{"id":30897,"date":"2019-03-21T15:16:50","date_gmt":"2019-03-21T15:16:50","guid":{"rendered":"https:\/\/encartesantropologicos.mx\/wordpress\/?p=30897"},"modified":"2023-11-17T18:56:45","modified_gmt":"2023-11-18T00:56:45","slug":"resistir-deshumanizacion-mexico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/encartes.mx\/pt\/resistir-deshumanizacion-mexico\/","title":{"rendered":"Resistindo \u00e0 desumaniza\u00e7\u00e3o. A sociedade civil em face dos desaparecimentos, da coer\u00e7\u00e3o da liberdade de express\u00e3o e do deslocamento for\u00e7ado no M\u00e9xico."},"content":{"rendered":"<div class=\"image-slider\">\n                <div class=\"frame\">\n                    <div class=\"picture\" itemscope itemtype=\"http:\/\/schema.org\/ImageGallery\">\n                        <figure itemprop=\"associatedMedia\" itemscope itemtype=\"http:\/\/schema.org\/ImageObject\" class=\"slider-element\">\n                              <a href=\"https:\/\/encartesantropologicos.mx\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/presentacion-dos-n3.jpg\" itemprop=\"contentUrl\" data-size=\"2048x779\" data-index=\"0\" data-caption=\"Cortes\u00eda de Ciudadanos en Apoyo a los Derechos Humanos AC\" >\n                                <img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/encartesantropologicos.mx\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/presentacion-dos-n3.jpg\" itemprop=\"thumbnail\">\n                                <i class=\"fa fa-expand expand\" aria-hidden=\"true\"><\/i>\n                            <\/a>\n                            <\/figure>                    <\/div>    \n                <\/div>\n                    <div class=\"caption\">Cortesia de Citizens in Support of Human Rights AC<\/div><div class=\"image-analysis\"><\/div>                <div class=\"bullets\"><\/div>\n            <\/div>\n<p class=\"abstract translation-block\"><span class=\"dropcap\">M<\/span> pais que procuram rastros de seus filhos em terrenos baldios. Jornalistas que t\u00eam pesadelos em que s\u00e3o executados por armas de alta pot\u00eancia. Jovens que testemunham pelo reconhecimento de desaparecimentos for\u00e7ados no M\u00e9xico perante atores internacionais. Ativistas de direitos humanos que acompanham as v\u00edtimas invis\u00edveis da chamada guerra \u00e0s drogas, ou seja, pessoas deslocadas. Esses temas comp\u00f5em os quatro textos deste <em>dossi\u00ea<\/em>, que foram escritos por mulheres que transitam entre a academia e o ativismo. Eles exp\u00f5em a desumaniza\u00e7\u00e3o do discurso e da a\u00e7\u00e3o militarista, iluminam os significados daqueles que sofrem e resistem a essas circunst\u00e2ncias e destacam a maneira cruel com que a sociedade mexicana foi atingida pela militariza\u00e7\u00e3o da seguran\u00e7a p\u00fablica.<\/p>\n<p>  Por meio de estudos de caso, realizados principalmente no norte do pa\u00eds e um na capital, ele analisa a atua\u00e7\u00e3o das v\u00edtimas que, em colabora\u00e7\u00e3o com organiza\u00e7\u00f5es da sociedade civil e acad\u00eamicos, agem para reparar viola\u00e7\u00f5es de direitos humanos: desaparecimentos for\u00e7ados, execu\u00e7\u00f5es extrajudiciais, ataques \u00e0 liberdade de express\u00e3o e deslocamento for\u00e7ado.<\/p>\n<p>Enquanto algumas v\u00edtimas buscam a verdade, ou seja, a localiza\u00e7\u00e3o de seus \"tesouros\", outras lutam pelo reconhecimento da responsabilidade do Estado mexicano perante atores internacionais e por uma justi\u00e7a improv\u00e1vel. A fuga e o deslocamento tamb\u00e9m s\u00e3o formas de resist\u00eancia, especialmente quando confrontados com o medo da vitimiza\u00e7\u00e3o. Enquanto isso, permanece a esperan\u00e7a de retornar \u00e0 sua terra natal e trabalhar para garantir a n\u00e3o repeti\u00e7\u00e3o. Esse \u00e9 o caso dos jornalistas deslocados, que s\u00f3 recentemente se organizaram em um grupo.<a class=\"anota\" id=\"anota1\" data-footnote=\"1\">1<\/a><\/p>\n<h2>Militariza\u00e7\u00e3o da seguran\u00e7a p\u00fablica e viola\u00e7\u00f5es maci\u00e7as dos direitos humanos<\/h2>\n<p class=\"abstract\">\n  Os quatro artigos que comp\u00f5em este <em>dossi\u00ea<\/em> s\u00e3o enf\u00e1ticos ao apontar o custo humanit\u00e1rio da mal chamada guerra \u00e0s drogas, uma guerra n\u00e3o convencional que est\u00e1 inscrita no registro da <em>novas guerras<\/em> (Kaldor, 2001), em que as lutas armadas ocorrem dentro dos pr\u00f3prios Estados devido \u00e0 sua incapacidade de lidar com o colapso social; guerras em que ex\u00e9rcitos n\u00e3o regulares s\u00e3o frequentemente colocados uns contra os outros. Mbembe (2012), citado por Robledo nesta edi\u00e7\u00e3o, destaca o car\u00e1ter global das novas guerras que expressam: 1) uma rela\u00e7\u00e3o cada vez mais estreita entre pol\u00edtica e guerra, o que implica uma profunda identifica\u00e7\u00e3o entre liberdades pol\u00edticas e seguran\u00e7a; 2) uma dram\u00e1tica incerteza sobre quem \u00e9 o inimigo e a exist\u00eancia de uma s\u00e9rie de tecnologias e dispositivos para identific\u00e1-lo; 3) um car\u00e1ter assim\u00e9trico no exerc\u00edcio do poder de guerra, que \u00e9 exercido sobretudo contra a sociedade civil; 4) a multiplica\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica da capacidade de destrui\u00e7\u00e3o; 5) o car\u00e1ter estrutural dessas guerras, que buscam destruir as condi\u00e7\u00f5es b\u00e1sicas das sociedades contra as quais s\u00e3o dirigidas; 6) a prolifera\u00e7\u00e3o de guerreiros agindo no interesse do mercado; e 7) uma guerra que \u00e9 travada n\u00e3o apenas contra os corpos, mas tamb\u00e9m contra a natureza.<\/p>\n<p>  \tNo M\u00e9xico, as Opera\u00e7\u00f5es Conjuntas realizadas em determinadas regi\u00f5es, como estrat\u00e9gia governamental para enfrentar o inimigo conhecido como \"narcotr\u00e1fico\" e posteriormente renomeado como \"crime organizado\", envolveram a mobiliza\u00e7\u00e3o das for\u00e7as armadas nacionais. Isso, como aponta May-ek Querales, \"levou a s\u00e9rios conflitos nas regi\u00f5es onde foi implementado, pois resultou na presen\u00e7a de tr\u00eas atores armados nos territ\u00f3rios: as for\u00e7as policiais (federal, estadual e municipal), o ex\u00e9rcito e\/ou a marinha e o crime organizado\".<\/p>\n<p>Brenda P\u00e9rez e Montserrat Castillo, ativistas da Comiss\u00e3o Mexicana de Defesa e Promo\u00e7\u00e3o dos Direitos Humanos (CMDPDH), detalham o custo humanit\u00e1rio dessa estrat\u00e9gia militarizada, que aumentou exponencialmente a viol\u00eancia direta contra a popula\u00e7\u00e3o civil. A partir de 2006, o M\u00e9xico sofreu uma avalanche de homic\u00eddios, execu\u00e7\u00f5es extrajudiciais e desaparecimentos, todas graves viola\u00e7\u00f5es de direitos humanos descritas em detalhes pelos autores acima mencionados. A imprensa n\u00e3o foi poupada. A esse respeito, S\u00e9verine Durin faz um relato das formas letais de coer\u00e7\u00e3o usadas contra a m\u00eddia no nordeste. Com base em v\u00e1rios casos, a autora relata a viol\u00eancia a que os jornalistas foram submetidos: amea\u00e7as de morte, assassinatos, desaparecimentos e ataques com armas de alto poder de fogo contra os pr\u00e9dios da imprensa regional. A guerra, como demonstra Durin, tamb\u00e9m ocorreu na esfera das comunica\u00e7\u00f5es e colocou os jornalistas na linha de fogo, de tal forma que os atores armados em conflito procuraram controlar a linha editorial da m\u00eddia; o Estado o fez assinando acordos com a m\u00eddia em 2011 (Eiss, 2014), enquanto os atores armados ilegais os coagiram a esconder baixas entre suas tropas ou a comunicar a\u00e7\u00f5es cru\u00e9is por meio de esta\u00e7\u00f5es de televis\u00e3o e semear o terror entre a popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Como resultado dessas viola\u00e7\u00f5es de direitos humanos e da viol\u00eancia criminosa, o M\u00e9xico experimentou uma nova onda de migra\u00e7\u00f5es for\u00e7adas, algumas internas e n\u00e3o reconhecidas pelo Estado, chegando a 329.917 pessoas deslocadas em dezembro de 2017, de acordo com o monitoramento do CMDPDH; outras no exterior, especialmente no Texas, onde ativistas, jornalistas e pessoas deslocadas do Vale Ju\u00e1rez se reuniram em torno da figura de seu advogado e criaram o Mexicans in Exile (consulte Querales).<\/p>\n<p>Outras v\u00edtimas, que se sentem \"mortas em vida\", vasculham cuidadosamente os terrenos onde seus entes queridos poderiam ter sido enterrados por aqueles que queriam apagar a evid\u00eancia de seu crime e, assim, semear a ansiedade entre a popula\u00e7\u00e3o. Desaparecer o corpo de uma pessoa, sem permitir que seus parentes a enterrem, faz parte da pedagogia da crueldade que os atores armados, legais e ilegais, infligem \u00e0 popula\u00e7\u00e3o civil, como Robledo corretamente aponta: \"O M\u00e9xico testemunhou a extens\u00e3o do espet\u00e1culo do sofrimento e da crueldade, por meio da encena\u00e7\u00e3o de v\u00e1rias formas de viol\u00eancia extrema\" (Nahoum-Grappe, 2002). Talvez o esfor\u00e7o mais perverso, e o mais procurado por seus perpetradores, seja o destacado por Querales, para quem os desaparecimentos for\u00e7ados, as execu\u00e7\u00f5es em vias p\u00fablicas, as execu\u00e7\u00f5es extrajudiciais, as faixas e amea\u00e7as escritas em vias p\u00fablicas e os corpos vexados e exibidos em rotas cotidianas s\u00e3o usados para desarticular os sentidos comunit\u00e1rios e silenciar as comunidades.<\/p>\n<h2>Inimigos internos, viol\u00eancia estrutural e o desmantelamento da cidadania<\/h2>\n<p class=\"abstract\">\n  Na perspectiva de Johan Galtung (1990), a viol\u00eancia direta, que assume a forma de homic\u00eddios, desaparecimentos e deslocamentos for\u00e7ados, s\u00f3 pode ser compreendida em sua rela\u00e7\u00e3o com a viol\u00eancia estrutural e a viol\u00eancia cultural, ou seja, os elementos culturais e simb\u00f3licos que justificam a viol\u00eancia estrutural e mant\u00eam os setores da popula\u00e7\u00e3o exclu\u00eddos dos benef\u00edcios dos bens comuns. Ent\u00e3o, quais foram os elementos culturais, simb\u00f3licos e ideol\u00f3gicos que legitimaram o uso da viol\u00eancia direta? E de que forma isso tamb\u00e9m levou a uma maior viol\u00eancia estrutural?<\/p>\n<p>  Como j\u00e1 expliquei em outro lugar (Durin, 2018), a constru\u00e7\u00e3o da figura do \"narcotraficante\" como um inimigo interno a ser derrotado pelos militares ocorreu no final de 2006. Isso se cruza com representa\u00e7\u00f5es negativas de homens jovens de origem popular, e n\u00e3o \u00e9 insignificante o fato de que \"centenas de homens e mulheres jovens tiveram sua dignidade negada\" ao desaparecerem (Robledo) e que os homic\u00eddios aumentaram entre os jovens entre 15 e 29 anos de idade nessa \u00e9poca. Esse fen\u00f4meno, que tem sido descrito como juvenic\u00eddio (Valenzuela, 2015), \u00e9 uma evid\u00eancia do refor\u00e7o da viol\u00eancia estrutural contra o setor da juventude, especialmente contra homens de baixa renda.<\/p>\n<p><strong>Tabela 1: Homic\u00eddios na popula\u00e7\u00e3o de 15 a 29 anos no M\u00e9xico (1990-2017)<\/strong><br \/>\n<div class=\"image-slider\">\n                <div class=\"frame\">\n                    <div class=\"picture\" itemscope itemtype=\"http:\/\/schema.org\/ImageGallery\">\n                        <figure itemprop=\"associatedMedia\" itemscope itemtype=\"http:\/\/schema.org\/ImageObject\" class=\"slider-element\">\n                              <a href=\"https:\/\/ia801404.us.archive.org\/6\/items\/vol2-num3-imgs\/tabla-1.png\" itemprop=\"contentUrl\" data-size=\"712x499\" data-index=\"0\" data-caption=\"Fuente: INEGI. Estad\u00edsticas de mortalidad. Defunciones por homicidio (2018).\" >\n                                <img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ia801404.us.archive.org\/6\/items\/vol2-num3-imgs\/tabla-1.png\" itemprop=\"thumbnail\">\n                                <i class=\"fa fa-expand expand\" aria-hidden=\"true\"><\/i>\n                            <\/a>\n                            <\/figure>                    <\/div>    \n                <\/div>\n                    <div class=\"caption\">Fonte: INEGI. Estat\u00edsticas de mortalidade. Mortes por homic\u00eddio (2018).<\/div><div class=\"image-analysis\"><\/div>                <div class=\"bullets\"><\/div>\n            <\/div><\/p>\n<p>Por sua vez, o medo das classes dominantes em rela\u00e7\u00e3o aos setores populares, que foi ativado durante a campanha eleitoral de 2006, transmutou-se em medo dos \"narcos\" durante a temporada p\u00f3s-eleitoral, quando o presidente eleito concordou com as autoridades norte-americanas em uma estrat\u00e9gia de seguran\u00e7a binacional chamada Iniciativa M\u00e9rida, semelhante ao Plano Col\u00f4mbia (1999-2005), que n\u00e3o apenas implicava uma estrat\u00e9gia antidrogas, mas tamb\u00e9m favorecia o investimento estrangeiro em setores estrat\u00e9gicos, assessoria t\u00e9cnica para reformas legais e incentivos fiscais (Paley, 2012).<\/p>\n<p>Esse mecanismo de constru\u00e7\u00e3o de inimigos internos, que servem como bodes expiat\u00f3rios, \u00e9 um recurso ideol\u00f3gico que Jacques S\u00e9melin (2013) observou nas l\u00f3gicas que levaram \u00e0 perpetra\u00e7\u00e3o de massacres na Alemanha nazista, na B\u00f3snia e em Ruanda. Elas exigem l\u00edderes pol\u00edticos capazes de ativar sentimentos nacionalistas, baseados no desejo de restaurar a grandeza perdida da na\u00e7\u00e3o e na identifica\u00e7\u00e3o dos respons\u00e1veis pela derrota que devem ser destru\u00eddos. Em nosso caso, a alteridade do \"narcotr\u00e1fico\" foi erigida como o que deve ser derrotado, at\u00e9 a morte, se necess\u00e1rio. De acordo com essa ret\u00f3rica, em janeiro de 2007, o presidente Felipe Calder\u00f3n apareceu em trajes militares em Apatzing\u00e1n, Michoac\u00e1n, onde declarou \u00e0s for\u00e7as armadas que \"venho hoje como comandante supremo para reconhecer seu trabalho, para exort\u00e1-los a continuar com firmeza e dedica\u00e7\u00e3o e para dizer-lhes que estamos com voc\u00eas\" (<em>La Jornada<\/em>(3 de janeiro de 2007). Isso se deve ao fato de que \"seu governo est\u00e1 determinado a restaurar a paz, n\u00e3o apenas nesses estados, mas em todas as regi\u00f5es do M\u00e9xico que est\u00e3o amea\u00e7adas pelo crime organizado. Embora ele tenha reiterado que a luta n\u00e3o \u00e9 uma tarefa f\u00e1cil, nem ser\u00e1 r\u00e1pida, pois levar\u00e1 muito tempo e envolver\u00e1 enormes recursos dos mexicanos, inclusive a perda de vidas\" (<em>idem<\/em>).<\/p>\n<p>Essa estrat\u00e9gia, que custou milhares de vidas, baseou-se na estigmatiza\u00e7\u00e3o e na persegui\u00e7\u00e3o de um setor da popula\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o no uso de uma estrat\u00e9gia judicial para desmantelar as empresas transnacionais que, com a cumplicidade das autoridades, estavam envolvidas na planta\u00e7\u00e3o e no tr\u00e1fico de drogas. Al\u00e9m disso, a estrutura nacionalista do discurso n\u00e3o permitia que se levantassem vozes contra ele, pois isso era se comportar como um traidor, e expunha os cidad\u00e3os ao horror da viol\u00eancia armada em suas esferas da vida. As pr\u00e1ticas de terror dos atores armados em guerra foram utilizadas contra a popula\u00e7\u00e3o, afetando especialmente ativistas, jornalistas e l\u00edderes comunit\u00e1rios (consulte Querales, Durin e P\u00e9rez y Castillo). Isso contribuiu para o desmantelamento da cidadania e, como argumentam P\u00e9rez e Castillo, o medo da estigmatiza\u00e7\u00e3o e da criminaliza\u00e7\u00e3o foi um fator poderoso contra a organiza\u00e7\u00e3o de pessoas deslocadas, de modo que essas v\u00edtimas da guerra \u00e0s drogas se tornaram invis\u00edveis.<\/p>\n<h2>A luta pela reumaniza\u00e7\u00e3o<\/h2>\n<p class=\"abstract\">\n  Apesar da extrema viol\u00eancia, do terror, da impunidade e da desumaniza\u00e7\u00e3o encarnados na figura daquele que assassina sem piedade ou esquarteja e joga corpos na via p\u00fablica como parte de uma gram\u00e1tica de viol\u00eancia que p\u00f5e fim \u00e0 condi\u00e7\u00e3o humana (Reguillo, 2012), os cidad\u00e3os vitimados agiram, como os textos que comp\u00f5em este <em>dossi\u00ea<\/em>.<\/p>\n<p>  \tAs a\u00e7\u00f5es em prol da verdade e da justi\u00e7a diante da viol\u00eancia estatal e criminal s\u00e3o formas de resistir \u00e0 desumaniza\u00e7\u00e3o (Levi, 1987) que resulta das formas cru\u00e9is de priva\u00e7\u00e3o da vida e da oculta\u00e7\u00e3o das viola\u00e7\u00f5es perpetradas pelos agentes estatais e n\u00e3o estatais respons\u00e1veis. O ato de nomear carinhosamente aqueles que se busca, de se referir a eles como seus \"tesouros\", em contraste com a terminologia forense e cient\u00edfica que prefere \"restos\", ilumina a dimens\u00e3o humana de suas a\u00e7\u00f5es. Os rastreadores de El Fuente, em Sinaloa, ou as pessoas que participam das brigadas de busca em Veracruz ou Guerrero, diante da ina\u00e7\u00e3o do Estado e do regime de impunidade e n\u00e3o-verdade, se organizam para descobrir o que aconteceu com seus parentes e para buscar identifica\u00e7\u00e3o e restitui\u00e7\u00e3o a partir de uma abordagem humanit\u00e1ria. Sua estrat\u00e9gia, que difere da de outros coletivos e organiza\u00e7\u00f5es de direitos humanos, abandona todas as exig\u00eancias de justi\u00e7a e a designa\u00e7\u00e3o de culpados, a fim de evitar a persegui\u00e7\u00e3o das autoridades e obter sua colabora\u00e7\u00e3o nas tarefas de identifica\u00e7\u00e3o, que atualmente apresentam enormes desafios. Por meio de buscas de cidad\u00e3os, eles experimentam a capacidade restauradora do ato que reumaniza ao recriar la\u00e7os sociais e constr\u00f3i uma comunidade emocional de v\u00edtimas e aliados (consulte Robledo).<\/p>\n<p>Essa reconex\u00e3o comunit\u00e1ria tamb\u00e9m ocorre entre as v\u00edtimas exiladas em El Paso, origin\u00e1rias do Vale de Ju\u00e1rez e agora membros da Mexicanos no Ex\u00edlio, que encontram na organiza\u00e7\u00e3o uma maneira de alcan\u00e7ar uma reconex\u00e3o subjetiva ao narrar suas experi\u00eancias traum\u00e1ticas e transform\u00e1-las em sofrimento, por meio do di\u00e1logo intersubjetivo estabelecido em terapias, cartas escritas e atos de protesto. Al\u00e9m de participar das reuni\u00f5es mensais dos membros da organiza\u00e7\u00e3o, a reconex\u00e3o comunit\u00e1ria opera colaborando com organiza\u00e7\u00f5es de direitos humanos, localizadas na cidade fronteiri\u00e7a de Ju\u00e1rez, e direcionando eventos para a sociedade civil dos EUA (pe\u00e7as de teatro, protestos, coletivas de imprensa) para divulgar as viola\u00e7\u00f5es dos direitos humanos no M\u00e9xico. Assim, a partir das margens do estado nacional, eles se dirigem a diversos p\u00fablicos para exigir o reconhecimento da situa\u00e7\u00e3o em seu pa\u00eds e para exigir justi\u00e7a (consulte Querales).<\/p>\n<p>No entanto, nem todas as v\u00edtimas se unem em torno de um objetivo comum e, no caso de pessoas deslocadas (consulte Durin, P\u00e9rez e Castillo), o primeiro impulso \u00e9 salvar a pr\u00f3pria vida e n\u00e3o d\u00e1 lugar a encontros com pessoas de igual status, especialmente quando os deslocamentos s\u00e3o individuais ou familiares, como foi o caso dos jornalistas entrevistados por Durin. Al\u00e9m disso, a coer\u00e7\u00e3o a que estavam expostos s\u00f3 foi percebida tardiamente por seus colegas no centro do pa\u00eds, onde se localizam as organiza\u00e7\u00f5es de jornalistas, e demorou alguns anos at\u00e9 que fossem oferecidos treinamentos e criadas redes de jornalistas no nordeste, lan\u00e7ando assim as bases para uma associa\u00e7\u00e3o jornal\u00edstica mais solid\u00e1ria nessa regi\u00e3o do pa\u00eds. \u00c9 importante observar que a cria\u00e7\u00e3o da FEADLE,<a class=\"anota\" id=\"anota2\" data-footnote=\"2\">2<\/a> bem como o Mecanismo de Prote\u00e7\u00e3o para Jornalistas e Defensores de Direitos Humanos do Minist\u00e9rio do Interior, al\u00e9m de serem posteriores aos fatos de vitimiza\u00e7\u00e3o sofridos pelos jornalistas, n\u00e3o conseguiram remediar a impunidade em que se encontram os ataques contra a imprensa, de modo que o M\u00e9xico continua sendo um pa\u00eds muito perigoso para o exerc\u00edcio do jornalismo.<a class=\"anota\" id=\"anota3\" data-footnote=\"3\">3<\/a><\/p>\n<p>Nesse sentido, as organiza\u00e7\u00f5es de direitos humanos desempenham um papel fundamental para dar visibilidade ao deslocamento for\u00e7ado, especialmente o CMDPDDH, que, em 2014, criou um departamento dedicado \u00e0 quest\u00e3o para documentar os casos e combater a narrativa oficial que nega a exist\u00eancia do fen\u00f4meno, apesar das evid\u00eancias apresentadas pela Comiss\u00e3o Nacional de Direitos Humanos (2016). O trabalho de documentar sistematicamente os casos de deslocamento, juntamente com o monitoramento da imprensa, d\u00e1 conta da magnitude do fen\u00f4meno e permite que eles criem informa\u00e7\u00f5es confi\u00e1veis, enquanto preparam lit\u00edgios estrat\u00e9gicos e recorrem a \u00f3rg\u00e3os internacionais de direitos humanos.<\/p>\n<h2>Posi\u00e7\u00f5es em tens\u00e3o: academia, sociedade civil organizada e Estado<\/h2>\n<p class=\"abstract\">\n  Como reflex\u00e3o final, os textos foram escritos a partir de diferentes posi\u00e7\u00f5es, de organiza\u00e7\u00f5es de direitos humanos, como o CMDPDH, do meio acad\u00eamico e em colabora\u00e7\u00e3o com coletivos e organiza\u00e7\u00f5es de v\u00edtimas. O texto de Robledo destaca a import\u00e2ncia de desconstruir o conhecimento cient\u00edfico e estar atento ao conhecimento das pessoas, das v\u00edtimas e de suas expectativas, diante de uma ci\u00eancia forense que dita procedimentos, mas tamb\u00e9m uma ci\u00eancia na qual a testemunha perita pode apoiar as demandas das v\u00edtimas.<\/p>\n<p>  Inevitavelmente, surgem tens\u00f5es na rela\u00e7\u00e3o que as v\u00edtimas tecem com outros atores, \u00e0s vezes aliados, \u00e0s vezes n\u00e3o, que s\u00e3o os acad\u00eamicos, as burocracias estatais - que tendem a n\u00e3o agir e revitimizar, mas t\u00eam os meios para identificar os \"tesouros\" encontrados nas buscas dos cidad\u00e3os - e as organiza\u00e7\u00f5es de direitos humanos, que lutam por uma nova legisla\u00e7\u00e3o, embora sigam o que est\u00e1 em vigor. De uma perspectiva antropol\u00f3gica, \u00e9 importante lembrar a import\u00e2ncia de colocar a dignidade das pessoas com quem trabalhamos no centro e tamb\u00e9m estar ciente de nossos pr\u00f3prios desafios em termos de cuidado com nossas vidas. Hoje, \u00e9 essencial trabalhar em rede para agir com seguran\u00e7a a partir das trincheiras acad\u00eamicas.<\/p>\n<h2>Refer\u00eancias bibliogr\u00e1ficas<\/h2>\n<p class=\"bibliography\" data-no-auto-translation=\"\">\n  Comisi\u00f3n Nacional de Derechos Humanos (2016). \u201cInforme especial sobre Desplazamiento forzado Interno (DFI) en M\u00e9xico\u201d. Recuperado de http: \/\/www.cndh.org.mx\/sites\/all\/doc\/Informes\/Especiales\/2016_IE_Desplazados.pdf, consultado el 10 de agosto de 2017.<\/p>\n<p class=\"bibliography\" data-no-auto-translation=\"\">\n  Durin, S\u00e9verine (2018). \u201cV\u00edctimas sospechosas. Desplazamiento forzado, da\u00f1o moral y testimonio\u201d, Ponencia presentada en el VI Congreso Nacional de Ciencias Sociales <em>Las ciencias sociales y la agenda nacional<\/em> organizado por el Consejo Mexicano de Ciencias Sociales, A.C, la Universidad Aut\u00f3noma de San Luis Potos\u00ed y El Colegio de San Luis, A.C. Centro Cultural Universitario Bicentenario, San Luis Potos\u00ed, SLP, del 19 al 23 de marzo de 2018.<\/p>\n<p class=\"bibliography\" data-no-auto-translation=\"\">\n  Eiss, Paul K. (2014). \u201cThe narcomedia. A reader\u2019s guide\u201d. <em>Latin American Perspectives<\/em>, Issue 195, vol. 41, n\u00fam. 2, , pp. 78-98.<\/p>\n<p class=\"bibliography\" data-no-auto-translation=\"\">\n  Galtung, Johan (1990). \u201cCultural violence\u201d. <em>Journal of Peace Research<\/em>, vol. 27, n\u00fam. 3, pp. 291-305.<\/p>\n<p class=\"bibliography\" data-no-auto-translation=\"\">\n  INEGI (2018). Estad\u00edsticas de mortalidad. Defunciones por homicidio. Recuperado de <a href=\"https:\/\/www.inegi.org.mx\/sistemas\/olap\/proyectos\/bd\/continuas\/mortalidad\/defuncioneshom.asp?s=est\">https:\/\/www.inegi.org.mx\/sistemas\/olap\/proyectos\/bd\/continuas\/mortalidad\/defuncioneshom.asp?s=est<\/a>, consultado el 19 de diciembre de 2018.<\/p>\n<p class=\"bibliography\" data-no-auto-translation=\"\">\n  Kaldor, Mary (2001) <em>Las nuevas guerras. Violencia organizada en la era de la global. <\/em>Barcelona: Tusquets. <em>  <\/em><\/p>\n<p class=\"bibliography\" data-no-auto-translation=\"\"><em>La Jornada<\/em> (2007). Claudia Herrera y Ernesto Mart\u00ednez, \u201cVestido de militar, Calder\u00f3n rinde \u2018tributo\u2019 a las fuerzas armadas\u201d, 3 de enero.. Recuperado de <a href=\"http:\/\/www.jornada.unam.mx\/2007\/01\/04\/index.php?section=politica&amp;article=003n1pol\">http:\/\/www.jornada.unam.mx\/2007\/01\/04\/index.php?section=politica&amp;article=003n1pol<\/a>, consultado el 17 de octubre de 2016.<\/p>\n<p class=\"bibliography\" data-no-auto-translation=\"\">\n  Levi, Primo (1987). <em>Si c\u2019est un homme<\/em>. Par\u00eds: Juliard.<\/p>\n<p class=\"bibliography\" data-no-auto-translation=\"\">\n  Mbembe,&nbsp;Achille (2012). \u201cNecropol\u00edtica, una revisi\u00f3n cr\u00edtica2\u201d, en Helena Ch\u00e1vez Mac Gregor (curadora acad\u00e9mica).&nbsp;<em>Est\u00e9tica y violencia: necropol\u00edtica, militarizaci\u00f3n y vidas lloradas.&nbsp;<\/em>M\u00e9xico: Museo Universitario de Arte Contempor\u00e1neo, pp. 130-139.<\/p>\n<p class=\"bibliography\" data-no-auto-translation=\"\">\n  Nahoum-Grappe, V\u00e9ronique (2002). \u201cAnthropologie de la violence extr\u00eame: le crime de profanation\u201d. <em>Revue internationale des sciences sociales. <\/em>n\u00fam. 174. pp. 601-609 .<\/p>\n<p class=\"bibliography\" data-no-auto-translation=\"\">\n  Paley, Dawn (2012). \u201cEl capitalismo narco\u201d<em>. <\/em>Recuperado de<em> <\/em><a href=\"https:\/\/dawnpaley.ca\/2012\/08\/20\/el-capitalismo-narco\/\">https:\/\/dawnpaley.ca\/2012\/08\/20\/el-capitalismo-narco\/<\/a><em>, <\/em>consultado el 25 de octubre de 2016.<\/p>\n<p class=\"bibliography\" data-no-auto-translation=\"\">\n  Reguillo, Rosana (2012). \u201cDe las violencias: caligraf\u00eda y gram\u00e1tica del horror\u201d. <em>Desacatos<\/em>, n\u00fam. 40, septiembre-diciembre de 2012, pp. 33-46.<\/p>\n<p class=\"bibliography\" data-no-auto-translation=\"\">\n  Reporteros sin Fronteras (2018). \u201cClasificaci\u00f3n. Los datos de la clasificaci\u00f3n de la libertad de prensa 2018\u201d. Recuperado de <a href=\"https:\/\/rsf.org\/es\/datos-clasificacion\">https:\/\/rsf.org\/es\/datos-clasificacion<\/a>, consultado el 19 de diciembre de 2018.<\/p>\n<p class=\"bibliography\" data-no-auto-translation=\"\">\n  S\u00e9melin, Jacques (2013). <em>Purificar y destruir. Usos pol\u00edticos de las masacres y genocidios<\/em>. Buenos Aires: USAM EDITA Universidad Nacional de General de San Mart\u00edn.<\/p>\n<p class=\"bibliography\" data-no-auto-translation=\"\">\n  Valenzuela, Jos\u00e9 Manuel (coord.) (2015). <em>Juvenecidio. Ayotzinapa y las vidas precarias en Am\u00e9rica Latina y Espa\u00f1a<\/em>. M\u00e9xico: Ned Ediciones\/ITESO\/El Colef.<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p class=\" translation-block\"><span class=\"dropcap\">M<\/span> pais que procuram rastros de seus filhos em terrenos baldios. 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