{"id":29555,"date":"2018-03-21T12:00:52","date_gmt":"2018-03-21T12:00:52","guid":{"rendered":"https:\/\/encartesantropologicos.mx\/wordpress\/?p=29555"},"modified":"2023-11-17T19:13:53","modified_gmt":"2023-11-18T01:13:53","slug":"giro-global-a-la-derecha-y-la-relevancia-de-la-antropologia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/encartes.mx\/pt\/giro-global-a-la-derecha-y-la-relevancia-de-la-antropologia\/","title":{"rendered":"Mudan\u00e7a global para a direita e a relev\u00e2ncia da antropologia"},"content":{"rendered":"<h2 class=\"wp-block-heading\">Sum\u00e1rio<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"abstract translation-block\">&lt;O decl\u00ednio da import\u00e2ncia da participa\u00e7\u00e3o dos antrop\u00f3logos nos debates p\u00fablicos \u00e9 resultado de v\u00e1rios fatores, alguns internos \u00e0 disciplina, outros externos. A trivialidade, a alta especializa\u00e7\u00e3o e a neglig\u00eancia em rela\u00e7\u00e3o a quest\u00f5es de amplo interesse p\u00fablico s\u00e3o problemas que precisam ser debatidos. Al\u00e9m disso, o atual ressurgimento de discursos de intoler\u00e2ncia e racismo aponta para a poss\u00edvel chegada de uma era p\u00f3s-multicultural em que o conhecimento antropol\u00f3gico precisa ser reposicionado. A Internet \u00e9 outra vari\u00e1vel importante na compreens\u00e3o do anti-intelectualismo contempor\u00e2neo, pois gera uma ilus\u00e3o renovada de transpar\u00eancia que faz com que as ci\u00eancias sociais pare\u00e7am in\u00fateis. A etnografia, com sua capacidade de nos aproximar dos agentes, \u00e9 uma base para que os antrop\u00f3logos retomem um papel pol\u00edtico\/p\u00fablico.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"abstract\">Palavras-chave: Antropologia, debates p\u00fablicos, anti-intelectualismo, direita pol\u00edtica, multiculturalismo.<\/p>\n\n\n<p class=\"en-title\">A relev\u00e2ncia da antropologia em uma virada global \u00e0 direita<\/p>\n\n\n\n<p class=\"abstract en-text\">A diminui\u00e7\u00e3o da import\u00e2ncia da participa\u00e7\u00e3o dos antrop\u00f3logos nos debates p\u00fablicos pode ser atribu\u00edda a uma s\u00e9rie de fatores, alguns inerentes \u00e0 disciplina, outros n\u00e3o. A trivialidade, os altos n\u00edveis de especializa\u00e7\u00e3o e a neglig\u00eancia em rela\u00e7\u00e3o a quest\u00f5es de amplo interesse p\u00fablico s\u00e3o problemas que devem ser debatidos. Al\u00e9m disso, o atual ressurgimento de discursos racistas e intolerantes aponta para a poss\u00edvel abertura de uma era \"p\u00f3s-multicultural\", na qual o conhecimento antropol\u00f3gico deve ser reposicionado. A Internet \u00e9 outra vari\u00e1vel importante para a compreens\u00e3o do anti-intelectualismo contempor\u00e2neo, pois d\u00e1 origem a uma ilus\u00e3o renovada de transpar\u00eancia que, aparentemente, torna a ci\u00eancia social in\u00fatil. A etnografia - com sua capacidade de nos aproximar dos agentes culturais - \u00e9 a base para o novo engajamento dos antrop\u00f3logos em seus pap\u00e9is pol\u00edticos e p\u00fablicos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"abstract en-text\"><strong>Palavras-chave:<\/strong> Antropologia, debates p\u00fablicos, anti-intelectualismo, pol\u00edtica de direita, multiculturalismo<\/p>\n\n\n\n<p><p class=\"no-indent translation-block\"><span class=\"dropcap\">Retornar a um exerc\u00edcio de reinterpreta\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria da antropologia para falar de seu presente e futuro s\u00f3 pode ser explicado pelas perspectivas program\u00e1ticas que cada um de n\u00f3s tem. Quero deixar claro, desde j\u00e1, que vejo uma crise internacional da relev\u00e2ncia da antropologia como disciplina acad\u00eamica, uma crise de maior ou menor intensidade de acordo com o pa\u00eds para o qual olhamos. Em nome da praticidade ou da import\u00e2ncia de v\u00e1rios tipos de conhecimento para o \"desenvolvimento\", em alguns lugares ela est\u00e1 sendo retirada dos curr\u00edculos, em outros est\u00e3o tentando fechar cursos ou reduzir drasticamente o financiamento. Estou pensando, mas n\u00e3o exclusivamente, em casos recentes no Reino Unido, na Austr\u00e1lia, no Jap\u00e3o e na Col\u00f4mbia. \u00c9 necess\u00e1rio repensar nosso lugar em rela\u00e7\u00e3o a outras disciplinas e \u00e0 sociedade.<\/p>\n\n\n\n<p>Esta confer\u00eancia tamb\u00e9m faz parte de uma longa tradi\u00e7\u00e3o que os antrop\u00f3logos t\u00eam de refletir sobre nossa disciplina. Acho que os antrop\u00f3logos gostam de falar sobre nossa disciplina por dois motivos principais. A primeira seria uma raz\u00e3o pedag\u00f3gica, digamos assim. At\u00e9 hoje, a antropologia n\u00e3o \u00e9 uma disciplina muito conhecida. Mesmo em um pa\u00eds como o M\u00e9xico, onde h\u00e1, por exemplo, um magn\u00edfico Museu de Antropologia e uma institui\u00e7\u00e3o nacional como o Instituto Nacional de Antropologia e Hist\u00f3ria, o que n\u00f3s, antrop\u00f3logos, fazemos n\u00e3o est\u00e1 claro para a maioria da popula\u00e7\u00e3o. De fato, todo mundo tem alguma no\u00e7\u00e3o do que faz um m\u00e9dico ou um engenheiro, mas o contr\u00e1rio n\u00e3o \u00e9 verdadeiro quando se trata da pr\u00e1tica antropol\u00f3gica. Na realidade, n\u00f3s, antrop\u00f3logos, n\u00e3o somos muitos no mundo em compara\u00e7\u00e3o com profiss\u00f5es mais populares, como a de advogados.<\/p>\n\n\n\n<p>O segundo motivo pelo qual gostamos de falar sobre antropologia \u00e9 muito mais importante para n\u00f3s do ponto de vista acad\u00eamico. O fato \u00e9 que a antropologia \u00e9 uma disciplina reflexiva. Essa caracter\u00edstica sempre nos leva a pensar sobre a rela\u00e7\u00e3o entre a antropologia e seu tempo; ela tamb\u00e9m nos leva, \u00e9 claro, a saber que praticamos uma disciplina que muda de acordo com as mudan\u00e7as sociais, pol\u00edticas, culturais e econ\u00f4micas. Pensar sobre essa rela\u00e7\u00e3o entre as mudan\u00e7as disciplinares e as mudan\u00e7as hist\u00f3ricas mais amplas nos obriga a n\u00e3o sermos ing\u00eanuos quando n\u00f3s mesmos somos o objeto e a estarmos atentos \u00e0 rela\u00e7\u00e3o entre nossas teorias e nosso papel pol\u00edtico em transforma\u00e7\u00e3o na sociedade. Isso tamb\u00e9m nos permite ver que, se h\u00e1 rela\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas entre a pr\u00e1tica antropol\u00f3gica e v\u00e1rias conjunturas, ent\u00e3o \u00e9 claro que h\u00e1 rela\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, econ\u00f4micas, culturais e sociais atuais entre a disciplina e a sociedade. <em>zeitgeist<\/em> contempor\u00e2neos, que tamb\u00e9m precisam ser pensados e conhecidos.<\/p>\n\n\n\n<p>Entender que nossa disciplina muda ao longo do tempo e que suas quest\u00f5es em determinados momentos t\u00eam caracter\u00edsticas epistemol\u00f3gicas e heur\u00edsticas penetradas pela din\u00e2mica sociol\u00f3gica de determinadas conjunturas \u00e9 o que torna importante o estudo da hist\u00f3ria da antropologia, como bem afirmou \u00c1ngel Palerm em seu texto \"Sobre el papel de la historia de la etnolog\u00eda en la formaci\u00f3n de los etn\u00f3logos\" (2006 [1974]). Vemos, ent\u00e3o, que o conhecimento antropol\u00f3gico, no singular, \u00e9 portador de muitos conhecimentos antropol\u00f3gicos que derivam de m\u00faltiplos contextos e \u00e9pocas.<\/p>\n\n\n\n<p>Aqui n\u00e3o estou interessado, como Palerm estava em seu texto, na hist\u00f3ria do conhecimento antropol\u00f3gico anterior \u00e0 forma\u00e7\u00e3o da antropologia. N\u00e3o tenho d\u00favidas sobre a import\u00e2ncia do procedimento palermiano, algo que procurei expandir ao olhar para nossa disciplina como uma cosmopol\u00edtica, como um tipo de conhecimento antropol\u00f3gico que se cristalizou e se consolidou internamente na academia ocidental no s\u00e9culo XIX (Ribeiro, 2014). Para pensar a antropologia como uma cosmopol\u00edtica dedicada a compreender as estruturas da alteridade (Krotz, 2002), parto do princ\u00edpio de que todas as popula\u00e7\u00f5es humanas sempre estiveram interessadas em explicar a alteridade, ou seja, a exist\u00eancia de diferentes outros, de diferentes formas de estar no mundo. Esse desejo de entender e explicar por que somos iguais e por que somos diferentes \u00e9 o que chamo, seguindo os passos do antrop\u00f3logo indiano Ajit Danda (1995), de \"conhecimento antropol\u00f3gico\". Vejo esse conhecimento antropol\u00f3gico como verdadeiramente universal, como cosmopol\u00edtico; isto \u00e9, como discursos que afirmam ser abrangentes, de escopo global, discursos que v\u00e3o al\u00e9m de particularismos circunscritos. Nesse sentido, a antropologia \u00e9 o conhecimento antropol\u00f3gico, ou seja, a cosmopol\u00edtica do Ocidente sobre as estruturas da alteridade que foi formalizada como uma disciplina acad\u00eamica e consolidada internamente em estruturas formais de produ\u00e7\u00e3o de conhecimento no s\u00e9culo XIX. Em suma: \"embora a busca do conhecimento antropol\u00f3gico seja universal, a antropologia n\u00e3o o \u00e9. Ela \u00e9 o resultado do conhecimento acad\u00eamico no s\u00e9culo XIX. Ela \u00e9 o resultado do conhecimento acad\u00eamico no Ocidente que mais tarde seria globalizado\" (Ribeiro, 2014: 485). Portanto, ao procurar entender a relev\u00e2ncia da antropologia, come\u00e7arei pelo s\u00e9culo XIX.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Antropologias do passado<\/h2>\n\n\n\n<p><p class=\"no-indent\">Revisitar os cl\u00e1ssicos nunca \u00e9 um processo in\u00f3cuo. Italo Calvino, em seu belo ensaio \"Why read the classics\" (Por que ler os cl\u00e1ssicos), argumenta que os cl\u00e1ssicos s\u00e3o sempre lidos a partir de um certo presente. Calvino diz (1994: 18):<\/p>\n\n\n\n<p class=\"large-quote\">Os eventos atuais podem ser triviais e mortificantes, mas s\u00e3o sempre o ponto a partir do qual temos de olhar para frente ou para tr\u00e1s. Para ler livros cl\u00e1ssicos, \u00e9 preciso estabelecer de onde se l\u00ea. Caso contr\u00e1rio, tanto o livro quanto o leitor se perdem em uma nuvem atemporal. Assim, a melhor leitura dos cl\u00e1ssicos \u00e9 obtida por aqueles que sabem altern\u00e1-la com uma s\u00e1bia dosagem de assuntos atuais.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 exatamente isso que quero fazer neste texto. Vou aos cl\u00e1ssicos da evolu\u00e7\u00e3o do s\u00e9culo XIX para olhar para tr\u00e1s e para frente e oferecer uma interpreta\u00e7\u00e3o do que est\u00e1 acontecendo hoje.<\/p>\n\n\n\n<p>Em seus primeiros dias como disciplina acad\u00eamica, quando foi estabelecida, era uma antropologia otimista que queria ser mais uma ci\u00eancia natural, para provar que o mental, o social, o hist\u00f3rico e o cultural tamb\u00e9m poderiam ser pensados por meio de leis, assim como o mundo natural. Os evolucionistas representam o in\u00edcio do que eu gostaria de chamar de Era de Ouro da antropologia, que para mim durou aproximadamente de 1870 a 1990. Como fundadores da disciplina, os evolucionistas estavam ansiosos para explic\u00e1-la. Ambiciosos em seus objetivos, suas perguntas amplas buscavam entender como a humanidade estava organizada, de onde ela veio (dos selvagens e b\u00e1rbaros) e para onde estava indo (em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 civiliza\u00e7\u00e3o). Al\u00e9m disso, elas tamb\u00e9m levantaram alguns dos principais dilemas da especificidade da antropologia em rela\u00e7\u00e3o a outras \"ci\u00eancias\". Essa n\u00e3o foi uma tarefa f\u00e1cil. Para isso, eles se basearam nas ci\u00eancias naturais, que legitimavam todas as alega\u00e7\u00f5es de verdade no meio cient\u00edfico de sua \u00e9poca. Edward Tylor disse em 1878:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"large-quote\">Para muitos entendimentos esclarecidos, a concep\u00e7\u00e3o de que a hist\u00f3ria da esp\u00e9cie humana \u00e9 parte integrante da hist\u00f3ria da natureza; que nossos pensamentos, nossa vontade e nossas a\u00e7\u00f5es est\u00e3o em conformidade com leis t\u00e3o concretas quanto aquelas que determinam o movimento das ondas, a combina\u00e7\u00e3o de \u00e1cidos e bases e o crescimento de plantas e animais, parece ser um tanto presun\u00e7osa e repulsiva (p. 30).<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar da resist\u00eancia persistente da comunidade cient\u00edfica de sua \u00e9poca em \"admitir que os problemas da antropologia s\u00e3o pass\u00edveis de tratamento cient\u00edfico\" (p. 245), sem d\u00favida a amplitude das abordagens antropol\u00f3gicas, em sintonia com o evolucionismo que dominava a ci\u00eancia e a sociedade em uma Inglaterra vitoriana extremamente consciente de sua pr\u00f3pria centralidade no mundo, possibilitou que Tylor escrevesse onze anos depois:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"large-quote\">O mundo n\u00e3o tem sido injusto com a ci\u00eancia em crescimento, longe disso. Onde quer que os antrop\u00f3logos tenham sido capazes de mostrar evid\u00eancias e infer\u00eancias definitivas (...) n\u00e3o apenas os especialistas, mas o mundo educado em geral est\u00e1 pronto para receber os resultados e assimil\u00e1-los \u00e0 opini\u00e3o p\u00fablica (Tylor, 1889: 245).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"large-quote\">O mundo est\u00e1 longe de ser injusto com a ci\u00eancia incipiente. Quando os antrop\u00f3logos conseguem mostrar evid\u00eancias e infer\u00eancias claras... n\u00e3o apenas os especialistas, mas todas as pessoas instru\u00eddas geralmente est\u00e3o dispostas a receber os resultados e assimil\u00e1-los \u00e0 opini\u00e3o p\u00fablica.<\/p>\n\n\n\n<p>James Frazer, na palestra inaugural de sua c\u00e1tedra na Universidade de Liverpool, \"The Scope of Social Anthropology\", em 1908, \u00e9 igualmente otimista em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 \"ci\u00eancia do homem... que acaba de nascer\" (p. 20). Ele afirma:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"large-quote\">foi reservado para a gera\u00e7\u00e3o atual (...) tentar o estudo completo do homem como um todo, investigar n\u00e3o apenas a estrutura f\u00edsica e mental do indiv\u00edduo, mas comparar as v\u00e1rias ra\u00e7as humanas, tra\u00e7ar suas afinidades e, por meio de uma ampla cole\u00e7\u00e3o de fatos, tra\u00e7ar, na medida do poss\u00edvel, a evolu\u00e7\u00e3o do pensamento e das institui\u00e7\u00f5es humanas desde os tempos mais remotos .... A antropologia busca (...) descobrir as leis gerais que, no passado, regularam a hist\u00f3ria humana e, se a natureza for realmente uniforme, espera-se que a regulem no futuro (Frazer, 1908: 20).<\/p>\n\n\n\n<p>Para meus argumentos a seguir, estarei interessado em como eles se relacionavam com as grandes quest\u00f5es de seu tempo e, particularmente, com as \"estruturas da alteridade\". Aqui devemos evitar o anacronismo, pois muitas das suposi\u00e7\u00f5es de superioridade dos evolucionistas soam estranhas e irritam nossa sensibilidade antropol\u00f3gica atual. Os evolucionistas realizaram uma opera\u00e7\u00e3o dupla aparentemente contradit\u00f3ria. Por um lado, eles colocaram etnocentricamente os seres humanos \"selvagens\" em outra \u00e9poca, vendo-os como uma esp\u00e9cie de laborat\u00f3rio da humanidade em seu momento primitivo e negando, como Johannes Fabian (2002) colocou, sua coetaneidade. Por outro lado, eles afirmavam, em uma esp\u00e9cie de perspectiva pr\u00f3-relativista e antirracista, a humanidade dos selvagens, tanto por admitir a unidade ps\u00edquica da humanidade (\"a semelhan\u00e7a bem confirmada do funcionamento da mente humana em todas as ra\u00e7as\", diria Frazer, p. 31) quanto por acreditar que a civiliza\u00e7\u00e3o havia se desenvolvido a partir dos b\u00e1rbaros. Da mesma forma, eles afirmavam que as leis e as religi\u00f5es dos pa\u00edses civilizados eram derivadas das experi\u00eancias normativas e sobrenaturais (magia, por exemplo) dos primitivos. Tylor descarta claramente a \"configura\u00e7\u00e3o corporal\" e a cor da pele e do cabelo como fatores explicativos: \"parece poss\u00edvel e desej\u00e1vel eliminar as considera\u00e7\u00f5es sobre as variantes heredit\u00e1rias das ra\u00e7as humanas e tratar a humanidade como homog\u00eanea por natureza, embora situada em diferentes graus de civiliza\u00e7\u00e3o\" (Taylor, 1889: 33).<\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, est\u00e1 claro que a explica\u00e7\u00e3o da dire\u00e7\u00e3o da evolu\u00e7\u00e3o estava perfeitamente alinhada com a celebra\u00e7\u00e3o do (ent\u00e3o) presente, a celebra\u00e7\u00e3o do poder do homem branco ocidental, do eurocentrismo que colocava o Atl\u00e2ntico Norte como o \u00e1pice da trajet\u00f3ria da civiliza\u00e7\u00e3o. Ao mesmo tempo, essa celebra\u00e7\u00e3o acalmou os <em>m\u00e1 consci\u00eancia<\/em> colonizador, pois legitimava a pretensa superioridade europeia sobre os distantes b\u00e1rbaros e selvagens e permitia que o outro ex\u00f3tico interno, os camponeses, fosse colocado como parte da mesma gram\u00e1tica, j\u00e1 que suas supersti\u00e7\u00f5es eram \"sobreviv\u00eancias\" dentro dos estados-na\u00e7\u00e3o europeus - muitos em forma\u00e7\u00e3o - representativos de est\u00e1gios pr\u00e9-civilizados.<\/p>\n\n\n\n<p>Talvez seja poss\u00edvel dizer que o evolucionismo foi uma das primeiras tentativas das ci\u00eancias sociais de pensar sobre o que hoje chamamos de globaliza\u00e7\u00e3o, de colocar ordem em um mundo cada vez mais integrado. A percep\u00e7\u00e3o de que a humanidade era cada vez mais uma entidade interconectada exigiu explica\u00e7\u00f5es que ecoaram at\u00e9 o presente. A rela\u00e7\u00e3o \u00edntima entre a ideologia do progresso (Harris, 1996 [1968]), uma ideologia central no Ocidente que ganhou grande popularidade com o Iluminismo e a Revolu\u00e7\u00e3o Industrial, e o evolucionismo talvez seja a base do que pode ser chamado de evolucionismo difuso que ainda est\u00e1 conosco. Com sua terminologia de superior e inferior, de povos com formas de vida complexas e mais simples, o evolucionismo nunca foi abandonado pela \"opini\u00e3o p\u00fablica\", para usar o mesmo termo usado anteriormente por Tylor, nem por especialistas de diferentes disciplinas. Uma prova do que acabo de dizer s\u00e3o suas transmuta\u00e7\u00f5es, desde o final da Segunda Guerra Mundial, em v\u00e1rias teorias e ideologias do desenvolvimento (Ribeiro, 1991, 2007).<\/p>\n\n\n\n<p>No tempo de que disponho aqui, seria imposs\u00edvel detalhar, como fiz, embora rapidamente, com o evolucionismo, as caracter\u00edsticas de outros momentos cl\u00e1ssicos subsequentes na hist\u00f3ria da disciplina. Voltei ao in\u00edcio de nossa hist\u00f3ria da antropologia porque acredito que ela ensinou li\u00e7\u00f5es boas e ruins. Aqui estou mais interessado nas boas li\u00e7\u00f5es, especialmente no papel que os antrop\u00f3logos desempenharam, consciente ou inconscientemente, na constru\u00e7\u00e3o de discursos ou nas lutas contra o racismo. Escolhi esse eixo organizador de meu racioc\u00ednio porque o racismo \u00e9 a ideologia mais perniciosa que as estruturas de alteridade podem gerar internamente em diferentes sistemas inter\u00e9tnicos, especialmente naqueles sistemas inter\u00e9tnicos que fazem parte de processos de constru\u00e7\u00e3o de na\u00e7\u00f5es sob a lideran\u00e7a de um determinado segmento \u00e9tnico com ideologias raciais discriminat\u00f3rias e excludentes (Williams, 1989).<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o desconhe\u00e7o os casos da Alemanha (Kohl, 2017) e da \u00c1frica do Sul (Spiegel, 2017), onde alguns antrop\u00f3logos influentes apoiaram regimes abertamente racistas com suas pr\u00e1ticas. Tampouco desconhe\u00e7o o uso de antrop\u00f3logos americanos como espi\u00f5es na Primeira Guerra Mundial e posteriormente, como administradores de campos de concentra\u00e7\u00e3o para cidad\u00e3os nipo-americanos, ou seu envolvimento atual na m\u00e1quina de guerra e espionagem dos EUA.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas acho que \u00e9 poss\u00edvel, com muita raz\u00e3o, afirmar que a grande maioria dos antrop\u00f3logos est\u00e1, de modo geral, do lado certo na luta contra o racismo e a opress\u00e3o. Apenas para citar um exemplo hist\u00f3rico cl\u00e1ssico memor\u00e1vel, menciono o texto do pai da antropologia americana, o alem\u00e3o Franz Boas (1964), sobre \"O problema racial na sociedade moderna\", publicado pela primeira vez em 1943, em uma \u00e9poca em que o racismo crescia e se tornaria a causa de trag\u00e9dias humanas indescrit\u00edveis. Se voltarmos nosso olhar para a Am\u00e9rica Latina, h\u00e1 muitos nomes que ter\u00edamos de mencionar, mas de uma gera\u00e7\u00e3o mais contempor\u00e2nea \u00e9 imposs\u00edvel n\u00e3o lembrar de Darcy Ribeiro e Roberto Cardoso de Oliveira, meus compatriotas, ou dos mexicanos Guillermo Bonfil Batalla, \u00c1ngel Palerm e Rodolfo Stavenhagen, para mencionar apenas alguns antrop\u00f3logos extraordin\u00e1rios. Tamb\u00e9m acho que \u00e9 poss\u00edvel dizer que, na hist\u00f3ria da antropologia, o arsenal de conceitos, teorias e vis\u00f5es antirracistas est\u00e1 crescendo com o tempo. As discuss\u00f5es sobre relativismo cultural ou sobre multiculturalismo e interculturalismo v\u00eam \u00e0 mente.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Antropologias atuais<\/h2>\n\n\n\n<p><p class=\"no-indent\">N\u00e3o estou interessado aqui no debate sobre as diferen\u00e7as te\u00f3ricas na antropologia contempor\u00e2nea, que geralmente t\u00eam sido dramatizadas sob o r\u00f3tulo de viradas: a virada culturalista, a virada interpretativista, a virada lingu\u00edstica, a virada p\u00f3s-moderna, por exemplo, e agora, como <em>\u00faltima cr\u00edtica<\/em>a virada ontol\u00f3gica. Tampouco vou repetir um exerc\u00edcio que fiz quando discuti a import\u00e2ncia de olhar para as antropologias do mundo no presente (Ribeiro, 2006). Meu objetivo \u00e9 entender o lugar da antropologia no mundo de hoje, e isso mudou bastante.<\/p>\n\n\n\n<p>Desde que os evolucionistas se recusaram a explicar as diferen\u00e7as entre os homens em termos raciais e tornaram parte central de seus interesses estudar \"os h\u00e1bitos e as capacidades adquiridas pelo homem como membro de uma sociedade\" (Tylor 1878: 29) para fundar a ci\u00eancia da cultura, como Edward Tylor chamou a antropologia, a no\u00e7\u00e3o de cultura tem sido fundamental para o desenvolvimento das ideologias antirracistas modernas. De fato, uma contribui\u00e7\u00e3o fundamental da antropologia para a vida p\u00fablica foi a dissemina\u00e7\u00e3o, direta ou indiretamente, da no\u00e7\u00e3o antropol\u00f3gica de cultura. Nessa jornada sociol\u00f3gica e hist\u00f3rica, a \"cultura\" se politizou e passou a participar de formula\u00e7\u00f5es importantes para a vida democr\u00e1tica e republicana, moldando pol\u00edticas p\u00fablicas destinadas a gerenciar os conflitos inter\u00e9tnicos inerentes \u00e0s estruturas de alteridade interna nos estados-na\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Acho que a dissemina\u00e7\u00e3o internacional do multiculturalismo \u00e9 o melhor exemplo do que acabei de dizer e coincide, para mim, com o aumento da relev\u00e2ncia da antropologia na vida sociopol\u00edtica contempor\u00e2nea e com o in\u00edcio do decl\u00ednio dessa relev\u00e2ncia. A d\u00e9cada de 1990 seria, como eu disse, o fim da Era de Ouro da antropologia. O impacto do multiculturalismo pode ser bem ilustrado pela publica\u00e7\u00e3o nos Estados Unidos, em 1997, do livro <em>Agora somos todos multiculturalistas<\/em>O mundo acad\u00eamico foi amplamente impactado pela cria\u00e7\u00e3o de programas de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o multiculturalistas e pelo uso dessa no\u00e7\u00e3o em diferentes tipos de interpreta\u00e7\u00f5es sociol\u00f3gicas e antropol\u00f3gicas. O mundo acad\u00eamico foi amplamente impactado pela cria\u00e7\u00e3o de programas de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o multiculturalistas e pelo uso dessa no\u00e7\u00e3o em diferentes tipos de interpreta\u00e7\u00f5es sociol\u00f3gicas e antropol\u00f3gicas. A consci\u00eancia de que o multiculturalismo \u00e9 uma ideologia anglo-sax\u00f4nica de gest\u00e3o de conflitos inter\u00e9tnicos levou muitos de n\u00f3s na Am\u00e9rica Latina a uma abordagem com \"interculturalidade\", outra perspectiva que tamb\u00e9m revela a centralidade da no\u00e7\u00e3o de cultura nesse momento (Ribeiro, 2003; Garc\u00eda Canclini, 2011).<\/p>\n\n\n\n<p>Se \u00e9 correto dizer que os fundadores evolucionistas da antropologia tinham uma ret\u00f3rica otimista, \u00e9 igualmente correto dizer que um certo pessimismo sobre seu pr\u00f3prio destino parece ter afetado a antropologia ao mesmo tempo. Para uma disciplina muitas vezes ref\u00e9m do que Michel-Rolph Trouillot (2003) chamou de \"o buraco do selvagem\", a perspectiva do desaparecimento do \"nativo\" sempre foi um problema. Veja, por exemplo, os lamentos de Frazer em 1908 (1908: 33-34) sobre a \"extin\u00e7\u00e3o\", a \"agonia\" ou a mudan\u00e7a inevit\u00e1vel do selvagem e seu significado para a coleta de dados antropol\u00f3gicos. Em 1966, quase 60 anos depois, Claude L\u00e9vi-Strauss (1966: 124), em <em>Current Anthropology<\/em>teve de lidar com a moda \"em certos c\u00edrculos de dizer que a antropologia \u00e9 uma ci\u00eancia em decl\u00ednio por causa do r\u00e1pido desaparecimento de seu tema tradicional: os chamados primitivos\". Cento e um anos depois de Frazer, em 2009, o tema da confer\u00eancia da American Anthropological Association foi \"The End(s) of Anthropology\". O reconhecimento de que o fim do selvagem abalou os fundamentos cl\u00e1ssicos da antropologia pode ser sintetizado na famosa frase que Clifford Geertz (1983: 151) teria dito na d\u00e9cada de 1980: \"agora somos todos nativos\". Para Arturo Escobar (1999), em um texto sintomaticamente chamado de \"O fim do selvagem\", o que estava por tr\u00e1s da possibilidade de desaparecimento da antropologia eram as novas formas de relacionamento entre natureza e cultura, decorrentes das novas tecnologias reprodutivas e do virtual, por exemplo, que estariam gerando uma era <em>p\u00f3s-natural<\/em>na express\u00e3o da antrop\u00f3loga brit\u00e2nica Marilyn Strathern (1992). De fato, a rela\u00e7\u00e3o entre a disciplina, sua crise e a possibilidade de seu desaparecimento \u00e9 t\u00e3o presente e recorrente que comparei a antropologia \u00e0 f\u00eanix, a ave m\u00edtica grega que renasce de suas pr\u00f3prias cinzas (Ribeiro, 2004).<\/p>\n\n\n\n<p>Com a ampla dissemina\u00e7\u00e3o p\u00fablica da no\u00e7\u00e3o antropol\u00f3gica de cultura, a antropologia, j\u00e1 na d\u00e9cada de 1990, come\u00e7ou a pagar por suas pr\u00f3prias vit\u00f3rias. Por um lado, a competi\u00e7\u00e3o dentro da academia aumentou com o surgimento ou a consolida\u00e7\u00e3o de campos de debate transformados em (trans)disciplinas, como estudos culturais, estudos p\u00f3s-coloniais, estudos de g\u00eanero, estudos de ci\u00eancia e tecnologia. N\u00e3o se pode deixar de mencionar tamb\u00e9m, na d\u00e9cada de 1990, o p\u00f3s-modernismo, que preenche o v\u00e1cuo deixado pela perda de influ\u00eancia do marxismo nos anos p\u00f3s-Guerra Fria. Com sua cr\u00edtica \u00e0s metanarrativas e sua glorifica\u00e7\u00e3o do fragment\u00e1rio, o p\u00f3s-modernismo casou com uma tend\u00eancia \u00e0 hiperespecializa\u00e7\u00e3o que j\u00e1 vinha se desenvolvendo devido ao grande crescimento da academia ap\u00f3s a Segunda Guerra Mundial. Como Eric Wolf bem colocou em 1998 (2008: 33-34), em sua introdu\u00e7\u00e3o \u00e0 segunda edi\u00e7\u00e3o do livro <em>Antropologia e marxismo<\/em> De acordo com \u00c1ngel Palerm, a rejei\u00e7\u00e3o dos p\u00f3s-modernistas ao uso de \"conceitos gerais\" levou \u00e0 priva\u00e7\u00e3o do \"uso de m\u00e9todos adequados para caracterizar a matriz de rela\u00e7\u00f5es em que ocorrem os eventos e as narrativas que eles registram\" e a \"resultados triviais, uma vez que nenhuma rela\u00e7\u00e3o pode ser estabelecida com outros sujeitos que n\u00e3o os seus pr\u00f3prios, em seus pr\u00f3prios termos\".<\/p>\n\n\n\n<p>A concorr\u00eancia com outras disciplinas que, em geral, s\u00e3o mais abertas a posi\u00e7\u00f5es e debates politizados, a hiperespecializa\u00e7\u00e3o e a trivialidade levam a um panorama de crescente irrelev\u00e2ncia p\u00fablica da antropologia norte-americana, a antropologia mais poderosa do mundo. De fato, a antropologia americana consegue, de certa forma, exportar sua pr\u00f3pria crise como se fosse uma crise universal da disciplina. De fato, a trivialidade e a irrelev\u00e2ncia da antropologia norte-americana j\u00e1 haviam sido apontadas como um problema s\u00e9rio por Eric Wolf em seu texto \"American Anthropologists and American Society\" (2001 [1969]: 21). Os colegas americanos reagiram nos \u00faltimos 15 a 20 anos tentando remediar o problema por meio do que chamaram de \"antropologia p\u00fablica\" (Borofsky, 2004) e \"antropologia engajada\" (Low &amp; Merry, 2011). Infelizmente, por\u00e9m, a recupera\u00e7\u00e3o da relev\u00e2ncia p\u00fablica da antropologia n\u00e3o \u00e9 um movimento que possa ocorrer independentemente da din\u00e2mica sociol\u00f3gica.<\/p>\n\n\n\n<p>Antes de abordar diretamente a quest\u00e3o, gostaria de dizer que a perda de relev\u00e2ncia relativa da antropologia n\u00e3o ocorre igualmente em todos os pa\u00edses. \u00c9 verdade que algumas das raz\u00f5es sociol\u00f3gicas que apresentarei a seguir se aplicam a quase todos eles, mas a hist\u00f3ria da disciplina, suas rela\u00e7\u00f5es institucionais e pol\u00edticas em diferentes contextos resultam em caracter\u00edsticas diferentes. A quest\u00e3o central \u00e9 como explicar o fato de uma disciplina cada vez mais poderosa, que cresceu significativamente em v\u00e1rias partes do mundo, ter perdido seu \"prest\u00edgio\" ao participar de debates p\u00fablicos e ser vista com frequ\u00eancia como um problema ou como irrelevante.<\/p>\n\n\n\n<p>As mudan\u00e7as na rela\u00e7\u00e3o cultura\/natureza s\u00e3o certamente importantes para explicar n\u00e3o apenas uma \u00eanfase necess\u00e1ria nos estudos antropol\u00f3gicos sobre ci\u00eancia e tecnologia, mas tamb\u00e9m para entender concep\u00e7\u00f5es que circulam facilmente no mundo acad\u00eamico atual, como aquelas que postulam a ag\u00eancia das coisas, que chamei de hiper-animismo ou, ironicamente, animismo dos modernos, um movimento que se relaciona a um projeto de reencantamento do mundo. A for\u00e7a do hiperfetichismo, da mercantiliza\u00e7\u00e3o de tudo, at\u00e9 mesmo do inconsciente, como Fredric Jameson j\u00e1 afirmou em um ensaio vision\u00e1rio em 1984, \u00e9 o outro lado do hiperanimismo em um mundo plano e hipersaturado de tecnologias e manipula\u00e7\u00f5es humanas. O pensamento da ci\u00eancia social hoje est\u00e1 localizado no espa\u00e7o gerado pela tens\u00e3o desses dois extremos, um mundo animado por outras for\u00e7as que se op\u00f5em a um mundo animado pela invas\u00e3o do capital em todos os espa\u00e7os.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o \u00e9 por acaso que hoje falamos do Antropoceno, uma no\u00e7\u00e3o geol\u00f3gica que nos leva a pensar na capacidade humana de destruir nosso pr\u00f3prio planeta. De fato, o termo <em>capitaloceno<\/em> (Moore, 2016) descreve melhor do que se trata. Aqui est\u00e1 outra frente na qual os antrop\u00f3logos s\u00e3o retardat\u00e1rios. Curioso: se estamos falando sobre o antropoceno, por que n\u00e3o foram os antrop\u00f3logos que iniciaram essa discuss\u00e3o? Pergunto isso n\u00e3o por algum tipo de chauvinismo antropol\u00f3gico, mas para ilustrar a aus\u00eancia de antrop\u00f3logos em debates globais de ponta, com as poucas exce\u00e7\u00f5es de sempre. Os antrop\u00f3logos desapareceram n\u00e3o apenas dos grandes debates nacionais, como afirma Claudio Lomnitz (2014) ao falar sobre a antropologia mexicana atual, mas tamb\u00e9m dos grandes debates globais. Se esse n\u00e3o fosse o caso, como poder\u00edamos explicar a <em>boutade<\/em>A piada, do antrop\u00f3logo noruegu\u00eas Thomas Hylland Eriksen, em sua palestra no \u00faltimo congresso brasileiro de antropologia, em agosto deste ano? Segundo Eriksen, o antrop\u00f3logo mais conhecido do mundo atualmente \u00e9 o bi\u00f3logo Jared Diamond, por seu livro <em>Guns, Germs and Steel<\/em> (<em>Armas, germes e<\/em> <em>a\u00e7o<\/em>1997), que trata da hist\u00f3ria da humanidade de um ponto de vista que tem sido criticado pelos antrop\u00f3logos. Parece que, ao abandonarmos as grandes quest\u00f5es que eram t\u00e3o importantes para os evolucionistas e difusionistas dos s\u00e9culos XIX e XX, deixamos a porta aberta para que outros entrassem e abandon\u00e1ssemos esse lugar de fala.<\/p>\n\n\n\n<p>Para colocar a quest\u00e3o da maneira mais simples e direta: n\u00f3s, antrop\u00f3logos, somos culpados? Talvez parcialmente, pois nos envolvemos em nossas discuss\u00f5es internas e especialidades, como uma forma de exibir nossos conhecimentos e fazer carreira. Mas h\u00e1 muitos outros motivos sociol\u00f3gicos que est\u00e3o al\u00e9m de nossa pr\u00f3pria capacidade de a\u00e7\u00e3o, mesmo que tenham sido recebidos com certa passividade n\u00e3o apenas por n\u00f3s, mas pelo campo acad\u00eamico em geral. Primeiro, h\u00e1 claramente um crescente anti-intelectualismo no mundo. A ignor\u00e2ncia parece ter subido muitos degraus em sua batalha contra a sabedoria. O papel pol\u00edtico do anti-intelectualismo \u00e9 bem conhecido e \u00e9 expresso nos discursos dos pol\u00edticos profissionais de forma muito clara. N\u00e3o \u00e9 por acaso que os regimes autorit\u00e1rios ou populistas s\u00e3o anti-intelectuais. Mas at\u00e9 mesmo os pr\u00f3prios acad\u00eamicos muitas vezes adotam, como uma forma ing\u00eanua de criticar o esnobismo da vida acad\u00eamica ou como uma forma de incluir outros conhecimentos na circula\u00e7\u00e3o do conhecimento, atitudes anti-intelectuais, contribuindo assim inadvertidamente para a cr\u00edtica que acusa o que fazemos de irrelev\u00e2ncia.<\/p>\n\n\n\n<p>O anti-intelectualismo afeta especialmente as ci\u00eancias humanas e sociais. Destaco a antropologia pelo que vejo como seu car\u00e1ter eminentemente subversivo da naturaliza\u00e7\u00e3o da ordem das coisas. Ao mostrar que outros mundos n\u00e3o s\u00e3o apenas poss\u00edveis, mas existem de fato, a antropologia denuncia constantemente a ordem do capitalismo e seus sistemas de poder associados. Em \u00e9pocas conservadoras, como a atual, o pensamento cr\u00edtico \u00e9 sufocado, e a antropologia n\u00e3o poderia escapar desse movimento.<\/p>\n\n\n\n<p>O anti-intelectualismo tamb\u00e9m pode ser o resultado do dom\u00ednio das telas, especialmente das telas que s\u00e3o portas de entrada para a Internet. Estamos testemunhando a primeira gera\u00e7\u00e3o nativa da era digital chegando \u00e0 idade adulta. As mudan\u00e7as nas habilidades de leitura e nas formas de ler s\u00e3o uma quest\u00e3o importante de interesse para todos n\u00f3s que trabalhamos com a produ\u00e7\u00e3o, transmiss\u00e3o e dissemina\u00e7\u00e3o do conhecimento. Ainda n\u00e3o h\u00e1 consenso e as posi\u00e7\u00f5es variam desde aquelas que mostram um decl\u00ednio na capacidade de leitura profunda at\u00e9 aquelas que acreditam no surgimento de um novo tipo de leitura fragmentada que n\u00e3o \u00e9 totalmente compreendida porque os pesquisadores ainda t\u00eam uma vis\u00e3o do problema centrada no livro. Veja, por exemplo <em>Hacia una antropolog\u00eda de los lectores<\/em>O resultado de uma investiga\u00e7\u00e3o da uam-i que incluiu a participa\u00e7\u00e3o de antrop\u00f3logos como N\u00e9stor Garc\u00eda Canclini, Eduardo Niv\u00f3n Bol\u00e1n e Rosal\u00eda Winocur Iparraguirre (Garc\u00eda Canclini <em>et al.<\/em>, 2015). A Internet tamb\u00e9m representa outro tipo de desafio para as ci\u00eancias sociais em geral. A declara\u00e7\u00e3o extrema de Umberto Eco de que \"as redes sociais d\u00e3o o direito de falar a legi\u00f5es de idiotas\" e geraram uma \"invas\u00e3o de imbecis\" \u00e9 para mim um sintoma de algo mais amplo, da hiperdemocratiza\u00e7\u00e3o do que chamei de espa\u00e7o p\u00fablico virtual, no qual todos aparentemente t\u00eam o mesmo peso e valor. Os efeitos dessa hiperdemocratiza\u00e7\u00e3o podem ser positivos, como eu acreditava em 1998 quando falei da comunidade transnacional imaginada virtualmente e seu poder de testemunho e ativismo pol\u00edtico \u00e0 dist\u00e2ncia (Ribeiro, 1998), ou como Manuel Castells (2012) acreditava ao analisar as redes de indigna\u00e7\u00e3o e esperan\u00e7a por tr\u00e1s de movimentos como a Primavera \u00c1rabe ou <em>Ocupar Wall Street<\/em>. Mas seus efeitos tamb\u00e9m podem ser negativos. Primeiro, devido \u00e0 facilidade com que a vigil\u00e2ncia pode ser feita hoje em dia em cidad\u00e3os de todo o mundo que usam a Internet. Na realidade, estamos testemunhando o fim das no\u00e7\u00f5es burguesas de privacidade. Depois, por causa do que isso significou em termos de concentra\u00e7\u00e3o do poder econ\u00f4mico e pol\u00edtico nas m\u00e3os de algumas empresas gigantes, como o Google e o Facebook. Al\u00e9m disso, suspeito que grande parte da polariza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica observada em pa\u00edses como o meu, o Brasil, est\u00e1 relacionada a essa capacidade ampliada de interven\u00e7\u00e3o no espa\u00e7o p\u00fablico virtual. Por fim, voltando ao vitup\u00e9rio de Eco e com impactos muito mais fortes sobre o que nos interessa nesta confer\u00eancia, a Internet cria uma ilus\u00e3o pan\u00f3ptica e onisciente em seus usu\u00e1rios. Em \u00faltima an\u00e1lise, posso ver e saber tudo usando a Internet. O mundo parece ser transparente para seus usu\u00e1rios. Se posso ver e saber tudo, por que precisaria de algu\u00e9m para explicar o mundo para mim? Para que servem os cientistas sociais?<\/p>\n\n\n\n<p>Na realidade, a Internet \u00e9 o reino do que chamo de capitalismo eletr\u00f4nico informal, a face mais din\u00e2mica do capitalismo hiperflex\u00edvel que representa outras din\u00e2micas do capital, muitas vezes subsumidas no mega-r\u00f3tulo do neoliberalismo. \u00c9 claro que a universidade e as estruturas de (re)produ\u00e7\u00e3o de conhecimento n\u00e3o poderiam permanecer imunes. Os centros hegem\u00f4nicos do sistema global de produ\u00e7\u00e3o acad\u00eamica foram visivelmente afetados pelas ideologias neoliberais e seus mandatos administrativos. No Reino Unido e nos Estados Unidos, os reitores de muitas universidades se tornaram gerentes de neg\u00f3cios que precisam produzir lucros cada vez maiores. \u00c9 triste, mas parece haver um processo de demoli\u00e7\u00e3o de um patrim\u00f4nio de intelig\u00eancia humana que levou s\u00e9culos para ser constru\u00eddo nesses pa\u00edses. Alguns dos processos estruturais desse movimento na academia s\u00e3o a chamada cultura da auditoria e o produtivismo, ou seja, o controle da produ\u00e7\u00e3o de produtos acad\u00eamicos pela quantidade e n\u00e3o pela qualidade, medidas implementadas internacionalmente. A antropologia, com os longos tempos envolvidos na pr\u00e1tica etnogr\u00e1fica e no amadurecimento da reflex\u00e3o, foi particularmente afetada. Mas os antrop\u00f3logos tamb\u00e9m voltaram sua aten\u00e7\u00e3o para o neoliberalismo dentro da universidade. O trabalho de Cris Shore e Sue Wright \u00e9 um exemplo disso. Na introdu\u00e7\u00e3o de uma colet\u00e2nea de textos dedicados \u00e0 an\u00e1lise antropol\u00f3gica do assunto, Tracey Heatherington e Filippo M. Zerilli (2016: 43) afirmam:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"large-quote\">Com base em anos de pesquisa sistem\u00e1tica em diferentes contextos universit\u00e1rios, Shore e Wright deixam claro que o modelo neoliberal n\u00e3o est\u00e1 apenas transformando o papel da universidade na sociedade, mas tamb\u00e9m est\u00e1 criando novos tipos de sujeitos cujas pr\u00e1ticas e <em>ethos<\/em> s\u00e3o estruturados por uma cultura empresarial emergente que est\u00e1 se enraizando no cora\u00e7\u00e3o da academia. Dimitris Dal\u00e1koglou analisa como as mudan\u00e7as neoliberais promovem estrat\u00e9gias empresariais e comportamentos ego\u00edstas nos acad\u00eamicos. Explorando a etimologia de idiotice, ele insiste que \u00e9 fundamental reconhecer e desafiar as a\u00e7\u00f5es dos muitos \"idiotas\" que circulam atualmente no meio acad\u00eamico, ou seja, aqueles que simplesmente agem de acordo com interesses ego\u00edstas.<\/p>\n\n\n\n<p>Da mesma forma, o princ\u00edpio de \"publicar ou perecer\" foi exacerbado como guia para a produtividade e levou a um aumento da irrelev\u00e2ncia dos textos acad\u00eamicos. Em um artigo de jornal intitulado \"Profe, nobody's reading it\" (Profe, ningu\u00e9m est\u00e1 lendo), Asit Biswas e Julian Kirchherr (2015) lamentam o crescimento da \"aus\u00eancia de professores\", especialmente cientistas sociais, \"na forma\u00e7\u00e3o de debates p\u00fablicos e pol\u00edticas p\u00fablicas\", e observam que \"nas d\u00e9cadas de 1930 e 1940, 20% dos artigos da prestigiosa <em>The American Political Science Review<\/em> focado em recomenda\u00e7\u00f5es de pol\u00edticas. Na \u00faltima contagem, esse n\u00famero havia ca\u00eddo para apenas 0,3%\". Al\u00e9m disso, eles mostram que \"82% dos artigos publicados em ci\u00eancias humanas n\u00e3o s\u00e3o citados nem uma vez\", acrescentando que \"se um artigo \u00e9 citado, isso n\u00e3o significa que ele foi realmente lido... de acordo com uma estimativa, apenas 20% dos artigos citados foram realmente lidos\". Eles \"estimam que um artigo de tamanho m\u00e9dio em um peri\u00f3dico revisado por pares \u00e9 lido na \u00edntegra por n\u00e3o mais do que dez pessoas\". Tudo leva a crer que <em>publicar ou perecer<\/em>A abordagem \"publicar ou perecer\" cada vez mais diz mais sobre os interesses dos oligop\u00f3lios internacionais de publica\u00e7\u00e3o cient\u00edfica do que sobre os interesses dos pesquisadores ou de um campo cient\u00edfico espec\u00edfico.<\/p>\n\n\n\n<p>Diante de todas essas mudan\u00e7as estruturais nas universidades e nas macropol\u00edticas cient\u00edficas, as rea\u00e7\u00f5es dos acad\u00eamicos t\u00eam sido t\u00edmidas. Quando se fala muito em fazer <em>ci\u00eancia lenta<\/em>uma postula\u00e7\u00e3o geralmente desconhecida pela maioria das pessoas.<\/p>\n\n\n\n<p>Quero encerrar esta sess\u00e3o com um dos fatores do lugar problem\u00e1tico que a antropologia ocupa hoje, considerando algo fundamental para o destino do presente e do futuro. Para isso, preciso voltar \u00e0 estrutura da alteridade e suas ideologias. Na maioria dos pa\u00edses, somos identificados como defensores do multiculturalismo, ou seja, da defesa da diferen\u00e7a e da diversidade cultural e comportamental. Como eu disse, o momento em que a import\u00e2ncia p\u00fablica da antropologia na contemporaneidade come\u00e7a a diminuir coincide com a ascens\u00e3o do multiculturalismo como pol\u00edtica p\u00fablica e discurso nos anos 90. Mas como come\u00e7amos os anos 2000? Com o ataque \u00e0s Torres G\u00eameas em Nova York, perpetrado por fundamentalistas mu\u00e7ulmanos. O fundamentalismo tornou-se um problema pol\u00edtico global, cada vez mais racializado, \u00e0 medida que outros ataques foram cometidos na Europa e uma entidade como o Estado Isl\u00e2mico substituiu a j\u00e1 t\u00e3o temida Al Qaeda. As migra\u00e7\u00f5es em massa de \u00e1rabes para a Europa intensificaram o etnocentrismo e o racismo em um contexto em que h\u00e1 uma identifica\u00e7\u00e3o autom\u00e1tica entre o terror e o islamismo. A intoler\u00e2ncia racial e o racismo voltaram com intensidade, mas com novos objetos e cen\u00e1rios muito diferentes daqueles que estavam no centro, que eram as popula\u00e7\u00f5es negras dos Estados Unidos, organizadas em movimentos sociais, lutando por seus direitos civis nas d\u00e9cadas de 1950 e 1960. Foram esses movimentos sociais os respons\u00e1veis pela transforma\u00e7\u00e3o das premissas multiculturalistas em pol\u00edticas p\u00fablicas.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas a natureza do racismo contempor\u00e2neo mais vis\u00edvel mudou. Ele n\u00e3o est\u00e1 mais relacionado exclusivamente \u00e0s demandas por reconhecimento e dignidade feitas por cidad\u00e3os historicamente discriminados em diferentes estados-na\u00e7\u00e3o. O racismo contempor\u00e2neo tamb\u00e9m est\u00e1 associado \u00e0 geopol\u00edtica global das for\u00e7as imperialistas, em que a discrimina\u00e7\u00e3o \u00e9 direcionada a mu\u00e7ulmanos e migrantes. O racismo est\u00e1 de volta com for\u00e7a total, como demonstra a elei\u00e7\u00e3o de Donald Trump nos Estados Unidos ou o aumento da intoler\u00e2ncia no Reino Unido e na Alemanha. Tudo isso me leva a perguntar se j\u00e1 n\u00e3o estamos, de fato, em uma era p\u00f3s-multiculturalista. Se isso for verdade, por que precisamos de antrop\u00f3logos com suas li\u00e7\u00f5es sobre toler\u00e2ncia? De fato, a elei\u00e7\u00e3o de Trump nos Estados Unidos n\u00e3o apenas gerou uma onda de intoler\u00e2ncia racial contra imigrantes mexicanos e mu\u00e7ulmanos, por exemplo, mas tamb\u00e9m um debate sobre o fim da efic\u00e1cia da pol\u00edtica de identidade liberal com o ressurgimento do supremacismo branco desinibido.<\/p>\n\n\n\n<p>Conscientes como poucos dos perigos que espreitam o presente, os antrop\u00f3logos poloneses se mobilizaram contra a discrimina\u00e7\u00e3o e publicaram um manifesto em outubro de 2016, que reproduzo em parte como um \u00edndice do que acabei de dizer e um esfor\u00e7o leg\u00edtimo para reposicionar a antropologia diante dos graves problemas atuais:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"large-quote\">Como representantes das disciplinas de Antropologia e Etnologia, nos sentimos particularmente respons\u00e1veis pela maneira como a cultura e a sociedade s\u00e3o compreendidas e representadas. Estamos seriamente preocupados com a prolifera\u00e7\u00e3o e a manipula\u00e7\u00e3o da ignor\u00e2ncia no debate p\u00fablico, na m\u00eddia, na educa\u00e7\u00e3o e na pol\u00edtica na Pol\u00f4nia atualmente. Referimo-nos, em particular, a declara\u00e7\u00f5es enganosas sobre migra\u00e7\u00e3o, refugiados e multiculturalismo, bem como sobre identidades nacionais, \u00e9tnicas e religiosas. Por todos esses motivos, acreditamos que \u00e9 importante e necess\u00e1rio... tomar uma posi\u00e7\u00e3o sobre essas quest\u00f5es. Por mais de cem anos, a cultura e a sociedade t\u00eam sido o foco principal da reflex\u00e3o te\u00f3rica e dos estudos emp\u00edricos em nossa disciplina. Portanto, nos sentimos obrigados e com o direito de nos manifestar quando esse conhecimento \u00e9 usado para enganar o p\u00fablico. Nosso senso de obriga\u00e7\u00e3o est\u00e1 enraizado na <em>ethos<\/em> da antropologia, uma disciplina que serve \u00e0 sociedade e aos valores human\u00edsticos. Tamb\u00e9m somos motivados por um senso de responsabilidade e dever c\u00edvico. Ao abra\u00e7ar esses ideais, nos opomos resolutamente \u00e0 discrimina\u00e7\u00e3o, \u00e0 exclus\u00e3o e ao discurso de \u00f3dio motivado por diferen\u00e7as culturais, religiosas, \u00e9tnicas, de g\u00eanero ou de vis\u00e3o de mundo. Protestamos contra a manipula\u00e7\u00e3o consciente dos fatos, a ideologiza\u00e7\u00e3o de cren\u00e7as, a xenofobia, o racismo e a viol\u00eancia dirigida a pessoas que representam diferentes culturas, identidades, posi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, cren\u00e7as e valores. Esses atos de \u00f3dio, que se tornaram mais frequentes na sociedade polonesa atual, minam as bases da ordem social e muitas vezes levam a trag\u00e9dias reais. Apoiamos o conhecimento confi\u00e1vel sobre cultura e sociedade, pedimos respeito m\u00fatuo e exigimos respeito pelos valores human\u00edsticos. Nossa meta e nosso sonho \u00e9 uma sociedade diversificada e aberta, constru\u00edda sobre os ideais de democracia e direitos humanos (Polish anthropologists, 2016).<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Antropologias do futuro<\/h2>\n\n\n\n<p><p class=\"no-indent\">Diante da nova face do racismo que est\u00e1 se consolidando, os antrop\u00f3logos precisam se organizar e participar de movimentos sociais que lutam pelos direitos humanos e contra todas as formas de discrimina\u00e7\u00e3o, como est\u00e3o fazendo os colegas poloneses. Nossa imagina\u00e7\u00e3o interpretativa, te\u00f3rica e pol\u00edtica precisa entender a atual interse\u00e7\u00e3o do racismo e da geopol\u00edtica global imperialista a fim de fornecer interpreta\u00e7\u00f5es que revelem as formas contempor\u00e2neas de viol\u00eancia racista, sexista e ambiental. Nossa tarefa n\u00e3o \u00e9 nos confortar com metanarrativas pastorais e comunit\u00e1rias, que podem ser importantes e necess\u00e1rias em contextos espec\u00edficos e limitados, mas s\u00e3o insuficientes para lidar com a crise de civiliza\u00e7\u00e3o em que vivemos e com os rumos do capitalismo hiperflex\u00edvel. Nossa principal tarefa \u00e9, por meio de pesquisas e esfor\u00e7os de reflex\u00e3o, ajudar a vislumbrar e construir poss\u00edveis caminhos para sair dessa crise que Immanuel Wallerstein chamou de \"virada global \u00e0 direita\" (Wallerstein, 2016). Em um prazo imediato, dada nossa tradi\u00e7\u00e3o de luta contra o racismo, somos chamados a participar claramente dos tempos dif\u00edceis que a era p\u00f3s-multicultural representar\u00e1. Concordo com Claudio Lomnitz (2014), que coloca a etnografia mais uma vez no centro de nossos esfor\u00e7os para demonstrar a relev\u00e2ncia social e pol\u00edtica de nosso trabalho. Diz Lomnitz:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"large-quote\">Hoje, com muita frequ\u00eancia, temos a sensa\u00e7\u00e3o de que as categorias de an\u00e1lise n\u00e3o conseguem nem mesmo descrever a realidade, quanto mais explic\u00e1-la. De fato, n\u00e3o se pode explicar bem o que n\u00e3o se sabe descrever primeiro. Em outras palavras, a crise da economia e da ci\u00eancia pol\u00edtica, e at\u00e9 mesmo da tend\u00eancia atual de fazer pesquisas e agregar opini\u00f5es como se elas descrevessem de forma transparente as pr\u00e1ticas e cren\u00e7as dos entrevistados, est\u00e1 deixando um enorme espa\u00e7o para a etnografia e, portanto, para um renascimento do papel da antropologia no debate p\u00fablico e na constru\u00e7\u00e3o do futuro.<\/p>\n\n\n\n<p>A crise que estamos vivendo nos for\u00e7ar\u00e1 a assumir nosso papel pol\u00edtico no presente e no futuro. Os conflitos que ser\u00e3o desencadeados levar\u00e3o a um novo reconhecimento social das virtudes da antropologia (veja, por exemplo, Leader, 2016), cuja metanarrativa se baseia na compreens\u00e3o e na paz.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Bibliografia<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"bibliography\" data-no-auto-translation=\"\">Antrop\u00f3logos Polacos (2016). Anti-discrimination manifesto of Polish anthropologists and ethnologists http:\/\/zjazd.weebly.com\/english.html. Acceso 2 de noviembre de 2016.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"bibliography\" data-no-auto-translation=\"\">Biswas, Asit y Julian Kirchherr (2015). \u201cProf, no one is reading you\u201d. <em>The Straits Times<\/em> (Singapur), 11 de abril de 2015. http:\/\/www.straitstimes.com\/opinion\/prof-no-one-is-reading-you. 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A trivialidade, a alta especializa\u00e7\u00e3o e a neglig\u00eancia em rela\u00e7\u00e3o a quest\u00f5es de amplo interesse p\u00fablico s\u00e3o problemas que precisam ser debatidos. Al\u00e9m disso, o atual ressurgimento de discursos de intoler\u00e2ncia e racismo aponta para a poss\u00edvel chegada de uma era p\u00f3s-multicultural em que o conhecimento antropol\u00f3gico precisa ser reposicionado. A Internet \u00e9 outra vari\u00e1vel importante na compreens\u00e3o do anti-intelectualismo contempor\u00e2neo, pois gera uma ilus\u00e3o renovada de transpar\u00eancia que faz com que as ci\u00eancias sociais pare\u00e7am in\u00fateis. 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