do sofrimento e ao quadro de possibilidades de a\u00e7\u00e3o que lhes \u00e9 atribu\u00eddo. A busca por restos humanos se afasta das formalidades estabelecidas pelos c\u00e2nones da verdade e da justi\u00e7a, conceitos-chave dos cen\u00e1rios transicionais baseados n\u00e3o apenas nas leis nacionais de repara\u00e7\u00e3o e administra\u00e7\u00e3o da dor, mas tamb\u00e9m em dispositivos cient\u00edficos que marcam a racionalidade do que deve ser feito. Assim, eles se tornam atos de resist\u00eancia \u00e0s formas preestabelecidas de repara\u00e7\u00e3o, limitados pelas linguagens e pr\u00e1ticas do que \u00e9 enunciado e do que \u00e9 permitido, e constituem um desafio para a compreens\u00e3o das linguagens da dor em toda a sua diversidade e complexidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Nas palavras de Villoro, trata-se de um ato ilegal, mas leg\u00edtimo, que abre possibilidades de avan\u00e7ar para o estabelecimento de um espa\u00e7o de resist\u00eancia \"se no M\u00e9xico tentar lutar por justi\u00e7a se torna um ato ilegal, bem-vinda a ilegalidade\" (Villoro in UAEM, 2016, 31 de maio). Nesse cen\u00e1rio de dilemas \u00e9ticos e pol\u00edticos, a v\u00edtima que esperou por justi\u00e7a e passou horas nos labirintos burocr\u00e1ticos dos escrit\u00f3rios do governo, desiste de jogar esse jogo e promove novas formas de organiza\u00e7\u00e3o que apontam para no\u00e7\u00f5es localizadas de repara\u00e7\u00e3o, verdade e justi\u00e7a. Diante disso, n\u00f3s que acompanhamos esses processos somos obrigados a ampliar nossos pr\u00f3prios quadros de refer\u00eancia, por meio - e exclusivamente por meio - de uma epistemologia dial\u00f3gica que permita a circula\u00e7\u00e3o horizontal de significados entre os sujeitos que atuam no campo das exuma\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>O trabalho de campo no contexto da busca por restos humanos envolve n\u00e3o apenas fortes dilemas \u00e9ticos e emocionais, mas tamb\u00e9m um desafio \u00e0 seguran\u00e7a e \u00e0 integridade daqueles que participam desses processos, dadas as condi\u00e7\u00f5es de viol\u00eancia presentes nos locais onde s\u00e3o realizados e o car\u00e1ter amb\u00edguo das margens de legalidade dessa pr\u00e1tica.<a class=\"anota\" id=\"anota26\" data-footnote=\"26\">26<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Os desafios nesse contexto s\u00e3o enormes e n\u00e3o podem ser totalmente assimilados pelo autor deste artigo, talvez pela exist\u00eancia do que Robben e Nordstrom (1995) chamam de \"choque existencial\", referindo-se ao poss\u00edvel impacto no pesquisador da falta de treinamento para assumir determinados desafios. Francisco Ferr\u00e1ndiz (2008), que acompanhou a exuma\u00e7\u00e3o de sepulturas da repress\u00e3o na Espanha nos \u00faltimos anos, destaca que a etnografia \"ao p\u00e9 da sepultura\" requer um treinamento emocional gradual e um desenvolvimento consensual do papel que o antrop\u00f3logo social pode desempenhar nesse espa\u00e7o tradicionalmente dominado por arque\u00f3logos, antrop\u00f3logos f\u00edsicos e outros profissionais das \"ci\u00eancias duras\". Para enfrentar o desafio emocional, \u00e9 importante reconhecer que a comunica\u00e7\u00e3o de experi\u00eancias de sofrimento permite a cria\u00e7\u00e3o de uma comunidade emocional \"que incentiva a recupera\u00e7\u00e3o do sujeito e se torna um ve\u00edculo de recomposi\u00e7\u00e3o cultural e pol\u00edtica\" (Jimeno, 2007: 160). Esse fen\u00f4meno n\u00e3o acontece apenas com os sobreviventes, mas tamb\u00e9m com aqueles que decidem acompanh\u00e1-los, com aqueles que assumem ser \"testemunhas\" das atrocidades e seus vest\u00edgios.<\/p>\n\n\n\n<p>Dado que h\u00e1 uma aniquila\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica da veracidade do testemunho daqueles que sofreram viol\u00eancia, especialmente de sujeitos historicamente marginalizados dos espa\u00e7os de constru\u00e7\u00e3o da verdade, a figura da testemunha \"especialista\" se torna importante, pois permite que o testemunho seja acreditado juntamente com a coleta de provas e a fundamenta\u00e7\u00e3o te\u00f3rica (Stephen, 2015 em De Marinis, 2017). O papel da testemunha envolve n\u00e3o apenas observar a realidade, mas tamb\u00e9m comunic\u00e1-la. Portanto, \u00e9 necess\u00e1rio ativar um tipo de justi\u00e7a cognitiva que coloque o conhecimento e os sentimentos daqueles que buscam no centro, reconhecendo o escopo de suas pr\u00f3prias linguagens para dar conta de situa\u00e7\u00f5es que v\u00e3o al\u00e9m das possibilidades de enuncia\u00e7\u00e3o sobre o atroz e questionando os limites das linguagens t\u00e9cnicas e cient\u00edficas para conter essa realidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Assumir isso, no meu caso, participar, levou, ao longo dos anos, \u00e0 necessidade de criar redes de trabalho que abram os horizontes do di\u00e1logo interdisciplinar, com o objetivo de olhar para os t\u00famulos a partir de abordagens complexas, especialmente a partir do di\u00e1logo entre a antropologia social, a antropologia f\u00edsica e a arqueologia forense, mas, acima de tudo, a partir do pr\u00f3prio conhecimento das comunidades e de suas estrat\u00e9gias de gest\u00e3o da viol\u00eancia.<a class=\"anota\" id=\"anota27\" data-footnote=\"27\">27<\/a> Essa troca de conhecimento exige uma ruptura epist\u00eamica fundamental que se baseia na tradu\u00e7\u00e3o intercultural e na natureza humanizadora e dignificante do processo de recupera\u00e7\u00e3o de restos humanos.<\/p>\n\n\n\n<p>Por um lado, no que diz respeito ao reconhecimento de corpos enterrados clandestinamente, a primeira ruptura epist\u00eamica tem a ver com a incorpora\u00e7\u00e3o de outras perspectivas sobre o corpo humano, al\u00e9m do seu car\u00e1ter biol\u00f3gico e f\u00edsico, t\u00e3o comum nas ci\u00eancias exatas que dominam as pr\u00e1ticas de exuma\u00e7\u00e3o. Em rela\u00e7\u00e3o ao reconhecimento dos familiares como detentores de conhecimento e experi\u00eancia, isso implica a implementa\u00e7\u00e3o de metodologias dial\u00f3gicas e colaborativas que problematizem as categorias dicot\u00f4micas que reproduzem e instituem a desigualdade no campo das exuma\u00e7\u00f5es entre o conhecimento \"especializado\" e outros conhecimentos (civilizado\/selvagem, ci\u00eancia\/supersti\u00e7\u00e3o, natureza e cultura).<\/p>\n\n\n\n<p>Um \u00faltimo ponto tem a ver com o desafio de lidar com os processos de busca e exuma\u00e7\u00e3o de restos humanos em regimes democr\u00e1ticos que n\u00e3o correspondem \u00e0 justi\u00e7a transicional ou \u00e0s estruturas p\u00f3s-conflito das quais os antrop\u00f3logos e outros profissionais do humanitarismo forense t\u00eam participado tradicionalmente.<\/p>\n\n\n\n<p>A pluralidade de trajet\u00f3rias de busca e exuma\u00e7\u00e3o de restos humanos que estamos testemunhando atualmente no M\u00e9xico coloca os familiares e a sociedade como um todo diante de fortes dilemas \u00e9ticos e pol\u00edticos, sobre os quais teremos que continuar discutindo e produzindo conhecimento. O que se segue a essas trajet\u00f3rias de busca n\u00e3o ser\u00e1 responsabilidade apenas dos familiares de pessoas desaparecidas. Afinal, os dispositivos de \"fabrica\u00e7\u00e3o de corpos\" (Rojas-P\u00e9rez, 2017) dos poderes criminosos, incluindo o enterro clandestino de restos humanos, n\u00e3o afetam apenas os familiares de pessoas desaparecidas. Seu efeito de mancha atinge a todos n\u00f3s.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Bibliografia<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"bibliography\" data-no-auto-translation=\"\">Benjamin, Walter (2008). <em>Tesis sobre la historia y otros fragmentos<\/em>. M\u00e9xico: Itaca\/UACM.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"bibliography\" data-no-auto-translation=\"\">Berista\u00edn, Mart\u00edn (2000). \u201cJusticia y reconciliaci\u00f3n: El papel de la verdad y la justicia en la reconstrucci\u00f3n de sociedades fracturadas por la violencia\u201d. cuaderno de trabajo,<em> Cuadernos de Hegoa<\/em>, n\u00fam. 27. Disponible en: <a href=\"http:\/\/publicaciones.hegoa.ehu.es\/publications\/120\">http:\/\/publicaciones.hegoa.ehu.es\/publications\/120<\/a>, consultado el 26 de diciembre 2016. .<\/p>\n\n\n\n<p class=\"bibliography\" data-no-auto-translation=\"\">Blair, Elsa (2004). \u201cLa pol\u00edtica punitiva del cuerpo: \u201ceconom\u00eda del castigo\u201d o mec\u00e1nica del sufrimiento en Colombia\u201d. <em>Estudios Pol\u00edticos,<\/em> n\u00fam. 36, enero-junio, pp. 39-66.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"bibliography\" data-no-auto-translation=\"\">Calveiro, Pilar (2015). \u201cPol\u00edticas de miedo y resistencias locales\u201d. <em>Athenea Digital<\/em>, vol. 4, n\u00fam. 15, pp. 35-59.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"bibliography\" data-no-auto-translation=\"\">Castillejo, Alejandro (2016). Conferencia: \u201cTestimonio, v\u00edctimas y luchas por la verdad: Reflexiones cr\u00edticas desde Latinoam\u00e9rica para el caso de Ayotzinapa\u201d, 16 de mayo. Ciudad de M\u00e9xico: Instituto de Investigaciones Jur\u00eddicas-UNAM.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"bibliography\" data-no-auto-translation=\"\">Comisi\u00f3n Mexicana de Defensa y Protecci\u00f3n de los Derechos Humanos (CMDPDH) e Instituto Mexicano de Derechos Humanos y Democracia (IMDHD) (2013). <em>Acceso a la justicia en Me\u0301xico: La constante impunidad en casos de violaciones a derechos humanos,<\/em> CMDPDH, IMDHD M\u00e9xico. Recuperado de <a href=\"http:\/\/www.cmdpdh.org\/publicaciones-pdf\/cmdpdh-acceso-a-la-justicia-en-mexico.pdf\">http:\/\/www.cmdpdh.org\/publicaciones-pdf\/cmdpdh-acceso-a-la-justicia-en-mexico.pdf<\/a>, consultado el 26 de diciembre 2018.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"bibliography\" data-no-auto-translation=\"\">Comisi\u00f3n Interamericana de Derechos Humanos (CIDH) (2016). S<em>ituaci\u00f3n de los Derechos Humanos en M\u00e9xico<\/em>, Organizaci\u00f3n de los Estados Americanos, OEA\/Ser.L\/V\/II, Doc. 44\/15.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"bibliography\" data-no-auto-translation=\"\">Corte Interamericana de Derechos Humanos (CoIDH) (2018). \u201cCaso Alvarado Espinoza y otros <em>vs.<\/em> Me\u0301xico, sentencia de 28 de noviembre de 2018\u201d. Recuperado de <a href=\"http:\/\/www.corteidh.or.cr\/docs\/casos\/articulos\/seriec_370_esp.pdf?fbclid=IwAR2FlNS3wiEU6AHtN785kqa3cD6vb0uFOeb4dQNwaArqHQTsju5PzMQ_VG8\">http:\/\/www.corteidh.or.cr\/docs\/casos\/articulos\/seriec_370_esp.pdf?fbclid=IwAR2FlNS3wiEU6AHtN785kqa3cD6vb0uFOeb4dQNwaArqHQTsju5PzMQ_VG8<\/a>, consultado el 26 de diciembre 2018.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"bibliography\" data-no-auto-translation=\"\">Das, Veena y Deborah Poole (2008). \u201cEl estado y sus m\u00e1rgenes: Etnograf\u00edas comparadas\u201d. <em>Cuadernos de Antropolog\u00eda Social<\/em>, n\u00fam. 27, pp. 19-52.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"bibliography\" data-no-auto-translation=\"\">De Marinis, Natalia (2017). \u201cEtnografiar (en) el terror: El ser testigo y la construcci\u00f3n de comunidades-pol\u00edtico-afectivas: Reflexiones a partir de una experiencia de campo\u201d. <em>Cuadernos de trabajo de MESO,<\/em> n\u00fam.5, pp. 9-21. Recuperado de <a href=\"https:\/\/bit.ly\/2QusTaO\">https:\/\/bit.ly\/2QusTaO<\/a>, consultado el 12 de diciembre 2018.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"bibliography\" data-no-auto-translation=\"\">Elster, Jon (2002). <em>Alquimias de la mente, la racionalidad y las emociones<\/em>. Barcelona: Paido\u0301s.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"bibliography\" data-no-auto-translation=\"\">Est\u00e9vez L\u00f3pez, Ariadna (2015). \u201cLa crisis de derechos humanos y el dispositivo de administraci\u00f3n del sufrimiento: necropol\u00edtica p\u00fablica de v\u00edctimas, defensores y periodistas en M\u00e9xico\u201d. <em>El Cotidiano<\/em>, n\u00fam. 194, pp. 7-17.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"bibliography\" data-no-auto-translation=\"\">Ferr\u00e1ndiz, Francisco (2014). <em>El pasado bajo tierra. Exhumaciones contempor\u00e1neas de la guerra civil<\/em>. Barcelona: Anthropos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"bibliography\" data-no-auto-translation=\"\">_________________ (2008). \u201cL<em>a etnograf\u00eda como campo de minas: De las violencias cotidianas a los paisajes posb\u00e9licos\u201d<\/em>, en Margaret Bullen y Carmen D\u00edez Mintegui (coords.). <em>Retos Te\u00f3ricos y Nuevas Pr\u00e1cticas. XI Congreso de Antropolog\u00eda de la Federaci\u00f3n de Asociaciones de Antropolog\u00eda del Estado Espa\u00f1ol (FAAEE)<\/em>, pp. 89-115.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"bibliography\" data-no-auto-translation=\"\">_________________ (2007). \u201cExhumaciones y pol\u00edticas de la memoria en la Espa\u00f1a contempor\u00e1nea\u201d. <em>Hispania Nova<\/em>, <em>Revista de Historia Contempor\u00e1nea,<\/em> n\u00fam. 7. Recuperado de <a href=\"http:\/\/hispanianova.rediris.es\/\">http:\/\/hispanianova.rediris.es<\/a>, consultado el 26 de diciembre 2016.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"bibliography\" data-no-auto-translation=\"\">Grupo de Trabajo de la ONU sobre las Desapariciones Forzadas o Involuntarias (2012). <em>Informe de Misi\u00f3n a M\u00e9xico<\/em>, Oficina del Alto Comisionado de los Derechos Humanos en M\u00e9xico, M\u00e9xico, p. 27.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"bibliography\" data-no-auto-translation=\"\">Grupo Interdisciplinario de Expertos Independientes (GIEI) (2016). <em>Informe Ayotzinapa: Avances y nuevas conclusiones sobre la investigaci\u00f3n, b\u00fasqueda y atenci\u00f3n a las v\u00edctimas<\/em>. M\u00e9xico: CIDH.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"bibliography\" data-no-auto-translation=\"\">_______________________________________________ (2015). <em>Informe Ayotzinapa: Investigaci\u00f3n y primeras conclusiones de las desapariciones y homicidios de los normalistas de Ayotzinapa<\/em>. M\u00e9xico: CIDH.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"bibliography\" data-no-auto-translation=\"\">Human Rights Watch (HRW) (2013). <em>Los desaparecidos de M\u00e9xico, el persistente costo de una crisis ignorada<\/em>. EE. UU.: HRW.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"bibliography\" data-no-auto-translation=\"\">Illouz, Eva (2012). <em>Por qu\u00e9 duele el amor: una explicaci\u00f3n sociol\u00f3gica<\/em>. Espa\u00f1a: Katz.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"bibliography\" data-no-auto-translation=\"\">Jimeno, Miryam (2007). \u201cLenguaje, Subjetividad y experiencias de violencia\u201d. <em>Ant\u00edpoda,<\/em> n\u00fam. 5, julio-diciembre, pp. 169-190.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"bibliography\" data-no-auto-translation=\"\">Mbembe,&nbsp;Achille (2012). \u201cNecropol\u00edtica, una revisi\u00f3n cr\u00edtica\u201d, en Ch\u00e1vez Mac Gregor, Helena (curadora acad\u00e9mica).&nbsp;<em>Est\u00e9tica y violencia: necropol\u00edtica, militarizaci\u00f3n y vidas lloradas<\/em>. M\u00e9xico: Museo Universitario de Arte Contempor\u00e1neo, pp. 130-139.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"bibliography\" data-no-auto-translation=\"\">_____________ (2003). \u201cNecropolitics\u201d. <em>Public Culture<\/em>, vol. 15, n\u00fam. 1, pp. 11-40.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"bibliography\" data-no-auto-translation=\"\">Nahoum-Grappe, V\u00e9ronique (2002). \u201cAnthropologie de la violence extr\u00eame: le crime de profanation\u201d. <em>Revue Internationale des Sciences Sociales<\/em>, n\u00fam. 174, pp. 601\u2013609.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"bibliography\" data-no-auto-translation=\"\">Naqvi, Yasmin (2006). \u201cEl derecho a la verdad en el derecho internacional: \u00bfrealidad o ficci\u00f3n?\u201d. <em>International Review of Red Cross<\/em>, junio, n\u00fam. 862 de la versi\u00f3n original.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"bibliography\" data-no-auto-translation=\"\">Nordstrom, Carolyn y Antonius Robben (eds.) (1995). <em>Fieldwork Under Fire: Contemporary Studies of Violence and Survival<\/em>. Berkeley: University of California Press.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"bibliography\" data-no-auto-translation=\"\">Open Society Foundations (2016). <em>Atrocidades innegables: Confrontando cr\u00edmenes de lesa humanidad en M\u00e9xico: confrontando cr\u00edmenes de lesa humanidad en M\u00e9xico<\/em>. Nueva York: OSF.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"bibliography\" data-no-auto-translation=\"\">P\u00e9rez-Sales, Pau y Susana Navarro Garc\u00eda (2007). <em>Resistencias contra el olvido: Trabajo psicosocial en procesos de exhumaciones<\/em>. Barcelona: Gedisa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"bibliography\" data-no-auto-translation=\"\">Registro Nacional de Datos de Personas Extraviadas o Desaparecidas (RNDPED) (2018). Recuperado de <a href=\"https:\/\/rnped.segob.gob.mx\/\">https:\/\/rnped.segob.gob.mx<\/a>, consultado el 25 de junio de 2018.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"bibliography\" data-no-auto-translation=\"\">Reguillo, Rossana (2017). <em>Paisajes insurrectos. J\u00f3venes, redes y revueltas en el oto\u00f1o civilizatorio<\/em>. Barcelona: Ned Ediciones.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"bibliography\" data-no-auto-translation=\"\">Robledo Silvestre, Carolina (2017). <em>Drama Social y Pol\u00edtica del Duelo: Las Desapariciones de la Guerra contra las Drogas en Tijuana<\/em>. M\u00e9xico: El Colegio de M\u00e9xico.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"bibliography\" data-no-auto-translation=\"\">Rojas-P\u00e9rez, Isa\u00edas (2017). <em>Mourning Remains State Atrocity, Exhumations, and Governing the Disappeared in Peru\u2019s Postwar Andes<\/em>. Stanford: Stanford University Press California.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"bibliography\" data-no-auto-translation=\"\">Rosenblatt, Adam (2015). <em>Digging for the disappeared. Forensic Science after atrocity<\/em>. Stanford: Stanford University Press.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"bibliography\" data-no-auto-translation=\"\">Universidad Aut\u00f3noma del Estado de Morelos (UAEM) (2016). Comunicado: \u201cSi en M\u00e9xico tratar de luchar por la justicia se convierte en un acto ilegal, bienvenida la ilegalidad: Villoro\u201d, 31 de mayo. Recuperado de <a href=\"http:\/\/www.uaem.mx\/difusion-y-medios\/publicaciones\/boletines\/si-en-mexico-tratar-de-luchar-por-la-justicia-se-convierte-en-un-acto-ilegal-bienvenida-la-ilegalidad-villoro\">http:\/\/www.uaem.mx\/difusion-y-medios\/publicaciones\/boletines\/si-en-mexico-tratar-de-luchar-por-la-justicia-se-convierte-en-un-acto-ilegal-bienvenida-la-ilegalidad-villoro<\/a><a id=\"post-30904-__DdeLink__6233_3510638\"><\/a>, consultado el 26 de diciembre de 2018.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"bibliography\" data-no-auto-translation=\"\">Urteaga, Maritza y Hugo&nbsp;C\u00e9sar&nbsp;Moreno (2015). \u201cCorrupci\u00f3n e impunidad <em>versus<\/em> Justicia y Derecho en M\u00e9xico\u201d, en Jos\u00e9 Manuel Valenzuela. <em>Juvenicidio: Ayotzinapa y las vidas precarias en Am\u00e9rica Latina y Espa\u00f1a<\/em>. Barcelona: Ned Ediciones, pp. 79-98.,<\/p>\n\n\n\n<p class=\"bibliography\" data-no-auto-translation=\"\">Valdez, Javier (2014). \u201cSinaloenses organizan brigadas para buscar cuerpos de familiares y amigos desaparecidos\u201d. <em>La Jornada<\/em>, 15 de mayo. Recuperado de <a href=\"http:\/\/www.jornada.unam.mx\/2014\/05\/16\/estados\/031n1est\">http:\/\/www.jornada.unam.mx\/2014\/05\/16\/estados\/031n1est<\/a>, consultado el 26 de diciembre de 2018.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"bibliography\" data-no-auto-translation=\"\">Vilena Fiengo, Sergio (2003). \u201cWalter Benjamin o la historia a contrapelo\u201d. <em>Revista de Ciencias Sociales<\/em> (Cr), vol. II, n\u00fam. 100, pp. 95-101.<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Este artigo se prop\u00f5e a refletir sobre a multiplica\u00e7\u00e3o de enterros ilegais de restos humanos no M\u00e9xico no in\u00edcio do s\u00e9culo XXI, com base em seu poder coercitivo como mecanismo de terror, mas tamb\u00e9m em sua capacidade de incentivar a a\u00e7\u00e3o coletiva, desafiar a verdade oficial e atuar como uma aut\u00f3psia do regime pol\u00edtico-social de precariedade e desigualdade neoliberal. Com base nas experi\u00eancias dos parentes de pessoas desaparecidas em busca da verdade, o artigo levanta as tens\u00f5es ainda n\u00e3o resolvidas em torno do direito \u00e0 verdade diante da expans\u00e3o da crueldade exposta pelo enterro irregular dos mortos e nos convida a pensar sobre os desafios epistemol\u00f3gicos e \u00e9ticos enfrentados pelas testemunhas-investigadoras nesses cen\u00e1rios de guerra.<\/p>","protected":false},"author":4,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[279],"tags":[366,364,365,367],"coauthors":[551],"class_list":["post-30904","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-279","tag-desaparicion-forzada","tag-exhumaciones","tag-fosas-comunes","tag-verdad","personas-robledo-silvestre-carolina","numeros-362"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v22.2 - https:\/\/yoast.com\/wordpress\/plugins\/seo\/ -->\n<title>Peinar la historia a contrapelo: reflexiones en torno a la b\u00fasqueda y exhumaci\u00f3n de fosas comunes en M\u00e9xico &#8211; Encartes<\/title>\n<meta name=\"robots\" content=\"index, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<link rel=\"canonical\" href=\"https:\/\/encartes.mx\/pt\/exhumacion-fosas-comunes-mexico\/\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_BR\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"Peinar la historia a contrapelo: reflexiones en torno a la b\u00fasqueda y exhumaci\u00f3n de fosas comunes en M\u00e9xico &#8211; Encartes\" \/>\n<meta property=\"og:description\" content=\"Este art\u00edculo propone reflexionar en torno a la multiplicaci\u00f3n de enterramientos ilegales de restos humanos en el M\u00e9xico de inicios del siglo XXI, partiendo de su poder coercitivo como mecanismo de terror, pero tambi\u00e9n de su capacidad para propiciar la acci\u00f3n colectiva, desafiar la verdad oficial y actuar como una autopsia del r\u00e9gimen pol\u00edtico-social de precarizaci\u00f3n y desigualdad neoliberal. A partir de las experiencias de los familiares de personas desaparecidas en b\u00fasqueda, se plantean las tensiones a\u00fan no resueltas en torno al derecho a la verdad frente a la expansi\u00f3n de la crueldad que expone la inhumaci\u00f3n irregular de los muertos, y se invita a pensar en los desaf\u00edos epistemol\u00f3gicos y \u00e9ticos que enfrentan los investigadores-testigos en estos paisajes b\u00e9licos.\" \/>\n<meta property=\"og:url\" content=\"https:\/\/encartes.mx\/pt\/exhumacion-fosas-comunes-mexico\/\" \/>\n<meta property=\"og:site_name\" content=\"Encartes\" \/>\n<meta property=\"article:published_time\" content=\"2019-03-21T15:15:41+00:00\" \/>\n<meta property=\"article:modified_time\" content=\"2023-11-18T00:57:19+00:00\" \/>\n<meta name=\"author\" content=\"Arthur Ventura\" \/>\n<meta name=\"twitter:card\" content=\"summary_large_image\" \/>\n<meta name=\"twitter:label1\" content=\"Escrito por\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data1\" content=\"Arthur Ventura\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:label2\" content=\"Est. tempo de leitura\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data2\" content=\"40 minutos\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:label3\" content=\"Written by\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data3\" content=\"Arthur Ventura\" \/>\n<script type=\"application\/ld+json\" class=\"yoast-schema-graph\">{\"@context\":\"https:\/\/schema.org\",\"@graph\":[{\"@type\":\"Article\",\"@id\":\"https:\/\/encartes.mx\/exhumacion-fosas-comunes-mexico\/#article\",\"isPartOf\":{\"@id\":\"https:\/\/encartes.mx\/exhumacion-fosas-comunes-mexico\/\"},\"author\":{\"name\":\"Arthur Ventura\",\"@id\":\"https:\/\/encartes.mx\/#\/schema\/person\/97215bba1729028a4169cab07f8e58ef\"},\"headline\":\"Peinar la historia a contrapelo: reflexiones en torno a la b\u00fasqueda y exhumaci\u00f3n de fosas comunes en M\u00e9xico\",\"datePublished\":\"2019-03-21T15:15:41+00:00\",\"dateModified\":\"2023-11-18T00:57:19+00:00\",\"mainEntityOfPage\":{\"@id\":\"https:\/\/encartes.mx\/exhumacion-fosas-comunes-mexico\/\"},\"wordCount\":9616,\"commentCount\":0,\"publisher\":{\"@id\":\"https:\/\/encartes.mx\/#organization\"},\"keywords\":[\"desaparici\u00f3n forzada\",\"exhumaciones\",\"fosas comunes\",\"verdad\"],\"articleSection\":[\"Dosier\"],\"inLanguage\":\"pt-BR\",\"potentialAction\":[{\"@type\":\"CommentAction\",\"name\":\"Comment\",\"target\":[\"https:\/\/encartes.mx\/exhumacion-fosas-comunes-mexico\/#respond\"]}]},{\"@type\":\"WebPage\",\"@id\":\"https:\/\/encartes.mx\/exhumacion-fosas-comunes-mexico\/\",\"url\":\"https:\/\/encartes.mx\/exhumacion-fosas-comunes-mexico\/\",\"name\":\"Peinar la historia a contrapelo: reflexiones en torno a la b\u00fasqueda y exhumaci\u00f3n de fosas comunes en M\u00e9xico &#8211; Encartes\",\"isPartOf\":{\"@id\":\"https:\/\/encartes.mx\/#website\"},\"datePublished\":\"2019-03-21T15:15:41+00:00\",\"dateModified\":\"2023-11-18T00:57:19+00:00\",\"breadcrumb\":{\"@id\":\"https:\/\/encartes.mx\/exhumacion-fosas-comunes-mexico\/#breadcrumb\"},\"inLanguage\":\"pt-BR\",\"potentialAction\":[{\"@type\":\"ReadAction\",\"target\":[\"https:\/\/encartes.mx\/exhumacion-fosas-comunes-mexico\/\"]}]},{\"@type\":\"BreadcrumbList\",\"@id\":\"https:\/\/encartes.mx\/exhumacion-fosas-comunes-mexico\/#breadcrumb\",\"itemListElement\":[{\"@type\":\"ListItem\",\"position\":1,\"name\":\"Home\",\"item\":\"https:\/\/encartes.mx\/\"},{\"@type\":\"ListItem\",\"position\":2,\"name\":\"Peinar la historia a contrapelo: reflexiones en torno a la b\u00fasqueda y exhumaci\u00f3n de fosas comunes en M\u00e9xico\"}]},{\"@type\":\"WebSite\",\"@id\":\"https:\/\/encartes.mx\/#website\",\"url\":\"https:\/\/encartes.mx\/\",\"name\":\"Encartes\",\"description\":\"Revista digital multimedia\",\"publisher\":{\"@id\":\"https:\/\/encartes.mx\/#organization\"},\"potentialAction\":[{\"@type\":\"SearchAction\",\"target\":{\"@type\":\"EntryPoint\",\"urlTemplate\":\"https:\/\/encartes.mx\/?s={search_term_string}\"},\"query-input\":\"required name=search_term_string\"}],\"inLanguage\":\"pt-BR\"},{\"@type\":\"Organization\",\"@id\":\"https:\/\/encartes.mx\/#organization\",\"name\":\"Encartes Antropol\u00f3gicos\",\"url\":\"https:\/\/encartes.mx\/\",\"logo\":{\"@type\":\"ImageObject\",\"inLanguage\":\"pt-BR\",\"@id\":\"https:\/\/encartes.mx\/#\/schema\/logo\/image\/\",\"url\":\"https:\/\/encartes.mx\/wp-content\/uploads\/2017\/04\/Logo-04.png\",\"contentUrl\":\"https:\/\/encartes.mx\/wp-content\/uploads\/2017\/04\/Logo-04.png\",\"width\":338,\"height\":306,\"caption\":\"Encartes Antropol\u00f3gicos\"},\"image\":{\"@id\":\"https:\/\/encartes.mx\/#\/schema\/logo\/image\/\"}},{\"@type\":\"Person\",\"@id\":\"https:\/\/encartes.mx\/#\/schema\/person\/97215bba1729028a4169cab07f8e58ef\",\"name\":\"Arthur Ventura\",\"image\":{\"@type\":\"ImageObject\",\"inLanguage\":\"pt-BR\",\"@id\":\"https:\/\/encartes.mx\/#\/schema\/person\/image\/8a45818ea77a67a00c058d294424a6f6\",\"url\":\"https:\/\/secure.gravatar.com\/avatar\/e8ff614b2fa0d91ff6c65f328a272c53?s=96&d=identicon&r=g\",\"contentUrl\":\"https:\/\/secure.gravatar.com\/avatar\/e8ff614b2fa0d91ff6c65f328a272c53?s=96&d=identicon&r=g\",\"caption\":\"Arthur Ventura\"}}]}<\/script>\n<!-- \/ Yoast SEO plugin. -->","yoast_head_json":{"title":"Peinar la historia a contrapelo: reflexiones en torno a la b\u00fasqueda y exhumaci\u00f3n de fosas comunes en M\u00e9xico &#8211; Encartes","robots":{"index":"index","follow":"follow","max-snippet":"max-snippet:-1","max-image-preview":"max-image-preview:large","max-video-preview":"max-video-preview:-1"},"canonical":"https:\/\/encartes.mx\/pt\/exhumacion-fosas-comunes-mexico\/","og_locale":"pt_BR","og_type":"article","og_title":"Peinar la historia a contrapelo: reflexiones en torno a la b\u00fasqueda y exhumaci\u00f3n de fosas comunes en M\u00e9xico &#8211; Encartes","og_description":"Este art\u00edculo propone reflexionar en torno a la multiplicaci\u00f3n de enterramientos ilegales de restos humanos en el M\u00e9xico de inicios del siglo XXI, partiendo de su poder coercitivo como mecanismo de terror, pero tambi\u00e9n de su capacidad para propiciar la acci\u00f3n colectiva, desafiar la verdad oficial y actuar como una autopsia del r\u00e9gimen pol\u00edtico-social de precarizaci\u00f3n y desigualdad neoliberal. A partir de las experiencias de los familiares de personas desaparecidas en b\u00fasqueda, se plantean las tensiones a\u00fan no resueltas en torno al derecho a la verdad frente a la expansi\u00f3n de la crueldad que expone la inhumaci\u00f3n irregular de los muertos, y se invita a pensar en los desaf\u00edos epistemol\u00f3gicos y \u00e9ticos que enfrentan los investigadores-testigos en estos paisajes b\u00e9licos.","og_url":"https:\/\/encartes.mx\/pt\/exhumacion-fosas-comunes-mexico\/","og_site_name":"Encartes","article_published_time":"2019-03-21T15:15:41+00:00","article_modified_time":"2023-11-18T00:57:19+00:00","author":"Arthur Ventura","twitter_card":"summary_large_image","twitter_misc":{"Escrito por":"Arthur Ventura","Est. tempo de leitura":"40 minutos","Written by":"Arthur Ventura"},"schema":{"@context":"https:\/\/schema.org","@graph":[{"@type":"Article","@id":"https:\/\/encartes.mx\/exhumacion-fosas-comunes-mexico\/#article","isPartOf":{"@id":"https:\/\/encartes.mx\/exhumacion-fosas-comunes-mexico\/"},"author":{"name":"Arthur Ventura","@id":"https:\/\/encartes.mx\/#\/schema\/person\/97215bba1729028a4169cab07f8e58ef"},"headline":"Peinar la historia a contrapelo: reflexiones en torno a la b\u00fasqueda y exhumaci\u00f3n de fosas comunes en M\u00e9xico","datePublished":"2019-03-21T15:15:41+00:00","dateModified":"2023-11-18T00:57:19+00:00","mainEntityOfPage":{"@id":"https:\/\/encartes.mx\/exhumacion-fosas-comunes-mexico\/"},"wordCount":9616,"commentCount":0,"publisher":{"@id":"https:\/\/encartes.mx\/#organization"},"keywords":["desaparici\u00f3n forzada","exhumaciones","fosas comunes","verdad"],"articleSection":["Dosier"],"inLanguage":"pt-BR","potentialAction":[{"@type":"CommentAction","name":"Comment","target":["https:\/\/encartes.mx\/exhumacion-fosas-comunes-mexico\/#respond"]}]},{"@type":"WebPage","@id":"https:\/\/encartes.mx\/exhumacion-fosas-comunes-mexico\/","url":"https:\/\/encartes.mx\/exhumacion-fosas-comunes-mexico\/","name":"Peinar la historia a contrapelo: reflexiones en torno a la b\u00fasqueda y exhumaci\u00f3n de fosas comunes en M\u00e9xico &#8211; Encartes","isPartOf":{"@id":"https:\/\/encartes.mx\/#website"},"datePublished":"2019-03-21T15:15:41+00:00","dateModified":"2023-11-18T00:57:19+00:00","breadcrumb":{"@id":"https:\/\/encartes.mx\/exhumacion-fosas-comunes-mexico\/#breadcrumb"},"inLanguage":"pt-BR","potentialAction":[{"@type":"ReadAction","target":["https:\/\/encartes.mx\/exhumacion-fosas-comunes-mexico\/"]}]},{"@type":"BreadcrumbList","@id":"https:\/\/encartes.mx\/exhumacion-fosas-comunes-mexico\/#breadcrumb","itemListElement":[{"@type":"ListItem","position":1,"name":"Home","item":"https:\/\/encartes.mx\/"},{"@type":"ListItem","position":2,"name":"Peinar la historia a contrapelo: reflexiones en torno a la b\u00fasqueda y exhumaci\u00f3n de fosas comunes en M\u00e9xico"}]},{"@type":"WebSite","@id":"https:\/\/encartes.mx\/#website","url":"https:\/\/encartes.mx\/","name":"Encartes","description":"Revista digital multimedia","publisher":{"@id":"https:\/\/encartes.mx\/#organization"},"potentialAction":[{"@type":"SearchAction","target":{"@type":"EntryPoint","urlTemplate":"https:\/\/encartes.mx\/?s={search_term_string}"},"query-input":"required name=search_term_string"}],"inLanguage":"pt-BR"},{"@type":"Organization","@id":"https:\/\/encartes.mx\/#organization","name":"Encartes Antropol\u00f3gicos","url":"https:\/\/encartes.mx\/","logo":{"@type":"ImageObject","inLanguage":"pt-BR","@id":"https:\/\/encartes.mx\/#\/schema\/logo\/image\/","url":"https:\/\/encartes.mx\/wp-content\/uploads\/2017\/04\/Logo-04.png","contentUrl":"https:\/\/encartes.mx\/wp-content\/uploads\/2017\/04\/Logo-04.png","width":338,"height":306,"caption":"Encartes Antropol\u00f3gicos"},"image":{"@id":"https:\/\/encartes.mx\/#\/schema\/logo\/image\/"}},{"@type":"Person","@id":"https:\/\/encartes.mx\/#\/schema\/person\/97215bba1729028a4169cab07f8e58ef","name":"Arthur Ventura","image":{"@type":"ImageObject","inLanguage":"pt-BR","@id":"https:\/\/encartes.mx\/#\/schema\/person\/image\/8a45818ea77a67a00c058d294424a6f6","url":"https:\/\/secure.gravatar.com\/avatar\/e8ff614b2fa0d91ff6c65f328a272c53?s=96&d=identicon&r=g","contentUrl":"https:\/\/secure.gravatar.com\/avatar\/e8ff614b2fa0d91ff6c65f328a272c53?s=96&d=identicon&r=g","caption":"Arthur Ventura"}}]}},"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/encartes.mx\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/30904","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/encartes.mx\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/encartes.mx\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/encartes.mx\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/encartes.mx\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=30904"}],"version-history":[{"count":17,"href":"https:\/\/encartes.mx\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/30904\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":38050,"href":"https:\/\/encartes.mx\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/30904\/revisions\/38050"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/encartes.mx\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=30904"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/encartes.mx\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=30904"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/encartes.mx\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=30904"},{"taxonomy":"author","embeddable":true,"href":"https:\/\/encartes.mx\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/coauthors?post=30904"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}